O pai do meu pai morreu, em Viana do Castelo, 23 anos antes de eu ter nascido e só o visualizo em algumas fotografias do tempo da República, sempre com um fácies grave e um arrebicado bigode. Era maçon e tinha andado de armas na mão a defender a bandeira verde-rubra contra os "trauliteiros", na tentativa de implantação da "monarquia do Norte". Tenho, portanto, desse lado jacobino da família, alguém a quem sair, salvo no "avental" que nunca usei.
Já o meu avô materno, com o qual, com os meus pais, tive o fantástico privilégio de viver até aos meus 13 anos, era conservador, na atitude cívica e na opção profissional: foi, por muitos anos, conservador do Registo Predial, em Vila Real, depois de ter abandonado a magistratura, porque detestava ter de itinerar pelo país como juíz, optando por permanecer junto da família. Tinha nascido perto das Pedras Salgadas, em Bornes de Aguiar, sendo por lá proprietário da bela Casa do Pereiro, que felizmente continua na nossa família, onde se refugiava sempre que podia.
Não tendo carro próprio, o meu avô viajava bastante na linha ferroviária do Corgo, que ia da Régua a Chaves. Nela fazia, com alguma frequência, o percurso entre as Pedras Salgadas e Vila Real, num ronceiro comboio a vapor que julgo demorava muito mais de uma hora para percorrer o que, por estrada, não chega a 40 km. Essa linha acabou já há bastantes anos.
Creio que por uma boa dúzia de vezes, comigo nos anos de escola primária, o meu avô levou-me com ele a passar uns dias a Bornes e, recordado que estou do modo carinhoso como sempre tratou este seu neto, imagino o muito que me terá procurado ensinar sobre as terras por onde passávamos e as histórias que me terá então contado. Com pena, confesso lembrar-me muito pouco dessas conversas na infância. Contudo, recordo-me bem das viagens e de que, em alguns apeadeiros, se podia sair para colher fruta ou beber água nas fontes, sem o risco de perder o comboio, que arrancava com uma imensa lentidão.
Por que razão falo hoje aqui deste meu avô? Por causa de uma carne que comi ao jantar.
(Este tipo é obsessivo com a comida!, devem estar a pensar alguns leitores).
Nas duas casas onde vivi uma infância muito feliz com os meus pais e e os meus avós maternos, tenho das refeições uma memória de serem momentos sempre agradáveis. O meu avô era uma pessoa alegre e conversadora, tinha uma magnífica relação com o genro que era o meu pai e o ambiente, a que muitas vezes outros familiares se juntavam, refletia o modo saudável como as pessoas por ali se entendiam. Não me recordo, em todos esses anos, de ter assistido, naquela família, a uma réstea de discussão. Mas admito que eu possa ter sido poupado a algum momento menos sereno.
A minha mãe contava algumas vezes que o meu avô, que tal como eu se chamava Francisco, um dia, à mesa da refeição, se voltou para mim e disse: "Lembras-te daquela vez em que eu e tu vínhamos das Pedras e, logo depois de Vila Pouca, entre Tourencinho e Zimão, te mostrei uma vitelinha que andava por ali a pastar?" Eu terei dito que me lembrava, com ele a complementar: "Essa vitelinha, se a tivessem matado mais cedo, tinha dado uma carne magnífica. Mas não, deixaram-na crescer, chegou a vaca e devem ser dela estes bifes muito duros que agora a tua avó nos dá para comer". A minha mãe disse que toda a gente caiu em gargalhadas, com a minha avó Olívia a prometer deixar uma palavra de queixa ao Lourenço do talho.
Há algumas horas, num restaurante aqui por Vila Real, reconheci, numa peça de cachena que me serviram, e que foi quase toda para dentro, uma parente distante da tal vaca que nunca devia ter passado da vitela que eu esperava ter podido comer. E, também por isso, lembrei-me do meu avô Francisco.
