quinta-feira, janeiro 12, 2023

Quem quer ser governante?

Devo ser eu quem está a ver mal o assunto, mas, à partida, acho muito bizarra esta ideia de um “questionário” para novos governantes. Quem convida é que tem obrigação de se assegurar previamente de que as pessoas têm as condições requeridas. Aquilo não é um “emprego”, caramba!

9 comentários:

manuel campos disse...


Bizarra e com laivos de caricata, porque aquilo não é de facto um “emprego”.
Num emprego em que é o “patrão” que convida não há lugar habitualmente a grandes questões, convida alguém que conhece bem ou lhe garantem que fará bem o lugar e é suficientemente respeitável para não trazer problemas atrás ou vir a criar novos.
Essa pessoa não sendo do conhecimento pessoal mais ou menos próximo do “patrão” (que aí pode convidar o maior vígaro, que ele é que fica mal servido e mal visto) é normalmente objecto de muita informação cruzada “antes de”.
Corre mal, porque não é assim tão competente, se vem a descobrir ter rabos de palha ou mete a pata na poça, quem convidou assume a asneira e desfaz-se da asneira que fez, da forma possível.
Ora não sendo por convite as pessoas candidatam-se a um lugar e aí têm questionários a preencher e entrevistas a comparecer, no fim até pode ser escolhido o mais ou a mais incompetente só porque o responsável dos RH achou que era assim e pronto.

Aqui não é de todo assim: o Governo convida alguém (ou convida vários ao mesmo tempo, sei lá, já estou por tudo).
E aí vão-se pôr problemas vários e bem divertidos (desde que não me convidem a mim, pensarão muitos).
Antes do mais um número considerável de gente já está hoje à rasca, com medo de ser convidada e não sabendo se os rabos de palha que tem são muito, assim-assim ou pouco inibidores da aceitação do convite que lhes foi feito (toda a gente tem um esqueleto num armário qualquer, já nem sabe onde, mas que algum jornal vai descobrir quase de certeza, ninguém imagina até onde e quando irá parar a história).
Se calhar o melhor é começar já a inventar uma desculpa.
Mas querendo arriscar como saber qual o grau de inibição em que está sem responder ao questionário?
E respondendo ao questionário sem contar tudo , mesmo tudo, serei aceite e depois aparece aí uma história qualquer que eu achava mixuruca e nem me lembrei, os jornais fazem uma festa à volta daquilo e lixo-me em grande?
E respondendo ao questionário contando tudo, mesmo tudo, serei excluído e ficarei queimado para o resto da vida sem ter sequer sido secretário de Estado durante 24 horas?
E se fôr escolhido mesmo apesar de ter contado tudo por mais mixuruca que fosse e reconhecido como tal, não terei contado demais da minha vida?
Crueís e dilacerantes dilemas!
Como não faço ideia de como será composto o questionário imagino que, tal como nas propostas de seguros, em que é suposto contarmos o nosso historial para avaliação, podemos ser apanhados na primeira esquina da vida por um papel que assinámos e onde faltava algo do passado e que será considerado “omissão” ou “má fé” e portanto considerado exclusiva culpa nossa, tivéssemos lido as letras pequeninas todas.

Flor disse...

Fazer investigação á vida do escolhido antes de este ser convidado, também não me parece bem. Dá-me a sensação de ser algo "Pidesco". Logo após ser convidado, passo a seguir responder o questionário e só depois verificar se está tudo em conformidade com a Lei.

Anónimo disse...

Segundo ouvi, é o que se faz em todo o lado. As respostas ficam escritas. Se mentiram ficam entaladas.
Fernando Neves

Luís Lavoura disse...

Mas como raio quer o Francisco que o primeiro ministro possa devassar - literalmente - a vida de um qualquer cidadão, somente porque tem em mente convidá-lo para ser ministro ou secretário de Estado?
O primeiro-ministro não dispõe - felizmente! - de meios para poder investigar todas as incidências relevantes em que um cidadão pode ter estado envolvido.

afcm disse...

É a filosofia da "cruz". Coloca-se a "cruz" e está feito. De alguns anos a esta parte, é esta a filosofia de todas as instituições. Desresponsabilizam-se com uma "cruz" no questionário em formulário de finanças. Isto é muito pobre !

manuel campos disse...


Estive a ler as 36 perguntas, como é óbvio.
Fico com a impressão que não há espaço para ser convidado alguém do sector que interessa governar pois, como é evidente, esse alguém teria que não ter nada a ver com esse sector há tempo suficiente e já estaria desactualizado, nestes tempos ficamos rapidamente “fora de jogo”, deixamos de tratar dos assuntos ou de nos dar com as pessoas certas no dia-a-dia e é um instantinho até não dizermos coisa com coisa (aconteceu comigo quando me reformei, até continuei a almoçar todas as semanas durante uns bons tempos com antigos colegas, mas não tem nada a ver).
Portanto gente competente e conhecedora vinda do sector privado (que é o que se pretende tutelar) irá continuar a fugir de desempenhar funções desta natureza, só um masoquista militante se meteria nisto, lá continuarão a aparecer pessoas que nunca trabalharam no meio ainda que porventura o conheçam muito bem no papel (melhor que nada, se fôr este último o caso).
Há ali um conjunto de questões que é evidente que se ponham mas que não deixam, para mim, de ser uma por assim dizer "menorização" do candidato, é preciso estar toda a gente muito escaldada para chegar ao pormenor de que muitas enfermam e que por vezes parecem até redundantes.
“Last but not least”, nunca falha esta amável expressão.
A última pergunta é a nº 36:
“Tem conhecimento de qualquer outro facto não identificado em cima e que seja suscetível de afetar as condições isenção, imparcialidade e probidade para o exercício do cargo para que está proposto, ainda que ocorrido há mais de três anos?”
Nesta está escarrapachadinho o que eu escrevi antes, a saber “não sabendo se os rabos de palha que tem são muito, assim-assim ou pouco inibidores da aceitação do convite que lhes foi feito” e é por aqui que alguém que passou com honra as outras 35 perguntas se pode tramar um dia.
Como os “inibidores” acima podem ter e normalmente têm mais contornos políticos do que seria desejável, quem construíu uma sólida reputação pessoal e profissional não vai querer passar a estar sujeito ao diz que disse nas primeiras páginas dos jornais.
Alguém há de sobrar, há sempre quem.
Penso no entanto que há margem para serem aqui feitos uns acertos ditados pela experiência ganha com a sua aplicação.


João Cabral disse...

Este questionário ridículo é apenas o Governo a tentar sobreviver e mostrar serviço. Suponho que pouca gente esteja disposta a passar por semelhante ultraje.

manuel campos disse...


Não havia necessidade:

https://www.courrierinternational.com/article/politique-portugal-un-questionnaire-de-proust-pour-selectionner-les-membres-du-gouvernement

Nuno Figueiredo disse...

e que fosse...

La France !

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