segunda-feira, 29 de julho de 2019

O chapéu



Uma das rotinas mais interessantes dentro do Ministério dos Negócios Estrangeiros foi, durante muitos anos, a função do chamado "correio de gabinete". Tratava-se de transportar uma “mala diplomática”, portadora de documentos de elevada confidencialidade, função de que eram quase sempre encarregados os diplomatas mais jovens. 

Todas as semanas, um funcionário circulava entre várias capitais, levando consigo uma pasta, fechada com selos de chumbo. Era normalmente pequena, mas também podia acontecer ter dimensões bem maiores, sendo nesse caso complicado (embora sempre obrigatório) assegurar o seu transporte na cabine dos aviões, nunca perdendo o volume de vista.

O roteiro de quem ia "de mala" foi variando, em função de diversos fatores e conjunturas. Na Europa, recordo ter-me deslocado, por mais de uma vez, a Londres, Bruxelas, Viena e até a Belgrado. Madrid, Paris e Estocolmo, se bem me lembro, também foram abrangidas pelo circuito deste tipo de "malas acompanhadas". Viena era o centro de contacto com as nossas embaixadas das capitais "comunistas" e os colegas nelas colocados estavam sempre ansiosos para dar um salto à capital austríaca, para buscar ou trazer essa correspondência. Fora da Europa, ia-se a Nova Iorque e a Washington.

Há que confessar que era uma tarefa bastante agradável: uma semana de dispensa de serviço e uma viagem, com ajudas de custo, por cidades simpáticas, embora um pouco numa correria (em Londres ficava-se um dia mais e eramos alojados num pequeno quarto, no edifício da chancelaria). 

Embora houvesse como que uma escala na atribuição deste encargo, existiram sempre, no Ministério, os chamados "papa-malas", que tinham meios de obter informação prioritária sobre a indisponibilidade pontual dos funcionários escalados e, de imediato, se voluntariavam para os substituir. Às vezes, chegado o bom tempo, até diplomatas bem mais velhos, já mesmo conselheiros de embaixada, faziam um pouco discreto lóbi para "irem de mala", pela vontade de efetuarem uma bela viagem à custa do erário.

Hoje, vistas as coisas à distância, tendo a concordar que uma das vantagens concretas desta instituição dos "correios de gabinete", num tempo em que se viajava muito menos, era ajudar a aculturar os jovens diplomatas com o mundo exterior, ainda antes de serem colocados no seu primeiro posto.

A história que vou contar, verídica e clássica nas Necessidades, passa-se em Lisboa, numa determinada repartição, creio que nos anos 60.

Um velho e prestigiado embaixador está à conversa numa sala onde trabalham diversos diplomatas. A certo momento, fica a saber-se que um dos jovens secretários presentes vai "de mala", na semana seguinte. O rumo da conversa, por uma qualquer razão, deriva para a questão dos trajes e fala-se de usar ou não chapéu. O embaixador volta-se, então para o jovem secretário que irá "de mala" e inquire: "E o colega, usa chapéu?".

Ser tratado por "colega" por um embaixador "chevronné" era uma distinção que, à época, deixava os mais novos orgulhosos e, desde logo, quase obsequiosos. O rapaz, um tanto aturdido, responde que ainda não, que nunca tinha usado chapéu. O embaixador, experiente, adiantou: "Meu caro amigo, usar chapéu, na Carreira, não é obrigatório. Mas é um hábito que fica sempre bem, que dá muita classe. Se o meu amigo quer um conselho, compre um chapéu. Vai ver que, em algumas ocasiões, isso lhe dará uma grande elegância".

Seduzido pela atenção que lhe era dispensada por tão alta figura da "Casa", o jovem diplomata deixa escapar que, pensando bem, vai acabar por comprar um chapéu. Aliás, recordava-se que até já tinha pensado nisso, mas nunca se tinha decidido, em definitivo. Mas agora, "já que o senhor embaixador recomenda", irá mesmo comprar um.

Nesse instante, o embaixador exclama: "Olhe lá! Lembrei-me agora: você vai a Londres! Não há melhor cidade do mundo para chapéus. Mais do que isso: estamos na época dos saldos! E, em Londres, onde você encontra estupendos chapéus é no Bates, ali na Jermyn Street. São magníficos! Porque não aproveita? Você vai estar lá dois dias, dá uma saltada ao Bates e compra um chapéu".

