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sábado, outubro 01, 2022

Lula


Em 1989, por esta altura, fui de férias ao Brasil. Decorria uma campanha presidencial. Por dias, fiquei colado à televisão, arruinando horas de programas turísticos organizados por amigos. Tudo aquilo, à época, era, para mim, uma coisa nova, comparada com a cansativa política portuguesa. Começou ali a minha descoberta da imensa diversidade da vida política de um Brasil de novo em liberdade.

O favorito do sufrágio, que depois seria o seu vencedor, era Collor de Mello, um candidato “penteadinho”, com ar kennedyano e discurso plástico, claramente promovido pela Globo e pelos poderes fácticos do dinheiro. (Três anos depois, os escândalos afastá-lo-iam da presidência). O seu opositor era um sindicalista, Lula da Silva, então com um ar um pouco “troglodita”, barba larga e “look” quase ameaçador, dizendo, sem jeito mediático e o sorriso que a experiência lhe faria ganhar, algumas coisas que assustavam parte da classe média. 

Aquela campanha presidencial significou, verdadeiramente, o regresso à plena liberdade política, a consolidação da democracia, depois da aprovação de uma nova Constituição, o fecho de mais de duas décadas de sinistra ditadura militar.

Aquele era um tempo político magnífico para a vida cívica do Brasil! Ali assisti às campanhas de Ulisses Guimarães, Mário Covas, Leonel Brizola, Fernando Gabeira, Paulo Maluf e do bizarro Enéas, com os seus 15 segundos de antena (no Brasil, o tempo de campanha oficial depende da força dos partidos apoiantes), que quase só tinha tempo para dizer “Meu nome é Enéas”.

Collor ganhou, com Lula a fazer 47%. Em 1994 e 1998, Lula voltou a perder, ambas as vezes para Fernando Henrique Cardoso. Voltaria a concorrer uma quarta vez, em 2002, ganhando, dessa vez, a José Serra. Seria reeleito, em 2006, com 61%, tendo Geraldo Alckmin como principal adversário. Alckmin é hoje o seu candidato à vice-presidência. 

Estive no Brasil, como embaixador, durante parte do primeiro e do segundo mandato de Lula. Cheguei a Brasília num tempo, que já vinha de trás, de alguma euforia nas relações económicas bilaterais, com interessantes resultados de empresas portuguesas no mercado brasileiro.

Tive a sorte de poder criar com Lula uma boa relação pessoal. É uma pessoa cativante e muito agradável. Se muita gente do seu partido estava, e está, longe de ser fã das relações com Portugal, Lula foi sempre a exceção: nunca, nos quatro anos que estive no Brasil, deixei de contar com o seu permanente interesse em aprofundar as relações com Portugal. Testemunhei a atenção com que tratou interlocutores portugueses que foram ao Brasil, por esse tempo: José Sócrates, Mário Soares, Jaime Gama, Cavaco Silva, Jorge Sampaio e alguns outros. Não posso dizer o mesmo da atitude para connosco por parte da ministra que acabou por ser a sua sucessora.

Amanhã, Lula vai sair vitorioso da primeira volta das eleições presidenciais brasileiras. Se não parece muito plausível que a sua eleição possa acontecer nesta primeira volta, isso irá ocorrer, inevitavelmente, no dia 30 de outubro, no segundo turno, a menos que “o diabo vista farda”.

Lula pode ter muitos defeitos e nada garante que este seu novo ciclo político venha a ter o inegável sucesso que foram os seus oito anos de presidência. Mas tudo será seguramente melhor, para o Brasil, do que aquilo que se passou nos últimos quatro anos. E será bem melhor, para Portugal, ter Lula na presidência. O facto de André Ventura dizer o contrário conforta-me nesta minha certeza.

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