Vou escrever uma coisa que apenas alguns entenderão. Paciência!
Bolsonaro considerou que o ministro da Defesa que antes tinha escolhido o não defendia politicamente. E demitiu-o. Porque também não apreciava a postura do chefe do Exército, que tinha tido atitudes que ele via como marcadas por uma demasiada independência, demitiu-o também. E, de caminho, para mostrar quem manda, mudou as chefias da Marinha e da Força Aérea e os titulares de outros cargos militares.
Bolsonaro é quem é e o que é. Mas Bolsonaro é o presidente que o Brasil quis e foi eleito em total liberdade.
(O facto de Dilma Rousseff ter sido afastada do Planalto numa jogada política a que só um cego dá alguma legitimidade e de Lula ter sido impedido de concorrer à eleição presidencial pelos artifícios que hoje se conhecem e são incontestáveis, não altera um facto essencial: na disputa eleitoral com Fernando Haddad, Bolsonaro ganhou de forma clara. Apetecia-me mesmo acrescentar, para alguns amigos brasileiros: “É bem feito!”, mas não quero ser cruel).
Num país presidencialista como é o Brasil, Bolsonaro tem o pleno direito de nomear ou demitir ministros e os chefes militares, como muito bem lhe der na sua real gana. Não existe nenhuma limitação constitucional a que assim proceda.
(Valha a verdade que este princípio tem alguns limites políticos não escritos: foi para acomodar uma pressão do Congresso, de que necessita no seu caminho para procurar garantir a reeleição, que Bolsonaro se sentiu obrigado a dispensar o ministro das Relações Exteriores, cuja manifesta inépcia já tinha passado a fronteira da razoabilidade. Para “compensar” a ala ideológica do governo e o “partido” de Olavo de Carvalho, muito protegido pela sua família, nomeou para o Itamaraty um diplomata de segunda classe e manteve no gabinete da sua assessoria Filipe Martins. Mas isso são “contas de outro rosário”. E alguma desta coreografia também se prende com os compromissos a respeitar com o “centrão”, que conduziram a outras mexidas no executivo, de que a mais espampanante é a entrada de Flávia Arruda).
Mas voltemos ao essencial. O presidente do Brasil mudou todos os poderes militares e colocou lá outros que, pelos padrões profissionais, lhe são basicamente equivalentes e que já afirmaram a sua subordinação institucional. É claro que nomeou um novo ministro da Defesa que, à última hora, decidiu mudar o texto da mensagem que tinha sido preparada pelo seu antecessor, destinada a ser divulgada na data do golpe de Estado (a direita brasileira diz “a Revolução”, como cá os adeptos da ditadura faziam com o 28 de maio). No texto, onde dizia que esse movimento devia ser “compreendido”, ele mudou para “celebrado”. Está tudo dito.
O essencial que aqui hoje quero dizer é que se trata de uma excelente notícia que o presidente do Brasil, escolhido (bem ou mal, isso é outra história) pelo povo brasileiro, tenha podido mudar, a seu bel-prazer, todas as chefias militares sem que isso tenha provocado o “tilintar dos sabres”. O poder político legítimo manda, o poder militar obedece. É assim em democracia.
Mas imagino que alguns não queiram entender este texto.