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quinta-feira, julho 18, 2019

O soufflé


Era num desses países onde a tradição manda que o dono da casa, no início dos jantares formais, diga sempre umas palavras sobre cada um dos convidados, sem nenhuma excepção, mesmo os cônjuges. O exercício parece fácil mas, para um embaixador estrangeiro, para quem muitas das pessoas presentes são conhecimentos recentes, alguns com nomes bizarros, a tarefa torna-se bastante complicada. O recurso a uma cábula, discretamente colocada em frente do anfitrião, é a solução natural.

Aquele meu embaixador - porque é de um embaixador português que falo -, pouco tempo após a sua chegada àquela capital onde eu também estava colocado, passando a trabalhar sob as suas ordens, começou a perder a paciência para seguir sempre, nos seus jantares, o protocolo local. Ele que era um profissional consciencioso nos seus deveres de representação social, oferecendo frequentes refeições a convidados estrangeiros.

Um dia, teve uma ideia e decidiu-se por um expediente, que considerou ser uma imbatível “trouvaille”. No início da refeição, disse: "Eu tinha a intenção de saudar cada um dos presentes, como aqui é de regra, mas acabo de saber de um impedimento que, julgo, todos compreenderão: a entrada é um soufflé! Ora um soufflé, como é sabido, não pode esperar, deixa de ter graça se passar o tempo, e sou agora avisado, da cozinha, que ele já está pronto a ser servido. Assim, com as minhas desculpas, peço que todos se considerem cumprimentados... e desejo-lhes apenas bom apetite!"

Os convidados entenderam perfeitamente a pressa do embaixador e o jantar decorreu da melhor forma. Tudo estaria muito bem se o nosso diplomata não tivesse decidido enveredar, em jantares seguintes, e quase sistematicamente, pela repetição do "truque" que lhe permitia evitar o discurso. E, a partir de certa altura, não se deu conta de que alguns dos convidados eram “repetidos” e que, por isso, já tinham ouvido a estafada história do soufflé mais de uma vez. A qual acabou por se tornar famosa no corpo diplomático local...

Há uns anos, regressei a essa cidade e jantei com um desses convivas, que me perguntou: "Que é feito daquele simpático embaixador português que, durante anos, para evitar fazer discursos, dava sempre soufflé como entrada?"

José Carlos de Vasconcelos

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