sexta-feira, 16 de abril de 2021

O meu candidato

Hesitei em escrever sobre a caricata situação protocolar que envolveu a presidente da Comissão Europeia e o presidente do Conselho Europeu, durante a visita conjunta que fizeram a Ancara. Mas vou fazê-lo, para aproveitar para uma declaração pessoal de interesses.

O incidente é conhecido. Em face da oferta pelo presidente turco de uma única cadeira para a representação da União Europeia que ambos ali titulavam, na reunião que iam ter, restando uns sofás e quiçá umas otomanas suplementares, assistiu-se a um espetáculo pouco dignificante: Charles Michel, presidente do Conselho Europeu, sentou-se logo ao lado de Erdogan, na cadeira do convidado. Ursula Van Der Leyen, depois de emitir uma interjeição de surpresa, foi obrigada a ir para um sofá, numa posição claramente secundária.

Gostava de começar por uma clarificação: é completamente sem sentido, relevando de uma pura ignorância, a ideia de que, por uma questão de etiqueta e simpatia, Michel deveria ter cedido o lugar a Van Der Leyen, por se tratar de uma senhora. A questão não é essa, longe disso. Se Van Der Leyen se tivesse sentado na cadeira, obrigando Michel a ir para o sofá, o caso era precisamente igual.

A União Europeia, pelo Tratado de Lisboa, criou uma bicefalia no seu topo. Para além da pessoa que preside à Comissão Europeia, foi nessa altura decidido eleger uma personalidade para presidir às reuniões de chefes de Estado e de governo, os Conselhos Europeus, dando uma maior continuidade a essa função, assim evitando a rotação semestral. No fundo, era uma resposta à clássica queixa irónica, feita um dia por Henry Kissinger, que afirmava não saber qual era, afinal, o ”número de telefone” da Europa. Passou a ter dois.

As “vítimas” dessa decisão, tomada pelos “tratantes” do Tratado de Lisboa, foram precisamente os chefes de Estado e governo, que deixaram de presidir a quaisquer reuniões. Ao contrário de Cavaco Silva em 1992, de António Guterres em 2000 e de José Sócrates em 2007, nos dias de hoje António Costa não chefia nenhuma reunião dos seus colegas, durante a presidência portuguesa da União Europeia. É o belga (valão) Charles Michel que, tal como já acontecera com o também belga (mas flamengo) Van Rompoy e o polaco Donald Tusk, cada um por dois anos e meio, renováveis, exerce hoje essa função. 

Como antes referi, ao lado desse presidente do Conselho Europeu existe, como sempre existiu, um presidente da Comissão Europeia, neste caso uma mulher. A regra - repito, isto não tem a menor discussão - é que não existe qualquer hierarquia entre os dois. Por exemplo, quando à União Europeia foi atribuído o Prémio Nobel da Paz, o galardão foi entregue simultaneamente a Durão Barroso, então presidente da Comissão, e a Van Rompoy. A equidade protocolar dos dois é indiscutível. E espero que ninguém se lembre de falar do presidente do Parlamento Europeu, que não é chamado para este assunto.

O que se passou em Ancara representou, por parte de Charles Michel, não um deselegante gesto de descortesia perante uma senhora: foi um gesto político, profundamente errado, ao ter-se arrogado uma preeminência hierárquica sobre a presidente da Comissão Europeia. Alguém vir argumentar com erros de protocolo ou com o desprezo dos turcos pelas mulheres é uma perfeita idiotice. Michel, ao ver a cena montada, com apenas uma cadeira para a União Europeia, deveria, pura e simplesmente, ter-se recusado a ocupar essa mesma cadeira sem que ali fosse colocada outra, perfeitamente idêntica, para Van Der Leyen.

Se Charles Michel já vinha a ser considerado, há bastante tempo, o mais incompetente dos três presidentes permanentes que o Conselho Europeu teve até hoje, a cena de Ancara não lhe trouxe um grão mais de popularidade. Bem pelo contrário: ao titular este erro político afastou as possibilidades, que já eram residuais por razões de equilíbrios partidários, de poder vir a ser reconduzido.

Ora eu, depois de tudo o que atrás disse sobre a incompetência de Michel, gostaria imenso que Charles Michel continuasse no cargo: era ele o meu candidato preferido. Porquê? Não digo. Ou melhor, só digo que é por razões estritamente luso-portuguesas...

14 comentários:

José disse...

A Ursula von der Leyen fez uma figura triste! Só a "ideologia" que hoje nos domina é que pode permitir que não se refira que a vitória de Erdogan lhe foi dada pela alemã. Foi ela que, com aquela paragem e o "hã?" permitiu criar o momento de embaraço que o turco pretendia. Se ela tivesse visto a cena e avançado calmamente para o sofá, nada se teria passado e o ditador teria tido que engolir em seco. Mas não... a "senhora" tinha de marcar posição e, claro, o Erdogan agradeceu.

