sexta-feira, 23 de abril de 2021

A América mexe com o mundo


Já por aqui se refletiu sobre o caráter determinante que a mudança de um presidente americano assume sempre na ordem global. Nenhuma alteração de liderança, em qualquer outro país do mundo, cria tanta expetativa e concita tanta atenção. A razão por que isso acontece é óbvia: muitas das orientações oriundas de qualquer que seja o titular da Casa Branca refletem-se nos vários cenários estratégicos internacionais.

Biden foi acolhido com o alívio de quantos esperam ver a América regressar a uma certa forma de “business as usual”. A maioria anseia ter uns EUA previsíveis na sua postura, face às grandes questões mundiais, ao invés dos humores cíclicos de uma figura, que oscilava entre o caricato e o irresponsável.

Dito isto, convém nunca esquecer que um presidente americano é, essencialmente, um presidente dos americanos e dos seus interesses - e esses interesses nem sempre coincidem com os dos outros. Por isso, para além da simpatia e da expetativa amável, o mundo vai ter que se confrontar, adaptando-se ou não, a uma nova ordem que aí virá. E os EUA, podendo conversar com os seus aliados, habituaram-nos já a não pactar as suas grandes decisões estratégicas.

No campo internacional, já se começaram a perceber algumas coisas essenciais.

Desde logo, que a China é o inimigo estratégico e que os EUA tudo farão para coligar, à sua volta, o conjunto de vontades que possa ajudar a isolar o poder de Beijing. Tendo criado a noção, provavelmente certa, de que, no tempo de Trump, a América perdeu tempo, que a China utilizou para reforçar o seu poderio e capacidade de afirmação, Biden não quer desperdiçar a oportunidade de se colocar, muito rapidamente, à frente dos aliados asiáticos da América, na resistência à nova assertividade chinesa. Quando utiliza, cada vez mais, a expressão “indo-pacífico”, Washington assinala querer cooptar para esse seu esforço o parceiro essencial que é a Índia. É por aqui que, tudo o indica, vai passar o esforço político, diplomático e militar, que estará no centro da administração Biden.

Deixar de ter “boots on the ground” (botas no chão) é também, já desde há muito, um objetivo tendencial de Washington. As memórias do Vietnam ou do Iraque não fazem parte de um património afetivo do imaginário americano, ao contrário da Segunda Guerra mundial.

As ameaças aos adversários são feitas, cada vez mais, de outra forma e Biden - como já tinha acontecido com Obama e mesmo com Trump - pretende corresponder à vontade, que se sabe muito expressiva, da opinião pública americana de ter o mínimo possível de tropas no exterior, em especial em zonas de risco efetivo ou potencial. A confirmação da decisão de sair do Afeganistão, que se soma ao continuado “desengajamento” no Médio Oriente, vai nesse sentido. Isso compensará, com certeza, a necessidade de presença em outros teatros simbólicos, como a Alemanha ou a Coreia do Sul.

Interessante, neste desenho estratégico, é, contudo, a conflitualidade - que quase parece estimulada - com a Rússia. Onde Trump mostrava tibieza e até uma estranha cumplicidade, Biden faz renascer aquilo que foi a linguagem mais jingoísta do tempo de Obama. O regresso da Ucrânia à primeira linha de alguma mobilização, retórica e não só, acarreta, contudo, consequências que não são despiciendas para a própria unidade das vontades europeias. Sabemos bem que, no seio da União Europeia, o discurso face à Rússia não é necessariamente unívoco. A questão do gasoduto Nordstream 2, que é uma obsessão estratégica americana, é, por exemplo, um problema sério de decisão para uma Alemanha que atravessa um complexo ano eleitoral. Mas há bastante mais.

Ainda na Europa, e tendo começado por sossegar os seus aliados quanto à continuidade do seu interesse na Nato, os Estados Unidos irão, quase como contrapartida, forçar uma maior clareza face à questão chinesa. A ausência do Reino Unido no processo de debate intraeuropeu neste domínio não facilita as coisas para Washington, mas este promete ser um tempo nada fácil em Bruxelas.

