sábado, 3 de abril de 2021

Bolsonaro e os militares

Vou escrever uma coisa que apenas alguns entenderão. Paciência! 

Bolsonaro considerou que o ministro da Defesa que antes tinha escolhido o não defendia politicamente. E demitiu-o. Porque também não apreciava a postura do chefe do Exército, que tinha tido atitudes que ele via como marcadas por uma demasiada independência, demitiu-o também. E, de caminho, para mostrar quem manda, mudou as chefias da Marinha e da Força Aérea e os titulares de outros cargos militares.

Bolsonaro é quem é e o que é. Mas Bolsonaro é o presidente que o Brasil quis e foi eleito em total liberdade. 

(O facto de Dilma Rousseff ter sido afastada do Planalto numa jogada política a que só um cego dá alguma legitimidade e de Lula ter sido impedido de concorrer à eleição presidencial pelos artifícios que hoje se conhecem e são incontestáveis, não altera um facto essencial: na disputa eleitoral com Fernando Haddad, Bolsonaro ganhou de forma clara. Apetecia-me mesmo acrescentar, para alguns amigos brasileiros: “É bem feito!”, mas não quero ser cruel).

Num país presidencialista como é o Brasil, Bolsonaro tem o pleno direito de nomear ou demitir ministros e os chefes militares, como muito bem lhe der na sua real gana. Não existe nenhuma limitação constitucional a que assim proceda.

(Valha a verdade que este princípio tem alguns limites políticos não escritos: foi para acomodar uma pressão do Congresso, de que necessita no seu caminho para procurar garantir a reeleição, que Bolsonaro se sentiu obrigado a dispensar o ministro das Relações Exteriores, cuja manifesta inépcia já tinha passado a fronteira da razoabilidade. Para “compensar” a ala ideológica do governo e o “partido” de Olavo de Carvalho, muito protegido pela sua família, nomeou para o Itamaraty um diplomata de segunda classe e manteve no gabinete da sua assessoria Filipe Martins. Mas isso são “contas de outro rosário”. E alguma desta coreografia também se prende com os compromissos a respeitar com o “centrão”, que conduziram a outras mexidas no executivo, de que a mais espampanante é a entrada de Flávia Arruda).

Mas voltemos ao essencial. O presidente do Brasil mudou todos os poderes militares e colocou lá outros que, pelos padrões profissionais, lhe são basicamente equivalentes e que já afirmaram a sua subordinação institucional. É claro que nomeou um novo ministro da Defesa que, à última hora, decidiu mudar o texto da mensagem que tinha sido preparada pelo seu antecessor, destinada a ser divulgada na data do golpe de Estado (a direita brasileira diz “a Revolução”, como cá os adeptos da ditadura faziam com o 28 de maio). No texto, onde dizia que esse movimento devia ser “compreendido”, ele mudou para “celebrado”. Está tudo dito.

O essencial que aqui hoje quero dizer é que se trata de uma excelente notícia que o presidente do Brasil, escolhido (bem ou mal, isso é outra história) pelo povo brasileiro, tenha podido mudar, a seu bel-prazer, todas as chefias militares sem que isso tenha provocado o “tilintar dos sabres”. O poder político legítimo manda, o poder militar obedece. É assim em democracia. 

Mas imagino que alguns não queiram entender este texto.

4 comentários:

Tony disse...

Sr. Embaixador. Eu entendo perfeitamente. Só digo, uma coisinha. O Povo brasileiro, tem o que merece. Como aqui, já aconteceu, semelhanças. Escolheram um energúmeno, ditador e troglodita, para Presidente. Ontem, fiquei triste, numa breve entrevista, da RTP 1, ao Lula da Silva, a despropósito, desatou a tecer loas de admiração e a defender tenazmente o ditador Maduro da Venezuela. Além disso, ainda fez referências negativas ao Secretário Geral da ONU, que por acaso é português e no meu modesto, ponto de vista, tem feito, dentro dos atuais condicionalismos, um bom, possível e excelente trabalho. Apesar de tudo, tinha um fraquinho, pelo personagem Lula e ontem perdi-o.

Joaquim de Freitas disse...

Tony, Lula conhece certamente melhor o contexto venezuelano e Maduro mesmo, que o Senhor ...Mas que o homem não lhe agrade é outra história E tem todo o direito. Ouso perguntar se Guaido é seu o homem...

Lúcio Ferro disse...

E capaz de ser uma democracia à la venezuelana, só não tem é os americanos e os europeus a fazerem uma brutal guerra económica tecnológica e outras há décadas, confiscando bens, sabotando infraestruturas, sonegando importação de bens essenciais, travando exportações de matéria bruta e mil uma patifarias mais, que se escondem debaixo do tapete politicamente correto dos media a soldo. Sem dúvida, seria interessante ver o que tem sucedido no país tropical irmão sob outras lentes; desde o golpe de estado que depôs Dilma, passando pela prisão de Lula ao destrambelhamento atual. Conviria fazer uso de lentes menos seletivas, mas isso dá trabalho e cria inimigos.

Joaquim de Freitas disse...

Lucio Ferro diz: "só não tem é os americanos e os europeus a fazerem uma brutal guerra económica tecnológica e outras há décadas, confiscando bens, sabotando infraestruturas, sonegando importação de bens essenciais, travando exportações de matéria bruta e mil uma patifarias mais, que se escondem debaixo do tapete politicamente correto dos media a soldo."

Perfeitamente dito.

Mesmo Portugal ,em Abril 1974, se o MFA tivesse ido mais longe no seu programa revolucionàrio inicial, teria sucombido no caos venezueliano, se os mesmos que cruzavam ao largo, sob a bandeira da NATO,tivessem recebido a ordem do mestre de Washington, de fazer "uivar" a economia portuguesa...

Nao sei se Mario Soares deixou notas das suas conversas com Carlucci. Nao foi com Cunhal que beberam o chà...