O belga fez má figura porque podia ter-se sempre levantado e ir sentar "alegremente" ao lado da colega. E ainda poderia sacar uam graçola do tipo "estamos sempre juntos".

Agora, o cúmulo do asco é ver gente que passa a vida com o credo feminista na boca a dizer que o "homem" devia ter cedido o lugar à "senhora"... (homem/senhora - só isto já dava pano para mangas).

Luís Lavoura disse...

Excelente post, instrutivo. Obrigado ao Francisco por o ter escrito.

Luís Lavoura disse...

Michel, ao ver a cena montada, com apenas uma cadeira para a União Europeia, deveria, pura e simplesmente, ter-se recusado a ocupar essa mesma cadeira sem que ali fosse colocada outra, perfeitamente idêntica, para Van Der Leyen.

Pois, mas depois levantar-se-ia a questão: quem ocuparia a cadeira mais próxima de Erdogan? (Ou será que Michel e Leyen ficariam cada qual do seu lado de Erdogan?) E, quando fosse para dar o aperto de mão da praxe, para as fotografias, quem o daria? Quem ficaria na fotografia a apertar a mão a Erdogan?

Outra questão que se levanta é, se a União Europeia tem um encarregado da política externa, que é Borrell, que raio têm Leyen e Michel que andar a fazer política externa? Será que isso está nas suas incumbências? Então se a incumbência de Michel é presidir ao Conselho Europeu, e a incumbência de Leyen é presidir à Comissão, que raio tem qualquer deles que andar a representar a União em negociações internacionais? Não é precisamente para isso que Borrell serve, ou deveria servir?

Francisco Seixas da Costa disse...

Luis Lavoura está a confundir as coisas. Borrell é um subordinado de Michel e de Van Der Lyen. Representa a União, sob controlo do presidente do Conselho Europeu, e é vice-presidente da Comissão Europeia. E “quem pode o mais pode o menos”: Van Der Leyen e Michel mandam Borrell fazer o que entendem e avocam a sua capacidade quando entendem. Era como se Costa ou Marcelo não pudessem ter ação externa porque existe Augusto Santos Silva.

Joaquim de Freitas disse...

Entre as várias leituras ,há aquela quase universalmente utilizada que seria a expressão do sexismo/machismo de Erdogan.

Ora sabemos que na Turquia, um país no qual houve uma alternância entre as antigas maiorias seculares ligadas aos militares, e governos do tipo islamista, existe há algum tempo uma batalha política e cultural entre uma componente duma sociedade fortemente ocidentalizada, principalmente urbana, e o interior do país, islamista e tradicionalista.

De acordo com os parâmetros culturais ocidentais (partilhados por uma parte da sociedade turca), a visão de mundo do tradicionalismo islâmico é "machista". É até praticamente o arquétipo do "machismo".

Aqueles que partilham este quadro cultural, não têm qualquer dificuldade em estigmatizar esta visão de mundo e considerá-la, precisamente, como "machista".

Mas a este nível, digamos, antropológico-cultural, a pergunta que devemos fazer não é:

"Porque é que ele não é como eu, que é tão culturalmente exemplar?", mas: Quem está habilitado para corrigir os quadros culturais dos outros?».

Sim, porque, da mesma forma, um intelectual islâmico pode começar a dar-nos sermões de manhã à noite sobre o facto de sermos uma sociedade sem Deus, sem piedade dos "perdedores", com uma juventude desorientada, famílias à deriva, sem respeito pelos idosos, com pessoas que venderiam a avó por um smartphone. , etc., etc.

E no que se refere a estas críticas, que muitos de nós não teriam qualquer dificuldade em aceitar, devemos, no entanto, responder que, sim, obrigado, são problemas que nós, com os nossos meios e as nossas leis, procuramos tratar, e que ele deve ocupar-se dos seus próprios problemas.

Começar a libertar-nos do sentimento atávico de superioridade do género "fardo do homem branco", que se coloca na situação de lançar gritos morais a todos, seria um primeiro sinal de maturidade.

Mas trata-se de uma reunião diplomática, que é algo cuidadosamente preparado por pessoas que sempre trataram estas questões. Portanto, pensar que na origem deste gesto, existe simplesmente a mente machista de Erdogan, é obviamente estúpido.

Os dispositivos que organizam estas reuniões conhecem perfeitamente os interlocutores e as suas expectativas. A forma como os outros são tratados numa reunião diplomática nunca é a expressão de uma simples "disposição cultural instintiva".

Assim, quando o Rei Salman da Arábia Saudita vem visitar-nos, não nos recusamos a receber as suas esposas porque, no nosso país, a poligamia é um crime.
Podemos desaprová-la interiormente, mas diplomaticamente será tratado de acordo com um protocolo que vai além das expectativas culturais dos outros.

