segunda-feira, 19 de abril de 2021

“Todos à molhada!”

Foi preciso que aristocracia do futebol europeu tivesse revelado, em todo o seu esplendor, a sua insuportável arrogância para que os três principais clubes portugueses (pronto! já sei! há o Braga, o Boavista e os ”loosers” de luxo - a Académica e o Belenenses) conseguissem juntar-se, num gesto de orgulho ofendido, unidos em torno de um novo “mapa cor-de-bola”, que possa resgatar a honra de uma pátria em chuteiras (valha-nos, como nunca, a metáfora do Nelson Rodrigues). Há quem chame desporto àquela belíssima arte coreografada sobre a relva, só que, de quando em vez, eventos como estes mostram-nos, muito claramente, que estamos apenas perante um negócio (estive tentado a escrever “mundo cão”, mas hesitei) de emoções irracionais, arrebanhadas de forma ululante.

4 comentários:

josé ricardo disse...

Muito bem, caro embaixador. Mas o que está aqui também em causa é a descarada hipocrisia da UEFA e de outras ilustríssimas entidades (individuais e/ou coletivas) quando afirmam que este projeto de superliga desprestigia a verdade do futebol e vai contra - pasme-se - os princípios orientadores da União Europeia, na sua majestática origem.
Mas, afinal, o que é a Champions League senão uma superliga? Ou seja: está ou não o futebol europeu desenhado para que os mais fortes fiquem mais fortes e os mais fracos permaneçam nesse limbo económico-financeiro-desportivo?
Mais hipocrisia? Basta transpor este meu argumento para o futebol nacional e olhar, por exemplo, para a descarada distribuição dos direitos televisivos pelos diversos clubes da primeira liga (sem falar nos eternos debates televisivos sobre futebol - sobre coisa nenhuma -, sem que ninguém consiga alterar o figurino.
Quer outro exemplo? Reveja os seus textos no que ao futebol diz respeito e repare se o que escreve tem alguma racionalidade. Mas descanse, como o sr. embaixador há mais (ora bem... 6 milhões de benquistas, mais 3 milhões de sportinguista, mais 3 milhões de portistas... noves fora nada...) um enxame de portugueses que se pelam pelos TRÊS GRANDES (com maiúscula e tudo).
Diga-me, por favor, e o senhor estará muito avalizado para responder: em que país se vê tal coisa?

aguerreiro disse...

Todos á molhada e em cuecas a correr atrás duma bola em cima dum prado e sem ninguém na bancada, de desporto nada tem! deve ser a nova modalidade dita deslisboa!

Pedro Sousa Ribeiro disse...

O futebol profissional de desporto nada tem. É um negócio de alto rendimento para alguns, alimentado por alienados aos milhões.

Joaquim de Freitas disse...

Clubes de futebol foram tradicionalmente vistos como bens comunitários, enraizados numa cidade ou bairro. Se houvesse um proprietário, ele tendia a ser um empresário local bem visto, mas os proprietários eram considerados meros guardiões do clube pela base de fãs. As equipas quase nunca saiam da cidade.

A notícia de que Manchester United, Liverpool, Arsenal, Tottenham, Barcelona, Real Madrid, Atlético de Madrid, Juventus, Inter e AC Milan tinham feito um acordo para abandonar efectivamente a Liga dos Campeões e substituí-la por uma estrutura praticamente fechada ,provou à maioria dos adeptos que uma cabala de donos de clubes de futebol super ricos estava disposta a deitar fora um século de tradição para encher os seus próprios bolsos.

Isto não é surpreendente. Nas últimas duas décadas, o futebol europeu foi assumido por bilionários - proprietários de super ricos de casa e de fora.

Mas as raízes do problema podem ser encontradas na viragem do século, quando o futebol europeu abriu as portas a praticamente qualquer pessoa com grandes quantias de dinheiro. E a Premier League inglesa foi talvez a liga mais fácil para alguém comprar um clube.
Em 2003, Roman Abramovich, um oligarca russo que tinha escapado a Putin, graças a Eltsine, o bêbado incorrigível, comprou o Chelsea FC e enterrou centenas de milhões de dólares no plantel.

Venceram a Premier League inglesa e a UEFA Champions League. Isso provocou uma espécie de corrida ao armamento. Para competir, os clubes precisavam dos seus próprios bilionários, levando a uma onda de vendas e aquisições de uma variedade de personagens: um antigo primeiro-ministro da Tailândia que tinha sido recentemente deposto num golpe de estado, um cabeleireiro de Hong Kong que virou investidor e acabaria na prisão por lavagem de dinheiro, um magnata saudita que os funcionários do clube nem tinham a certeza de que existia.

Hoje, quase todos os clubes da Premier League inglesa são controlados ou copropriedade de até 19 bilionários de 10 países. Em Itália, o AC Milan é controlado pela Elliot Management, um fundo de cobertura norte-americano mais conhecido por comprar dívida soberana aflita. Em França, o Paris Saint-Germain é controlado por um veículo de investimento pertencente ao Qatar. Cada um tem a sua própria razão para comprar um clube, seja lavagem de reputação ou, no caso dos donos de bilionários, a busca do lucro.

As receitas do dia de jogo dos adeptos leais já não são a principal fonte de rendimento da maioria das equipas. Isso leva muitas equipas e ligas a olharem para a exploração do enorme apelo global do futebol europeu, especialmente os acordos comerciais e de direitos televisivos em novos mercados como a China, a Índia e os Estados Unidos.

Mas há uma razão para o esquema da Super Liga:- a pandemia coronavírus. Pensa-se que os principais clubes da Europa perderam mais de mil milhões de dólares em receitas desde que o Covid-19 chegou.