domingo, fevereiro 12, 2023

A febre


O meu avô paterno nasceu na Seara, uma aldeia da margem esquerda do rio Lima. Era filho único de pais com escassas posses, pelo que só conseguiu ser educado graças à ajuda de um filantropo de Ponte de Lima, que lhe pagou os estudos e o ajudou a encaminhar a vida.

Com a minha avô, com quem entretanto casou em Ponte de Lima, viria a ter seis filhos. Um dia, os meus avós decidiram ir viver para Viana do Castelo. Ainda existe a miniatura do barco no qual, em 1912, foi feita a mudança, entre Ponte de Lima e Viana, ao longo do Lima. Após ter ficado viúva, a minha bisavó foi viver com o filho e família deste. Por pouco tempo. Morreria em breve.

Ao que consta na memória familiar, a senhora era uma inenarrável chata. Faladora incessante, cansava quem com ela convivia. Desde logo os netos, que, com alguma dificuldade, se adaptavam à intensidade da presença da recém-chegada e até então pouco frequentada avó. O filho reconhecia essa peculiaridade da mãe, mas ai de quem ousasse qualificar negativamente a sua progenitora.

O meu avô, em certa ocasião, travou conhecimento com um cavalheiro, oriundo de uma aldeia próxima de Viana, no qual descortinou, precisamente, o mesmo tropismo comportamental da sua mãe: nunca se calava. Numa leve perfídia, terá tido então a ideia de provocar um encontro entre os dois.

Um dia, convidou o homem lá para casa, para um chá ou coisa assim, colocou-o numa sala com a minha bisavó e, a certo momento, saiu discretamente de cena, deixando os dois sozinhos.

A conversa terá sido relativamente longa. De fora da sala, ouvia-se um forte movimento de vozes, na interação entre os dois. Havia a curiosidade de saber como estava a decorrer aquela empenhada interlocução, mas o meu avô optou por não interromper o insólito episódio que tinha provocado.

Tudo tem um fim. A certa altura, a porta abriu-se e, desaustinada, saiu a minha bisavó, clamando: “Irra! Que homem tão aborrecido! Nunca mais se calava! Já não o podia aturar!”

Esse relato divertido, que atravessou décadas na boca do meu pai e de um dos meus tios, dava ainda conta de que a senhora teria saído com uma ligeira ponta de febre, como resultante física desse despique oral, do qual, conceda-se, o cavalheiro visitante terá saído amplamente vencedor. 

Desde miúdo, lembro-me de ouvir o meu pai dizer, qualificando alguém que falava muito: “Até faz febre!”

4 comentários:

Francisco de Sousa Rodrigues disse...

O "ego observador" da bisavó do Sr. Embaixador não era lá muito funcional, o outro era verborreico, mas ela não 🤣

Flor disse...

Agora ao ler esta Memória do Sr. Embaixador lembrei-me de quando fiz há uns anos um forte tratamento com corticoides que não me deixava estar calada nem quieta. Estavam sempre a mandarem-me falar :)

Flor disse...

Quis dizer "Estavam sempre a mandarem-me calar"!

João Forjaz Vieira disse...

Seria justo saber o nome do filantropo.

Que Praga!

Ainda bem que o jogo acabou. Estava farto de ouvir chamar Chéquia à República Checa.