domingo, 7 de julho de 2019

O mundo de Bonifácio


Entrei ontem num avião, ainda não eram sete da manhã. Levava um montão de jornais e revistas. Foi folheando tudo para uma “primeira leitura” (quantas vezes, a única!), na sonolência matinal. Até que, a certo ponto, acordei: um artigo de Fátima Bonifácio, no “Público”, tirou-me o sono. Pelas piores razões.

Devo dizer que raramente vi surgir na imprensa portuguesa um texto tão racista e xenófobo como o que a historiadora (que o é, com mérito, sobre o século XIX) ontem escreveu. Fiquei indignado, mas talvez só um pouco mais do que costumo ficar ao lê-la regularmente, ali ou no “Observador”.

A gravidade desta publicação prende-se, essencialmente, com o seu caráter exemplar. Há bastante quem pense como (ou pior do que) Fátima Bonifácio, mas muitos, quiçá cientes da baixeza daquilo que pensam, temem em dizê-lo alto. Agora, ao verem aquela que é tida como uma figura da intelectualidade a proferir aquelas barbaridades, podem sentir-te confortados para poderem vir a terreiro expressar esses mesmos sentimentos. Esse é o principal risco.

Aquilo a que iremos seguramente assistir, nas próximas horas ou dias, por parte de alguma extrema-direita que, pela nossa imprensa, se faz passar apenas por conservadora, vai ser o reclamar do direito à liberdade de expressão. Como se esse direito pudesse alguma vez ser invocado para a propagação de ideias que promovem o desprezo pela diferença, a discriminação e o ódio.

O texto de Bonifácio tem o mérito de poder servir como um bom separador de águas. Veremos quantos, oriundos do seu lado do espetro das ideias, têm a coragem (e, essencialmente, a decência) de dela se afastarem de forma clara. E o “clara” é muito claro: é não utilizarem um “não, mas”, relativizante, subtilmente cobarde, com medo de, ao criticarem demasiado Bonifácio, correrem o risco de poderem ser vistos a atravessar a trincheira.

Há hoje por aí a emergir um Portugal miserável nos princípios, bilioso no caráter, arrogante na atitude, onde alguma argumentação soez surge revestida com ares intelectuais. Vamos chamar os bois pelos nomes: está aí a surgir um proto-fascismo. Nos últimos tempos, a luta desesperada contra as esquerdas adubou-lhes a raiva e revelou-lhes o íntimo. Ora esse é um país que é imperioso combater, sem tibiezas, denunciando profilaticamente uma deriva que pode colocar em causa o equiíbrio do nosso futuro coletivo, o qual, para ser decente e pacífico, deve ser de tolerância e de compreensão. Tudo o contrário do mundo de Fátima Bonifácio.

31 comentários:

Unknown disse...


À parte os preconceitos ideológicos, suponho, então, que será a favor das quotas para ciganos e africanos e de alargamento e facilitação do acesso ao ensino superior para essas etnias.

Paulo Guerra disse...

O mundo do MP?

http://www.noticiasonline.eu/um-pais-e-uma-democracia-sequestrados-pelo-ministerio-publico/

aamgvieira disse...

Democracia é assim mesmo, liberdade de expressão e opinião sem insultos !

O mundo está farto de ditaduras de pensamento único: dos nazis aos comunistas, existem variados exemplos e o senhor também os conhece, alguns, ainda andam por aí......

Anónimo disse...

In Observador:

"A maioria dos socialistas não entende a democracia como uma competição entre forças políticas distintas com a mesma legitimidade.

A democracia é apenas uma forma de chegar ao poder com o apoio do povo"

Anónimo disse...


Para um não-politizado como eu que não li o artigo:

A opinião de cada um merece sempre uma crítica tendo em conta o pensamento de cada um.
É essa a liberdade de expressão numa democracia. Claro que numa republica democrática já não é assim.
Agora escolham sem vergonha onde cada um deseja ficar.
Não será preciso chamar a carbonária para resolver isto se de facto o regime vigente for um democracia.

António disse...