Se não for esse o caso, é porque queríamos enviar um sinal político. Se o protocolo negociado foi violado, somos confrontados com um gesto público, simbólico, espetacular e premeditado.

Portanto, a questão não é o "sexismo de Erdogan", mas o possível significado político do acto.

E então as perguntas poderiam ter sido:

Será que só um gesto para satisfazer a frente interna conservadora na Turquia?

Ou será um ataque pessoal devido às críticas da senhora von der Leyen a Erdogan há algumas semanas?

Ou será uma forma de dar prioridade à representação dos Estados (Michel) e não à da Comissão (von der Leyen)?

Ou talvez seja um gesto de desprezo pelo qual Erdogan quer fazer com que todos vejam que se podei infligir qualquer insulto à UE, porque estas pessoas podem estar a moralizar todo o universo, mas vêm depois disso para negociar, o chapéu na mão ,para que mantenhamos os migrantes longe de casa (para que as belas almas progressistas nunca vejam os problemas à sua frente. , ou mesmo nas suas zonas residenciais).

Joaquim de Freitas disse...

O Senhor Embaixador escreve: " E “quem pode o mais pode o menos”: Van Der Leyen e Michel mandam Borrell fazer o que entendem e avocam a sua capacidade quando entendem. Era como se Costa ou Marcelo não pudessem ter ação externa porque existe Augusto Santos Silva."

16 de abril de 2021 às 13:55.


E tem razão, Senhor Embaixador. O que me incomodou mais neste “Sofagate”, é que a Turquia insiste que este era exactamente o protocolo acordado.

Do lado europeu, não houve desmentidos, apenas a recomendação geral: "Isto não deve voltar a acontecer" (dirigida a quem? Para o corpo diplomático em si?).

Miguel Félix António disse...

O que mais me interessa comentar neste apontamento, é a razão pela qual o senhor Embaixador a terminar, diz ser Michel o seu candidato preferido para continuar como Presidente do Conselho Europeu.
Será porque teme que, assim não sendo, o próximo Primeiro Ministro de Portugal pudesse vir a ser o atual Ministro das Obras Públicas?

josé neves disse...

«...mas: Quem está habilitado para corrigir os quadros culturais dos outros?»
e
«Assim, quando o Rei Salman da Arábia Saudita vem visitar-nos, não nos recusamos a receber as suas esposas porque, no nosso país, a poligamia é um crime.
Podemos desaprová-la interiormente, mas diplomaticamente será tratado de acordo com um protocolo que vai além das expectativas culturais dos outros.»

Caro Freitas toda a exposição quer parecer argumental logicamente mas depois constata-se que o argumento não é correto.
Vejamos; quando nós recebemos Salman (ou o antigo ditador líbio) respeitamos as expectativas culturais dos outros (Rei da Arábia Saudita ou ditador líbio)então porque mesma razão Erdogan não deve respeitar as expectativas culturais europeias?
Parece-me até que o uso diplomático corrente é respeitar quem recebe os que representam outros costumes culturais e não o contrário; ou não?

álvaro silva disse...

Para a próxima a sra. Van der Leyen deverá levar um/uma assistente para o que der e vier. A dar-se o caso de não haver cadeira, faça como a rainha Ginga do reino N'Gola quando foi visitar um meu avoengo governador de Angola, de seu nome João de Sousa. A senhora Ginga ao constatar a falta de assento fez com que uma das suas escravas se pusesse "de quatro", sentando-se nos lombos da preta. Hoje os tempos são outros mas o sultão da Turquia bem precisava duma lição similar.

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Miguel Felix António. Foi o único que me percebeu!

Luis Ferro disse...

Se Miguel Félix António foi o único que o percebeu, muito nos conta, senhor Embaixador! EMas mesmo muito!

Francisco Seixas da Costa disse...

Pois é, Luis Ferro. Ele foi o único que leu o que o título queria dizer.

Carlos disse...

Sr Embaixador e prezados comentadores, a fazer fé as notas biográficas e no site da Comissão Europeia o nome correcto da Presidente é Ursula von der Leyen. Isso mesmo VON, em minúsculas - numa tradução coloquial o equivalente ao “de” tão comum nos nomes de família de muitos portugueses. Embora possa parecer um detalhe menor, fico perplexo por tantas pessoas, desde comentadores a locutores televisivos persistirem no erro.

José Figueiredo disse...

Concordo com a posição do Embaixador sobre a conveniência de recusar o encontro enquanto o tratamento protocolar igual não estivesse assegurado. Mas, não deixaria de ser um grande embaraço para o Sr. Erdogan se Michel se sentasse no sofá e desse o lugar à Sra. van der Leyen. Ainda há uma outra coisa, é que embora protocolarmente iguais a figura de Presidente da Comissão é muito mais antiga do que a figura de Presidente do Conselho europeu.
José Figueiredo