segunda-feira, 12 de abril de 2021

A honra do Convento


O tempo passa muito rapidamente. Em 2007, eu era embaixador no Brasil. Por cá, numa espécie de paroquial concurso da “Lusovisão”, houve a peregrina ideia de escolher “Os Grandes Portugueses”, por votação telefónica. Lá, do outro lado do Atlântico, chegaram-me ecos dessa disputa, a qual, como estava escrita nas estrelas destes certames, acabou raptada pela política de trincheiras.

Agarrei então na tecla e decidi escrever um artigo para o “Diário de Notícias”, a propósito de Aristides de Sousa Mendes, figura que se havia intrometido na guerra entre as “vedetas” que tinham polarizado a discussão. Só lhes posso dizer que esse gesto me valeu duas cartas e um telefonema, de três antigos colegas, todos escandalizados com o facto de eu ter ousado defender nesse artigo, o cônsul rebelde às orientações do “presidente do Conselho”. (Não me perguntem os nomes desses colegas, que o tempo já levou do mundo dos vivos, tanto mais que, como é amplamente sabido, eu tenho muito má memória para nomes, em especial para alguns que quero ter a caridade de esquecer - e ainda bem para eles!).

Há dois dias, cumpri um sonho: ir ver a casa da família de Sousa Mendes, que morreu quase na miséria. 

Passava por acaso numa estrada, vi a placa Cabanas de Viriato, e dei lá uma “saltada” que me fez ganhar o dia, que até ia triste.

Aqui fica a fotografia dessa casa, que, por muitas décadas, esteve em ruinas e em risco de desaparecer e que hoje, felizmente, está recuperada.

E, já agora, aproveito para reproduzir esse tal meu artigo de 3 de fevereiro de 2007, que tinha o título “A Honra do Convento”:

“A presença de Aristides de Sousa Mendes entre os dez nomes mais votados no concurso Os Grandes Portugueses constituiu para mim, ao mesmo tempo, uma surpresa e uma ironia.

Uma surpresa porque, não obstante já muitos conhecerem a história do diplomata que desobedeceu às suas instruções para obedecer à sua consciência, oferecendo vistos aos refugiados judeus que procuravam o consulado português em Bordéus, não estou certo de que a nossa sociedade tenha já, nos dias de hoje, uma sensibilidade ética tão apurada que a leve a optar espontaneamente pelo seu nome. Por isso, só posso louvar quantos se tenham mobilizado para assegurar o voto na figura honrada de Aristides de Sousa Mendes.

A suprema ironia da sua inclusão nesta lista deriva, naturalmente, do facto de, a seu lado entre "Os Grandes", figurar António de Oliveira Salazar, o chefe do Governo cujas ordens ele não respeitou e que, por essa razão, viria a destruir a sua carreira e a sua vida pessoal.

Dirão alguns que Álvaro Cunhal também figura nessa lista, e foi bem mais perseguido que Sousa Mendes. 

São coisas de natureza diferente: Cunhal foi um líder partidário e simbolizava a outra face da vida política portuguesa.

Salazar e Cunhal foram figuras mediáticas, nomes que recolheram emoções e polarizaram o País. Por isso, cada um a seu modo, foram personalidades com poder e influência, seguidos por legiões de prosélitos. Aparecerem agora votados pela nostalgia destes últimos faz parte das leis da vida.

Não era esse o caso de Aristides de Sousa Mendes. Quantos, no Ministério dos Negócios Estrangeiros de então, esboçaram um gesto para defender o colega, a dignidade da sua atitude, a preservação da sua vida profissional? 

Dir-se-á que o ambiente político não ajudava, que a repressão estava ao voltar de cada esquina. Mas, e na oposição? Quem se lembrou então de Sousa Mendes, quem denunciou os arbítrios a que foi sujeito?

Não é com agrado que constato que a minha geração diplomática, a primeira que entrou para o Palácio das Necessidades depois do 25 de Abril, foi habituada a ouvir sobre Sousa Mendes, quase sempre, palavras pouco simpáticas de colegas mais antigos do Ministério dos Negócios Estrangeiros. 

Repito: tudo isto, depois do 25 de Abril! Não exagerarei se disser que, com muito poucas e bem honrosas excepções, a opinião largamente maioritária entre os poucos que se manifestavam sobre o tema, que durante anos foi sempre "incómodo" nas conversas nas Necessidades, continuava a ser muito pouco generosa para a memória do colega rebelde, como que prolongando no tempo a condenação da sua decisão de não cumprir quanto lhe fora ordenado pelo poder instituído e assistindo, com desagrado, à valorização pública desse dissídio. E isto era tão válido para quem o tinha conhecido como para membros de gerações posteriores, que dele só haviam ouvido falar.

Recordo bem que, quando a Associação Sindical dos Diplomatas Portugueses criou, ao tempo de uma direcção de que fiz parte, um prémio a que decidiu dar o nome de Aristides de Sousa Mendes, vozes houve que, discreta mas significativamente, tentaram que ele viesse a ser titulado, nos anos futuros, por figuras diferentes da carreira diplomática. A frontal oposição de alguns de nós impediu que tal acontecesse. É que já estávamos a imaginar o que por aí viria em matéria de sugestões, para "compensar" o primeiro nome escolhido...

Há que reconhecer que, se não fosse a acção empenhada da sua família e da comunidade judaica internacional, Aristides de Sousa Mendes permaneceria, para sempre, na galeria dos nossos heróis desconhecidos. Portugal acordou muito tarde para a importância desta figura. Mas, pelo menos, acordou. 

E talvez o surgimento do seu nome entre Os Grandes Portugueses possa significar que há que não perder completamente a esperança de que, na memória coletiva do País, possa vir a sobreviver alguma dimensão ética, ao lado dos clichés politicamente corretos da nossa História e das notas caricatas dos radicalismos contemporâneos de sinal contrário.

Um tanto mais corporativamente, eu diria que fica também salva, desta forma, a honra do convento de Nossa Senhora das Necessidades.“

2 comentários:

Joaquim de Freitas disse...

Senhor Embaixador: Qual era a percentagem de Portugueses que sabia, nessa época, fazer a diferença entre os carrascos e as vitimas do regime fascista em vigor? Que era capaz de compreender o elevado significado humano do gesto do cônsul que salvou 30 mil pessoas da loucura nazi ?

Unknown disse...


Simultaneamente corria no mesmo programa a pergunta "Quem foi o pior português de sempre" ...E não é que o público indicou esse grande amigo do Sr. Embaixador: O Dr. Mário Soares ! Facto muito esquecido por muita gente, aí se incluindo o Sr. Embaixador !!!