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domingo, agosto 18, 2024

Mélenchon e a realidade francesa

A insensata proposta de Jean-Luc Mélenchon de destituição de Emmanuel Macron pela Assembleia Nacional francesa no caso, mais do que provável, do presidente não vir a aceitar a candidata a primeiro-ministro proposta pelo Nouveau Front Populaire (NFP), é uma atitude sem senso e sem o menor realismo.

A esquerda, que teve nas eleições legislativas uma maioria relativa que lhe confere alguma legitimidade, mas não necessariamente uma carta branca constitucional para governar, desbarata, com este gesto de Mélenchon, a imagem de responsabilidade que vinha a procurar criar.

Desde o início que o sonho de Macron é isolar o La France Insoumise (LFI) do resto do NFP. Ao atuar agora desta forma, Mélenchon torna-se cúmplice objetivo do equilibrista do Eliseu, que procura disfarçar a todo o custo a irresponsabilidade que cometeu, ao provocar eleições e lançar o caos no sistema político.

Mélenchon só tem uma agenda: bipolarizar a França e tornar-se no polo oposto a Marine Le Pen, a caminho das presidenciais de 2027. Como se alguma vez mais de metade da França o fosse escolher, para barrar a extrema-direita. É apenas uma jogada pessoal, de "tudo ou nada". O resto da esquerda, que se havia unido a ele no NFP, não está disposto a alinhar nessa manobra, por todas as razões válidas.

Macron, que coneçou por desbaratar e dividir a sua própria família política, está agora tentar forjar um arremedo de governo de uma França supostamente "moderada", afastando dele o Rassemblement National (RN) e o LFI. Na sua postura "ni-droite-ni-gauche", consagra-se como o expoente do presidente do equívoco: destruiu a direita republicana e partiu a esquerda moderada, na sua obsessão por um centrismo cada vez menos viável.

Mélenchon é um demagogo irrealista? É, mas nada de confusões! Mélenchon não pode ser comparado a Le Pen. Tem uma história pessoal "honorable", pelo que equipará-lo à extrema-direita constitui um insulto soez. Uma coisa, porém, é evidente: ao proceder desta forma, Mélenchon ajuda ao golpe de Macron e puxa o tapete à unidade d esquerda. 

É a vida!

Pode ser que seja apenas "wishful thinking", mas fiquei ontem com a sensação de que André Ventura já se está a ver, daqui a semana...