quarta-feira, 7 de abril de 2021

Jorge


Há pessoas que a vida nos oferece o privilégio de, um dia, podermos vir a ter como amigos. Alguém que começamos por conhecer num registo mais ou menos distante, cujo percurso vamos seguindo e de cujas qualidades, pela atitude, pelo exemplo, pelo caráter, nos vamos progressivamente apercebendo. E que passamos a admirar.

Para mim, Jorge Coelho, que agora desapareceu, era uma dessas figuras. Criei com ele uma forte amizade e devo-lhe atenções, no nosso relacionamento pessoal e profissional, que nunca esquecerei.

Entrámos exatamente no mesmo dia para o governo, fomos convivendo por ali aquilo que as nossas funções justificavam, iamo-nos vendo e falando, ao longo desses mais de cinco anos. Havia mesmo, no início, como que uma certa cerimónia entre nós, ainda que sempre marcada por uma forte cordialidade. Fez, há pouco, 20 anos que coincidiu saírmos, também no mesmíssimo dia, do governo. Ele tinha tido então a dignidade de assumir, com frontalidade, a suprema responsabilidade política de uma tragédia ocorrida numa área que tutelava. O país reconheceria, para sempre, esse seu gesto de grande nobreza.

Depois, o Jorge veio a passar por um período muito difícil de saúde. Esteve então nos limites da vida. Recuperou, com imensa coragem, com a Cecília e a força da família a seu lado, que agora comovidamente abraço. Deu a volta à roda da vida, regressou a ela em pleno. Atirou-se, com um génio empresarial que mostrou que era o seu, a funções elevadas no setor privado. A Mota-Engil, com ele, abriu-se e expandiu-se pelo mundo. Sei bem que o seu grande amigo António Mota estará hoje, como muito poucas pessoas, a passar por um luto muito sentido pelo desaparecimento do Jorge.

Tendo abdicado por completo da política ativa, o Jorge não deixava de se interessar pela vida cívica. Nos debates televisivos, durante anos, o país apreciou a sua moderação e seu sentido da medida. Jorge Coelho era uma permanente voz da razoabilidade, sempre à luz da matriz de convicções de solidariedade que eram as suas, desde muito jovem. Pensava pela sua cabeça, era ouvido por quem lhe apreciava o equilíbrio, era um cidadão e um democrata de corpo inteiro. Mas a imagem do Jorge ia muito para além desse mundo: pergunte-se a empresários, sindicalistas e personalidades de vários setores o que o nome de Jorge Coelho lhes suscitava e observarão uma alargada opinião muito positiva.

Mas falar do Jorge, é falar também da sua imensa alegria, das histórias deliciosas que contava, do universo de coisas por que passou, que recordava sempre sem acrimónia, de onde retirava aspetos positivos. Nunca o vi rancoroso, embrulhado na intriga, que a política tantas vezes convoca. Pelo contrário, diluia conflitos e, mesmo na atitude crítica que assumia, tinha um imenso respeito pelos adversários.

Nos últimos anos, o Jorge decidiu voltar às origens. Retomando uma tradição familiar, dedicou-se à sua terra, a Mangualde, onde construiu uma unidade industrial de queijos que era, nos dias de hoje, o seu grande entusiasmo de vida. Que agora tem o seu ponto final. O país perdeu um grande cidadão. E eu perdi um amigo.

6 comentários:

Rui Figueiredo disse...

Moderação!? “...quem se mete com o PS leva...”!

Dalma disse...




Sr. Embaixador

Mesmo não estando certa de que vá contra-argumentar ou mesmo publicar o que escrevo, arrisco.
Caso:
- o meu marido foi durante anos CEO de uma empresa química. Imagine-se que um grave acidente de trabalho tinha atingido vários trabalhadores/colaboradores de forma grave!

- devia ele saltar do barco, leia-se, demitir-se e deixar os outros arcar com as consequências? Lavar as mãos como Pilates e partir para outra?

- sempre lhe ouvi dizer que tudo o que acontecia naquela fábrica era ele o responsável, portanto arcar com as consequências e resolver/tentar minimizar a situação era a sua OBRIGAÇÃO.

- costuma dizer-te que quando o navio está a afundar-se, os ratos são os primeiros a saltar fora!

Jaime Santos disse...

Os Portugueses são muito literais. Jorge Coelho era dono de um sentido de humor fino, que disfarçava com o seu ar chão... Acaso alguém leva a sério Santos Silva quando este diz que o que gosta é de malhar na Direita (mas a Esquerda também não se livra da sua análise cáustica, ausente por agora, enquanto está Ministro)?

Trata-se de combate político, Rui Figueiredo, e de uma retórica que lá porque é sempre educada, não tem que ser meiga com as incoerências dos adversários. Nye Bevan, o parlamentar trabalhista, acumulava as maneiras impecáveis com um desdém implacável pelos maus argumentos e condutas. E Jorge Coelho, porque deveria ser um homem bom, até era bastante meigo nas réplicas que dava.

São aqueles que não têm ideias e que se ficam pelos ataques pessoais os que depois se armam em virgens ofendidas quando incapazes de resposta...

Joaquim de Freitas disse...

Comentário de 8 de Abril de 2021 às 10:09:


Um CEO é responsável, em direito civil, de tudo o que pode acontecer na firma que dirige. Também fui CEO e estava bem consciente disso. Eventualmente era a lei que se aplicava.

O ministro Jorge Coelho, não era o CEO, quando a ponte caiu. O CEO encontra-se em Lisboa. Por isso acho que teve grande coragem, aquela que muitos, noutras circunstâncias, ainda mais graves, não tiveram.


Rui Figueiredo disse...

Grato pela réplica Jaime Santos. Porém o meu comentário referia-se ao estilo e não ao caráter. Quanto este não comento, quanto aquele prefiro a frontalidade, não pode é ser aceite como “moderada”

Jaime Santos disse...

O Rui Figueiredo é que não percebeu o meu comentário. Eu também me referia ao estilo de Jorge Coelho, que era uma pessoa frontal. As suas posições é que eram moderadas, mas defendia-as com toda a energia de um político de convicções. E com humor...