terça-feira, 6 de abril de 2021

Da Argaçosa ao Pat Boone


A antiga praça de touros de Viana do Castelo começou a ser demolida. 

Já reparei que há quem ache isso um atentado contra o património edificado local e, por outro lado, quem considere que se trata de um sinal saudável dos tempos, em especial numa cidade que, há muito, já havia decidido não realizar, para sempre, touradas. Creio que só estive naquelas bancadas uma única vez, para uma garraiada. 

No lugar, irá surgir um complexo desportivo moderno e, pela imagem que foi divulgada, parece que bastante funcional.

A praça de touros da Argaçosa - quantas pessoas de Viana a conhecerão ainda por esse nome? - fez parte do meu cenário de infância. Era um lugar de namoro, dentro dos carros, com uma fama pouco recomendável para levar raparigas, por se situar numa área distante do centro da cidade. Ficava nas cercanias das Azenhas de Dom Prior, uma interessante estrutura movida pelas marés que entravam pelo Lima acima, e que desconheço se ainda é preservada.

Ainda a anteceder tudo aquilo, logo que se passava por debaixo da ponte Eiffel, havia o Límia Parque. Continua a existir. Ali prendi a andar de bicicleta, que se alugava ao quarto de hora. Chegou a estar bem na moda! Tinha um belo café, lanchava-se por lá, sempre com música. Havia um ringue de hóquei e tudo confinava com o ténis. Durante muito tempo, o Límia Parque foi “o” lugar da modernidade de Viana. Grandes festarolas ali se realizaram.

No café do Límia Parque, recordo-me, havia uma máquina de “pôr discos”. Cada música custava “uma coroa” (50 centavos) e, como bem assinala o “Chico Rendeiro”, um amigo que tem o heterónimo de Francisco Trindade Lopes, carregando no J6 saía o “Anastasia”, do Pat Boone.

Não tenho artes de lhes reproduzir aqui o cheiro, que era único, do “mazagran” (já ninguém sabe o que isso é), que se servia no Límia Parque. Mas, em compensação vou deixar o “cheirinho” musical do J6. Ouça aqui.

5 comentários:

jj.amarante disse...

Eu gostava de mazagran e constato que existe descrição na Wikipédia. Do Pat Boone preferia o "Love Letters in the Sand" mas essas músicas dos fifties eram para os meus primos um pouco mais velhos. As minhas eram mais dos sixties.

amadeu moura disse...

Se bem me lembro, 30 minutos de aluguer de uma bicicleta de miudo, custava dez tostões!

AV disse...

Perdeu-se um pouco o hábito de beber mazagran, o que é uma pena. Noutros países a tradição do café gelado mantém-se muito forte - na Grécia, por exemplo, as variedades de frappés, freddo espresso & companhia são uma ‘instituição’. E tão boas, que acabei por comprar por lá uma máquina de frappé.
Quanto ao resto, saúdo o espírito progressivo Vianense.

Maria Isabel disse...

Como sempre adoro estas história
Esta música é muito bonita, mas pouco divulgada.
Obrigada por ma recordar
Maria Isabel

aguerreiro disse...

O Limia Parque continua aberto sem o glamour que conheceu. Depois de passar pelas mãos dum padre "perito" em maus olhados e espíritos possessivos, "correu" com a clientela normal e ficou com a que lhe convinha (os crentes) que justificavam o manter o negócio aberto, O padre já faleceu há muito, mas um familiar continuou com o "consultório" Quanto ao sistema de moinho de pás (em bronze), de marés, este foi regularmente saqueado pelos ciganos da vizinhança. ( a dona deste, a Zézinha Leão ainda foi perder tempo e dinheiro para os tribunais sem qualquer efeito práctico. Tinha piada o senhor Nicanor seu marido, a contar as peripécias do julgamento). Acabou por ser expropriado, ou melhor espoliado pelo governo do Guterres no âmbito da Polis e agora está integrado no Parque da Cidade, embora aparentemente fechado