Trump deu à Europa muitas dores de cabeça? Biden vai-nos colocar equações bem complicadas para resolver. Vão ver!

3 comentários:

Unknown disse...

Hoje:
DIA MUNDIAL DO LIVRO

Boas leituras.
Bom fim de semana.

Luís Lavoura disse...

Eu não entendo porque razão anda Biden a antagonizar simultâneamente a China e a Rússia. Compreendo que a China seja um rival estratégico para os EUA. Mas a Rússia?! Para quê perder tempo com a Rússia, quando o real problema é a China?

Joaquim de Freitas disse...

Na mitologia do Império Anglo-Sionista, Putin é Satanás que encarna o mal. E, segundo Biden, Putin é "um assassino".

Nunca tal linguagem foi usada pelos ocidentais durante a Guerra-fria, ao mais alto nível. Então por que este ódio de Putin?


Embora Yeltsin quase tenha destruído a Rússia como país, Putin sózinho "ressuscitou" a Rússia num espaço de tempo surpreendentemente curto. De um país esfarrapado e de uma população que só queria tornar-se futura Alemanha ou, na sua falta, a próxima Polónia, Putin fez da Rússia a potência militar mais forte do planeta e reformulou completamente a percepção dos russos sobre si e a Rússia.

Além disso, Putin utilizou todas as medidas tomadas pelo Ocidente (como sanções, boicotes ou ameaças) para fortalecer ainda mais a Rússia (através de meios como a substituição de importações, conferências internacionais e manobras militares). Mais importante ainda, Putin separou a Rússia de um grande número de instituições ou mecanismos controlados pelos EUA, um movimento que também tem servido enormemente a Rússia.

Na verdade, o Ocidente tem uma longa lista de razões para odiar Putin e tudo o que é russo, mas acredito que há uma razão que os ultrapassa a todos: os líderes ocidentais acreditaram sinceramente que tinham derrotado a URSS durante a Guerra-fria (foram mesmo feitas medalhas para comemorar este evento) e, após o colapso da antiga superpotência e a chegada ao poder de uma marioneta alcoólica e perturbada, o triunfo do Ocidente foi total. Pelo menos na superfície. A realidade, como sempre, é muito mais complicada.

Putin, que não era bem conhecido no Ocidente ou, aliás, nem na Rússia, chegou ao poder e inverteu imediatamente a queda da Rússia no abismo. Primeiro abordou as duas ameaças mais urgentes, os oligarcas e a insurreição wahhabi no Cáucaso. Muitos russos, ficaram absolutamente atordoados com a rapidez e determinação das suas acções.

Putin de repente encontrou-se um dos líderes mais populares da história russa. No início, o Ocidente sofreu uma espécie de choque, depois instalou-se num frenesim russofóbico nunca visto desde o regime nazi , durante a Segunda Guerra Mundial.

Portanto, Putin é o Diabo, porque os líderes do Ocidente realmente pensaram que desta vez, depois de um milénio de embaraçosos fracassos e derrotas, o Ocidente tinha finalmente "derrotado" a Rússia, que agora se tornaria um território sem líder, cultura, espiritualidade e, claro, sem história, cujo único uso seria fornecer recursos ao "Ocidente triunfante".

Depois houve o Dombass, a Crimeia e a Síria. Nesta sequência, a Rússia cometeu dois tipos muito diferentes de "crimes" (do ponto de vista anglo-sionista, claro):

O pequeno crime de fazer o que a Rússia realmente fez e o crime muito mais grave de nunca ter pedido permissão ao Império para o fazer.

Os americanos recordam-se da frase de Mao, que se a China devia perder 1 milhão ou 10 milhões de mortos numa guerra com os EUA na Coreia, os americanos quando chegassem a 100 000 não podiam mais…

Os americanos vão fazer cocegas à China, mas de longe. Na Europa, é diferente. A NATO está às portas de Moscovo e utiliza a Ucrânia como cavalo de troia para beliscar os russos.

Num futuro previsível, só restam duas opções para a Ucrânia: "um fim horrível ou um horror sem fim" (expressão russa).E a Europa não mexerá dum centímetro.