Por um instante, fiquei na dúvida sobre o estado de espírito daquele meu amigo. Na quinta-feira, a meio da tarde, vi-o surgir, com passo apressado e um ar que parecia como que angustiado. Íamos em sentido contrário, na rua de São Paulo, perto do fundo do elevador da Bica.
Por coincidência, o aniversário desse amigo é hoje, sábado. Ele passou já da fasquia dos setenta, por uma mão cheia de anos. Nunca o vi muito preocupado com isso, mas, às vezes, as pessoas disfarçam os estados de espírito. Seria o que justificava a sua cara fechada, aquele olhar um pouco ansioso?
Eu sabia que a vida não lhe corria mal, salvo os azares inevitáveis que fazem parte da existência de quem por cá anda e se preocupa com os que lhe são próximos, mas onde os ventos (eu sabia!), sopravam agora no bom sentido.
Reformado há muito, sempre o vi ocupado com imensas coisas que o interessavam, algumas que lhe davam “para os alfinetes” (como ele dizia, acho que por “understatement”), outras que lhe davam apenas muito gozo e entretem.
Sabia-o feliz com os muitos amigos que tem. Muitos livros, alguma escrita, viagens agora q.b. e frequência regular de mesas de comezainas, tudo isso, à evidência, o divertia e alimentava o corpo e o tempo. Um dia, esse amigo tinha-me confessado que a existência lhe tinha dado muito mais do que aquilo com que alguma vez sonhara.
E, no entanto, lá vinha ele, com ar estranho, como que a tentar escapar à leve chuva de molha-tolos que lhe humedecia o cabelo branco, já ralo.
Não gosto de me meter, sem necessidade, na vida dos outros, mas aquele fácies preocupado, pouco conforme com o tipo quase sempre com humor que eu me habituara a conhecer nele, deixou-me curioso.
Travei-o no passo, nem tinha reparado em mim, demos um abraço e perguntei-lhe: “Olha lá! Há algum problema? Vejo-te esquisito.”
Respondeu: “Claro que estou! Não consigo arranjar um táxi e tenho de estar num sítio daqui a pouco”. Era esse então o “drama”? Felizes os que chegam àquela idade e têm essas coisas como visível preocupação.
E, com uma súbita alegria a despontar-lhe no rosto, vejo-o levantar o braço: “Lá vem um, finalmente! Bolas, que susto!, pensei que não conseguia”. E, para me compensar, deixou cair: “Temos de almoçar um destes dias! Eu ligo-te!” E o táxi arrancou.
Como eu sei que esse meu amigo adora restaurantes, sobre os quais até chega a escrever, para nos abrir o apetite e, às tantas, também a inveja, acho que, um destes dias, ele vai cumprir. No dia de hoje ele só vai cumprir 75 anos.