O jovem secretário sente-se impulsionado, entre o rápido convencimento e uma subliminar intimidação, e concede: "De facto, é uma boa ideia. Vou passar por lá e compro um chapéu.". "Faça isso, homem, faça isso, é uma bela oportunidade!", diz o embaixador, dando ares de se encaminhar para a porta de saída da sala.

De repente, porém, o embaixador estaca. E, voltando-se para o jovem colega, inquire: "Então você vai mesmo comprar o chapéu?". "Vou, vou" diz o outro, já num tom entre o decidido e o resignado, começando a estranhar a insistência. Aí, o velho diplomata lança-lhe: "E vai ao Bates? Excelente! É, de facto, a melhor opção! Aliás, dá-se uma coincidência curiosa, de que agora me recordo: eu tenho um chapéu encomendado, precisamente no Bates. Se o colega lá vai comprar o seu, podia levantar o meu chapéu e trazer-mo. Já está pago. Tem aqui talão. Fico-lhe muito grato...."

(Na memória dos claustros das Necessidades, o embaixador da historieta terá sido o histórico António de Faria e o jovem secretário foi o (mais tarde também) embaixador Melo Gouveia).

9 comentários:

Luís Lavoura disse...

"Aguenta António de Faria, a fidalguia", cantava o Fausto.

Luís Lavoura disse...

era uma tarefa bastante agradável: uma semana de dispensa de serviço e uma viagem, com ajudas de custo, por cidades simpáticas

Na minha humilde opinião, andar de avião de um lado para o outro, a dormir em hotéis e tomar táxis em cidades desconhecidas, é tudo menos uma tarefa agradável. É muito stressante.

Jose Martins disse...

Senhor Embaixador,
Entre muitas histórias que me contou embaixador Melo Gouveia essa do chapéu não foi englobada. Lidamos juntos muitos anos e falamos pelo telefone oito dias antes de falecer. Nas recepções de embaixada, depois de todo pessoal estrangeiro partir, gostava de ficar com alguns portugueses residentes, junto à base do pau da beira a contar histórias. Todo o pessoal, muito interessado ria-se. Eu sabia que tudo que ele contava eram “galgas”, porque já me tinha dito: “ó pá eu sou um habilidoso mentirosos”. Partiu para Japão e numa ocasião passou por Bangkok para receber a agraciação Infante Dom Henrique em Lisboa. Fui buscá-lo, no meu carro ao aeroporto e deixei-o no hotel. No mesmo dia fomos jantar e numa conversa minha, responde-me: “Zé Martins quem te ensinou a mentir?” Respondi-lhe: “foi o embaixador Melo Gouveia” . Mas o que eu lhe fui dizer.... Quase me batia!

Saudações de Bangkok

Francisco Seixas da Costa disse...

O Luis Lavoura saberá, com certeza, que o António de Faria celebrado pelo Fausto era o da “Peregrinação”

Anónimo disse...

E as “ piadas “ já não se percebem ?
Com certeza era a intenção do Luís Lavoura ...

Anónimo disse...

A mim ensinaram-me a não ridicularizarmos as pessoas , sobretudo quando já não estão entre nós ... nem sequer se podem defender , dizer : mas isso não se passou assim , foi assado . A isto chamam-se boatos ou como se diz agora fake news ...
E depois há sempre a família , pode não gostar ... Talvez fosse mais simpático , quando quiser publicar “ histórias “ que foram passando de de boca em boca , não pôr nomes nos intervenientes ! Porque contar é uma coisa , publicar é outra .
Já sei que vai dizer “ ora essa , o blogue é meu e eu publico o que me apetecer “ . Está coberto de razão mas um conselho ainda não é proibido e ainda não paga impostos ...

Francisco Seixas da Costa disse...

Ao Anónimo das 13:40. Se acompanha este blogue, verificará que tenho o permanente cuidado de não identificar as pessoas que protagonizam as historietas, quando essa identificação lhe pode ser negativa. Não é o caso deste episódio do qual, quer o embaixador Faria, quer o meu amigo Melo Gouveia, não saem minimamente beliscados. Antes pelo contrário!

Anónimo disse...

Seixas da Costa, e quando se referia, em privado, ao Mello Gouveia, como "Melro Gouveia? Lembra-se? Pois, pois...

Francisco Seixas da Costa disse...

Ao comentador das 15:11. Nunca na minha vida me referi assim ao Melo Gouveia nem sequer alguma vez ouvi, a quem quer que fosse, usar essa expressão. E, gostava de notar, confessaria, sem o menor problema, se tivesse usado essa (boa) graça, pode crer.