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sexta-feira, agosto 30, 2024

Helicópteros


"O senhor embaixador faz muita questão de ir à plataforma?"

A pergunta foi-me posta por alguém do gabinete do primeiro-ministro, José Sócrates. Foi no hall do Hotel Pestana, no Rio de Janeiro, em 2006. Ao final dessa manhã, José Sócrates, que estava numa visita oficial ao Brasil, iria de helicóptero visitar uma plataforma petrolífera ao largo da baía de Guanabara, creio que de uma exploração onde a GALP tinha interesses. Um embaixador, numa ocasião destas, é sempre uma "sombra" dos dignitários portugueses, pelo que estava previsto que eu o acompanhasse - imagino que com o vistoso capacete - na deslocação.

Antes que eu pudesse responder "se fazia questão", o meu interlocutor esclareceu: "É que o senhor ministro Manuel Pinho disse estar interessado em ir, mas não há mais lugares. Só se o senhor embaixador dispensar o seu."

"E tenho de pagar alguma coisa?", inquiri.

O homem, porque era um homem, olhou-me, surpreendido. Sem lhe dar tempo a retorquir, expliquei: "Eu detesto tanto andar de helicóptero que estou mesmo disposto a pagar para evitar ir. Que o meu lugar faça muito bom proveito ao senhor ministro Pinho!". E chamei um motorista para me levar à Livraria da Travessa, em Ipanema.

Detesto andar de helicóptero. Tenho sempre presente o que, sobre os seus riscos, um dia me foi dito pelo meu saudoso amigo Arlindo Ferreira, experiente piloto militar desse tipo de aeronaves, E fiquei com o trauma de menos boas experiências na Noruega, num "voo tático" da RAF durante um exercício da NATO, rasando cumes, e em Angola, numa interminável viagem de ida e volta de Luanda a Cabinda, em que eu aguardava um tiro a qualquer momento. E não me senti nada confortável em outras viagens que fiz, em alguns casos podendo tê-las evitado - por cá, nos Estados Unidos, no Congo, na Itália, no Tajiquistão, na Coreia do Sul, em Israel e também algumas outras no Brasil. Recordo os riscos que corri na Geórgia, num voo sobre as fronteiras da Inguchétia e da Chechénia, até outro, arriscadíssimo, entre a Ajária e a Abcásia. Digam-me onde posso assinar uma declaração para nunca mais andar de helicóptero.

Há poucas horas, ao ouvir notícias sobre a trágica morte de militares da GNR, num acidente de helicóptero no Douro, lembrei-me disto.

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