quarta-feira, 24 de julho de 2019

Tanques chineses no Rossio


Segundo um rumor posto a correr nos últimos dias por setores conservadores radicais, um espetro pode vir a ameaçar a estabilidade do nosso sistema político: com as últimas sondagens a apontar para a possibilidade de as "esquerdas" terem mais de 2/3 dos deputados na próxima legislatura, elas poderiam ser tentadas a provocar, em conjunto, uma revisão constitucional de sentido extremista.

Imagino que não deva tardar o anúncio do "óbvio": vaga de nacionalizações, ataques à propriedade privada, desafio das regras europeias, a NATO em causa, quiçá uma reforma agrária no fim da linha. Em suma, o "perigo vermelho". As condicionantes europeias, o chefe do Estado, enfim, toda a história política do PS, tudo isso é indiferente aos imaginativos adeptos desta singular teoria da conspiração.

Nos anos 80, quando Mitterrand gizou a maioria de esquerda que governou a França, houve quem chegasse a "prever" a chegada dos tanques russos à Praça da Concórdia. Admito que, agora, possam ser tanques chineses no Rossio...

Em política, não vale tudo. No equilíbrio interno das ideologias, sente-se que a direita atravessa um mau momento, como o próprio presidente da República o reconheceu, mas isso não autoriza a que alguns a colem a um delírio, que tem tanto de insultuoso para os adversários democráticos como de ridículo para a sua própria credibilidade política, tantas são as razões que infirmam, pelo absurdo, todos esses receios.

Sabemos que alguns andam por aí à cata das perceções de insegurança, com que procuram construir políticas tributárias de medos obsessivos. Outros vão tendo, por estes dias, pulsões liberais agressivas (leiam-lhes os inomináveis cartazes), feitos de brisas da escola de Chicago, traduzidos por cá em calão político populista. Mas a grande maioria das pessoas que entre nós se afirmam de direita, respeitadoras do compromisso constitucional, sabem que o essencial do seu projeto está hoje refletido no quotidiano da nossa vida em sociedade, como parte de um sistema político que ajudaram a construir e que - a níveis presidencial, parlamentar e autárquico - lhes concede, com as regras de alternância, um livre acesso regular ao espaço de exercício de poder. Tal como à esquerda.

A ironia do cenário do "golpe" constitucional é que ele acaba por funcionar como um subliminar fator em favor da bondade de uma maioria absoluta para o PS. É que, perante esse "perigo", votar maciçamente nos socialistas pode acabar por ser a melhor garantia de que estes ficam sem pressões radicais à sua esquerda.

9 comentários:

Anónimo disse...

Quando pessoas de esquerda dizem que em política não vale tudo ficamos a saber que, pelo menos, o humor vale. E muito!

António disse...

Não gosto de maiorias absolutas. Acho muito bom que quem governa tenha travões às derivas.

Anónimo disse...

Um antigo ex-dirigente do CDS escreveu um artigo alarmista nessa linha. Para intimidar os votantes e fazê-los votar à Direita, possivelmente. Hoje temos uns comentadores de Direita, que aliás dominam praticamente toda a imprensa, que classificaria de Direita histérico-radical.

Anónimo disse...

Sim, é preciso ter muito medo da maioria constitucional à esquerda; E, por isso, e para não dar força a qualquer esquerda que se apresente como tal, votar em qualquer dos execráveis partidos que se apresentam à direita.

João Vieira

António disse...

Os comentadores de direita dominam praticamente toda a imprensa. Essa é forte.

aamgvieira disse...

Quando tudo corre bem >>>>>> é obra do governo , principalmente do Kosta !

quando tudo corre mal >>>>>> a culpa é:

1º do Governo anterior
2º dos privados
3º dos autarcas da direita
3º do psd e/ou do cds

Anónimo disse...

Os comentadores das 21,47 e das 22,32estão cobertos de razão . A esquerda está de tal maneira receosa de não ter maioria absoluta que vale tudo para convencer os eleitores . Caro Embaixador , tenha calma . E quer se queira ou não a realidade é esta : o País nunca esteve tão mal ... e o que aconteceu de bom foi só a consequência duma governação dura mas necessária do anterior governo ...

Anónimo disse...

Sem comentários a este post pois é propaganda à antiga, nada de novo.

Anónimo disse...

Para saber com o que podemos contar, se isto virar um novo PREC, deixar uma recomendação: Leia-se o último número da Revista L'Histoire sobre "Les Mondes du Goulag" na Rússia, Alemanha, China e Coreia.
Os tanques chineses nem pela rota da seda desembarcam aqui. Mas as ideias talvez possam voar nesta direcção. Veremos.

Aproveito para deixar uma recomendação muito especial ao Sr. De Freitas para esta leitura.