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domingo, fevereiro 26, 2023

A Tourada, em Paris


Entre 25 de fevereiro e 13 de março de 1973, fui de Lisboa a Paris, para "ver" as eleições legislativas francesas desse ano. (Como sei as datas? Tenho todos os meus passaportes, desde a infância, e alguma vantagem os velhos carimbos de fronteira haviam de ter!)

Ia entrar no serviço militar obrigatório no final de março, por um período de tempo que poderia vir a ser superior a três anos, pelo que havia decidido oferecer a mim mesmo umas férias políticas, tiradas no banco onde então trabalhava. Como consegui autorização para sair do país, a semanas da recruta, é um mistério que nunca resolvi.

Paris fervilhava. A Rive Gauche aparecia, a alguns da nossa geração lusitana de então, como o centro de um mundo do futuro, do qual eu tinha a consciência de que me iria afastar, por muito tempo. Mal eu sonhava que, trinta e tal anos depois, nesse tal futuro, iria ser embaixador por lá. Há vidas piores, eu sei. 

Não, eu nunca tinha tido a intenção de dar "o salto", de "fugir à tropa", como muitos faziam. Embora detestasse o regime e a ideia da guerra, não tinha essa vontade ou, para ser simples, não tinha essa coragem. No final de março, lá iria para Mafra. Depois, logo se veria. Fiz sempre a minha vida assim, e não me dei mal.

Os livros eram, já então, a minha principal perdição, com a livraria "La Joie de Lire", a que sempre chamávamos "a Maspero", a surgir como a principal "meca". Lembro-me de que, para um amigo maoísta, futuro familiar, que me acompanhou na viagem, o destino de eleição era a livraria Fenix, no boulevard Sebastopol (que ainda há anos existia, contrariamente à primeira, já nada maoísta e convertida a orientalista). 

Para além dos comícios políticos, na Mutualité e em certos teatros de bairro, por esses dias ia-se obsessivamente, quase por obrigação cultural, a algum cinema que não passava em Portugal, frequentava-se espetáculos musicais ou teatrais, comprava-se o "Le Monde" como uma espécie de ritual vespertino, andava-se pelas universidades da moda, onde se entrava livremente e tínhamos amigos. 

Verdade seja que, para além da muita conversa e do flanar, embora em dias que recordo de algum sol e imenso frio, pouco mais se fazia. Por alguma razão, contudo, os nossos dias estavam sempre bem cheios. 

Na Cité Universitaire, por onde dormi uns dias na "Maison de Norvège", graças ao Joaquim Pais de Brito, cruzávamo-nos com cambodjanos entrapados, por aí recém-envolvidos numa trágica confrontação com mortos e feridos, fruto da deslocalização da sua guerra civil para Paris. O Joaquim, não sei se ele o saberá, mas fica a saber, era invejado por ter então, como namorada, que nos apresentou, uma norueguesa de fazer parar o metro, a Tøve, que, seis anos depois, vim a encontrar dona de uma loja de roupa de luxo em Oslo, quando para ali fui viver. O mundo das mulheres bonitas parece ser mais pequeno.

Uma tarde, na universidade de Vincennes, fui, num grupo, ouvir uma aula de Nicos Poulantzas. O seu "Fascismo e Ditadura" era então uma bíblia laica, muito em voga entre nós. Escutar a vedeta ideológica grega era uma oportunidade única. 

A certa altura, vejo-o interpelado por uma figura de bigode farfalhudo, que lembrava o georgiano "pai dos povos": "Mon cher Nicos, je suis tout à fait en désaccord avec toi..." Alguém, em voz baixa, me esclareceu: o interpelante era português e chamava-se Silva Marques. Não o conhecia, mas logo me recordei da famosa "carta aberta" que, anos antes, esse tal Silva Marques enviara aos militantes do PCP, demitindo-se, com fragor ideológico, do lugar de principal responsável do partido na margem sul. 

