Estávamos a passar na Elias Garcia, ontem à noite, depois de um pneu do nosso carro me ter obrigado a encostá-lo a um passeio. (A um sábado, porque estas coisas, como é sabido, acontecem sempre aos fins de semana).
Alerta à conversa no banco traseiro, porque não se espia apenas com balões de olhos em bico, o jovem condutor do Uber, pedagógico, esclareceu-nos que, “desde sempre”, o “The Great American Disaster” só existiu no Marquês. Ele recordava-se bem!
Cada vez mais, encontro gente para quem o mundo só existe depois de eles existirem. De esguelha, na noite do carro, olhei-lhe a pinta. Tinha uns vinte e poucos anos. Até era simpático na conversa, mas convencido na sabedoria que não tinha. E para se meter comigo a discutir restauração lisboeta ainda tinha de ganhar algumas diuturnidades.
O TGAD surgiu, em Lisboa, creio que em 1978, isto é, há cerca de 44 anos. Tal como acontecera em Londres, em Fulham, nos “swinging sixties”, o TGAD, com uma localização algo excêntrica na parte norte da Elias Garcia, trazia a Lisboa um modelo novo e jovem de espaço informal para comer o que era vendido como sendo aquilo que se comia na América, isto é, hamburgers e coisas assim. As paredes eram coloridas e, numa delas, ia jurar que havia o mapa que está na imagem.
(Que me recorde - mas não garanto - outro dos escassos lugares onde, em Lisboa, nesses anos 70, se podia comer hamburguers era o Ivos’s, uma casa com poucas mesas, para onde se entrava por uma pequena escada, na Padre António Vieira, à saida da Artilharia 1. A mesma rua onde, quase ia jurar, surgiu uma das primeiras pizzarias de Lisboa.)
O TGAD da Elias Garcia não deve ter durado muito nesse local e com esse nome. O seu homólogo do Marquês existe desde o início dos anos 80. Substituiu ali o snack-bar do Flórida, histórica sede informal da estimabilíssima “Intervenção Socialista”, equivocamente chamada de “GIS”, com os seus membros, também erradamente, a serem chamados de “ex-MES”, embora nenhum deles alguma vez tenha chegado a pertencer ao MES (afastaram-se na reunião fundacional do Movimento de Esquerda Socialista) - Jorge Sampaio, Nuno Brederode Santos e outras notáveis e algumas já saudosas figuras, quase todos eles meus amigos e companheiros de futuras jornadas políticas conjuntas.
Isto de se ter alguma idade - talvez o triplo da do rapaz do Uber - dá-nos alento às lembranças. E, depois, vai-se à tecla e é como as cerejas…
Ah! Até hoje, nunca consegui saber por que diabo a cadeia de restaurantes “The Great American Disaster” se chama assim. A menos que tivesse sido inspirada em Saigão ou em Cabul…
