sábado, 10 de abril de 2021

Ou não?

Quem, no dia de hoje, critica o estado da justiça portuguesa são exatamente as mesmas pessoas que a estariam a aplaudir se acaso as coisas se tivessem passado de outra forma. Ou não?

3 comentários:

Joaquim de Freitas disse...

Leio frequentemente o mesmo discurso sobre o « totalitarismo » do regime de Pequim.

Pequim celebrou o 70.º aniversário da República Popular e a fanfarra, como de costume, irrita ou aqueles cujas inclinações ideológicas não toleram que um "país comunista" se orgulhe tanto dele. Mas vale a pena olhar para a China objectivamente, para ver o que lhe permitiu passar de um país de pobreza para uma das maiores economias do mundo numa geração.

Estava lá em 1964 – Obrigado Charles De Gaulle e Mao - , e acompanhei a sua evolução durante dezenas de anos.
Os críticos da China gostam de dizer que, apesar dos seus sucessos económicos, “a evolução positiva não foi acompanhada, em variadas zonas, por uma evolução benévola para fórmulas democráticas de gestão do poder político”, colmo escreve o Senhor Embaixador, “mantendo a máquina totalitária mais ou menos incólume e, porventura, ainda mais eficaz” .

Pois,trata-se de um velho conceito chinês, e foi o credo de Deng Xiaoping, que acreditava que os factos em vez de dogmas ideológicos - sejam eles do Leste ou do Ocidente - deveriam servir como critério final para determinar a verdade.

Pequim concluiu, examinando os factos, que nem o modelo comunista soviético nem o modelo democrático ocidental poderiam ser aplicados à modernização de um país em desenvolvimento, e que a democratização não precedeu a modernização, mas mais frequentemente a seguia. Como resultado,

Pequim decidiu em 1978 explorar o seu próprio caminho de desenvolvimento e tomar uma abordagem pragmática de tentativa de experiências e de erros, para o seu enorme programa de modernização.

A primazia das condições de vida do povo. Pequim adoptou este velho princípio do governo chinês com base no facto de a erradicação da pobreza ser o direito humano mais fundamental. Esta ideia abriu caminho ao imenso sucesso da China, que numa geração retirou quase 400 milhões de pessoas da pobreza mais abjecta, um sucesso sem precedentes na história humana.

Pode dizer-se que a China suplantou uma negligência histórica no domínio dos direitos humanos defendido pelo Ocidente que, desde o Iluminismo, se tem preocupado quase exclusivamente com os direitos civis e políticos. Esta ideia pode ser de grande importância para os pobres do mundo.

Porque, Senhor Embaixador, era preciso ver o que era a China em 1964….nos campos e nas cidades!

Joaquim de Freitas disse...

Pequim estabeleceu um conjunto de prioridades e sequências para as várias fases da transformação, com reformas fáceis seguidas de reformas mais decisivas e difíceis - ao contrário da política populista de curto prazo seguida pela maior parte do mundo de hoje.

Totalitário? Governo como uma virtude necessária. Na longa história da China, os tempos prósperos sempre foram associados a um Estado forte e esclarecido. Contrariamente à opinião americana de que o Estado é um mal necessário, a transformação da China foi liderada por um Estado comprometido com o desenvolvimento. E ao contrário de Mikhail Gorbachev, que abandonou o seu antigo estado para acabar com um império em pedaços, Deng Xiaoping reorientava o seu antigo estado da utopia maoísta para a modernização.

O Estado chinês, independentemente das suas falhas, é capaz de promover um consenso nacional sobre a modernização e de prosseguir objectivos estratégicos difíceis, tais como a imposição de reformas ao sector bancário, o desenvolvimento de energias renováveis ou o estímulo à economia face à depressão global.

A boa governação é mais importante do que a democratização. A China rejeita a dicotomia estereotipada entre a democracia e a autocracia e considera que a natureza do Estado, incluindo a sua legitimidade, deve ser definida pela sua substância, ou seja, pela sua boa governação, e julgada sobre o que pode alcançar.

Apesar das suas deficiências em termos de transparência e instituições jurídicas, o Estado chinês construiu a economia mundial que mais cresce e melhorou drasticamente as condições de vida dos seus cidadãos, como o Senhor Embaixador implicitamente o reconhece: 88% dos chineses em 2018 mostraram-se optimistas quanto ao seu futuro, à frente dos 17 principais países consultados pela Pew, um centro de investigação sediado em Washington.

Educação selectiva e adaptação. A cultura centenária da China defende a aprendizagem dos outros. Os chineses desenvolveram uma notável capacidade de assimilar e adaptar-se selectivamente a novos desafios, como evidenciado pela rapidez com que abraçaram a revolução da tecnologia informática e rapidamente a demonstraram.

A China enfrenta ainda muitos desafios, como o combate à corrupção ou a redução das disparidades regionais. Mas é provável que continue a evoluir com base nestas ideias, em vez de tomar o partido da democracia liberal ocidental, porque estas ideias foram aparentemente frutíferas e casadas relativamente bem com o bom senso e a cultura política única do país, fruto de vários milénios - que compreendem mais de 20 dinastias, sete das quais duraram mais do que toda a história dos Estados Unidos. !

O Senhor Embaixador escreve: “um modelo de economia de Estado ter colocado, se assim se pode dizer, o aproveitamento das vantagens do mercado ao serviço do poder desse mesmo Estado”

Eh oui ! Embora a China continue a desfrutar das lições do Ocidente, talvez seja altura de o Ocidente, segundo a famosa frase de Deng, "emancipar o seu pensamento" e aprender para o seu próprio bem um pouco mais sobre as grandes ideias da China, uma civilização por si só - por muito diferentes que pareçam, para enriquecer a capacidade do mundo de enfrentar sensatamente desafios que vão desde a erradicação da pobreza às alterações climáticas e ao choque de civilizações.

O Senhor Embaixador, conhece o mundo melhor que eu, ou doutra maneira, que passava a minha vida nas fábricas, mas o Senhor disse tudo na sua frase:” Com isto quer-se significar algo que parece hoje evidente: a prevalência do mercado está longe de poder garantir, só por si, um acréscimo automático de liberdade ao comum dos cidadãos.”

Joaquim de Freitas disse...

Senhor Embaixador, peço me desculpe pelos textos longos. Claro que se o Senhor estimar dever amputà-los ou mesmo anular, compreenderei.