Depois da aula, fui-lhe apresentado. Na conversa, perguntei-lhe por um amigo, que presumia comum e que sabia estar por Paris. Grave, retorquiu-me: "Você é da PIDE?". Fiquei indignado com a reação. E disse-lho, logo apoiado por quem mo apresentara. Silva Marques, didático, explicou: "Só os provocadores é que costumam perguntar assim por alguém que está na clandestinidade". Fiquei a saber. Mas imaginava lá eu que o meu amigo andava clandestino por Paris... Anos mais tarde, nos anos 90, ao tempo em que estive no governo, vim a reencontrar Silva Marques, já como deputado do PSD, porque a vida é o que é. Rimo-nos da cena. Já desapareceu.

Num outro dia dessas jornadas de Vincennes, o José Carlos Serras Gago, outro amigo que infelizmente já se foi, e que eu conhecia bem de Lisboa, afastou-se subitamente do nosso grupo, num corredor, dizendo que ia a uma outra aula: "De quem?" perguntei, já que aquilo parecia uma parada de estrelas da cultura. "Bachelard", foi a resposta. E desapareceu, numa esquina. 

Uáu! O Bachelard! O homem da epistemologia, de quem eu tinha folheado alguns textos, nesse tempo em que julgava poder ir a todas. Mas logo me surgiu a dúvida: o Bachelard ainda seria vivo? Não havia ainda o Google à mão para tirar teimas mas, tinha quase a certeza!, o velho Bachelard, com a sua patriarcal barba branca, já deixara este mundo há uns anos. O Serras Gago levara-nos, à certa. 

À saída, confrontei-o: "Com que então, o Bachelard!? Foste à campa?". O Zé Carlos, sereno, esclareceu que ele nunca tinha dito que era "o" Bachelard. Ele fora à aula de filosofia de Suzanne Bachelard, filha do filósofo e, também ela, filósofa (morreu em 2007, diz-me o Google). E, comigo já convencido, partimos, de metro, de volta à Cité universitaire, onde o Zé Carlos pousava as noites na "Maison du Danemark". Ou seria do Líbano? Tenho de perguntar ao Quim Pais de Brito, cujo cartão universitário eu utilizava para ir comer à então melhor cantina universitária de Paris, em Jussieu. Como o Quim era careca e eu tinha um imenso cabelame, embora ambos usássemos bigode, eu colocava o polegar sobre o topo da fotografia de passe dele. E passava...

Sem surpresas, a política portuguesa, mesmo em Paris, continuava a andar à nossa volta, muito para além da campanha eleitoral francesa, que já havia a certeza que a direita ia ganhar. Através do João Fatela e do António Gomes, por indicação do António Massano, fomos uma noite a um certo apartamento a Colombes, conhecer outros "amigos de amigos". À volta de umas garrafas de vinho, falámos, por algumas horas, do Portugal distante de que se haviam exilado e de que sentiam evidentes saudades, pelo meio dos conflitos políticos que os atravessavam, com uma vivacidade crítica que fazia lembrar certos ambientes lisboetas. 

O tempo dessas pessoas, porém, era contado: não havia noitadas, porque a sua vida era muito dura e começavam a trabalhar de madrugada. Sem que isso desse origem a quaisquer perguntas, recordo que havia lá por casa pilhas de documentos da LUAR (Liga de União e de Ação Revolucionária), que então tinha Palma Inácio, preso em Portugal, como figura cimeira. Já me tenho perguntado: que será feito da gente dessa noite de Colombes? Talvez o João Fatela saiba.

Quando regressei, dei-me conta de que, na Lisboa dos nossos cafés, se falava muito no escândalo que tinha sido vitória, no festival português da canção (um evento que então parava Portugal), da "Tourada", cantada por Fernando Tordo e com uma letra hábil de Ary dos Santos, cuja ambiguidade de sentido só foi apercebida mais tarde. 

O festival tinha sido no dia 26 de fevereiro. Em Paris, onde eu então estava, nem nessa nem em qualquer outra noite, ninguém falara disso. A extraordinária "Tourada" ganhou à ditadura, saindo pela porta grande, faz hoje 50 anos, dia por dia. Caramba! E, um ano e tal depois, fizemos a festa!

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