O caro embaixador talvez não goste da idéia, mas enquanto o centro democrático não parar de se apoucar, o populismo fermenta. Há a percepção de que os políticos que se têm alternado no poder são, todos, venais. Todos arrogantes. E os factos e declarações infelizes ou fora de contexto não ajudam.
Eu tenho a percepção de que os políticos do centro moderado só ouvem o povo, não quando este grita de desespero, mas quando suspeitam que não votará neles. Que o Estado é forte com os fracos e demasiado tolerante com gente a quem foram dadas grandes responsabilidades, gente que deveria ser um exemplo, não um mau exemplo.
Não serei eu a caír na tentação do totalitarismo de feira, ávido de capitalizar os descontentamentos mais díspares, mas compreendo-o. O centro democrático moderado está a tornar a vida demasiado fácil aos proto-fascistas, os de esquerda e direita. Não creio que esteja para breve o surgimento de extrema-direita em Portugal, mas a profilaxia passa, não só por silenciar vozes, mas por corrigir rapidamente a assimetria gritante entre Estado e povo. É muito perigoso deixar as gentes num ponto em que sentem que já nada há a ganhar, porque aí já nada há a perder - e o resultado pode ser mau.

Anónimo disse...

Em muitos textos sobre este artigo ainda não vi nada senão a questão das cotas.
Não há nada sobre as reais competências dos diversos trabalhadores para o cargo que vão ocupar.
Não sei se uma maior cota destes ou daqueles se compadece com a necessidade de uma real competência para o trabalho requerido.
Isto até pode parecer como o caso relatado em que alguns administradores de Bancos se limitaram a assistir a alguns conselhos de administração para fazerem número.
Isto tá bonito tá.

Anónimo disse...

Cá por mim o que o chateou tanto não foi a Maria de Fátima Bonifácio ter tido a coragem de escrever algumas verdades q *todos* sabemos ser verdade mas de ter criticado o seu amigo Rui Pena Pires. E nós já sabemos q quem se mete com o PS, leva.

Francisco Seixas da Costa disse...

Ao Anónimo das 15.09. Nunca tinha ouvido falar desse nome. Até ontem.

Anónimo disse...

O seu problema é o de muitos: nunca ter vivido na "real". Não vai ao supermercado num bairro pobre, não vai ao centro de saúde, não anda de transportes públicos (esqueça lá a primeira classe do Alfa), não vive paredes meias com bairros sociais. Nessa bolha de classe média alta onde o whiskey (deixe lá os pormenores da ortografia da bebida), substitui a "mini", não há problemas, apenas conceitos. O remédio que eu lhe prescrevia era o de ir viver com a "populaça" durante uns tempos, sem direito a bares finórios e clubes de cavalheiros. Talvez lhe passasse a arrogância com que etiqueta os outros.

Anónimo disse...

Francamente acho que o Sr. Embaixador, e é justo dizer que há um coro de "virgens ofendidas" no mesmo tom, estão a ver um cenário de "que aí vem lobo" e nem um cordeiro se vê. Não sei se é ingenuidade se é propositado. O debate de ideias morreu.

aamgvieira disse...

Excelente o comentário do anónimo das 19:16, na "mouche" !

Anónimo disse...

É uma historiadora ou um historiador????? Nome de mulher em cara de homem ... o Sr. Embaixador enganou-se na foto, ou é mesmo assim????

AV disse...

Francisco Seixas da Costa, inteiramente de acordo com i) “raramente vi surgir na imprensa portuguesa um texto tão racista e xenófobo”, ii) “tem o mérito de vir servir como um bom separador de águas” e iii) “há hoje a emergir um Portugal miserável nos princípios […]está aí a surgir um proto fascismo”.
Há uma frase que diz algo parecido com “Está na altura de começar a bater no capim para trazer as cobras à superfície”. As cobras estão a aparecer por livre vontade, sem constrangimento nem contrição, com um discurso que é normalizado pelos veículos que o difundem. O Editor do Público fez bem em reconhecê-lo. Isso não o livra de contribuir para a visão de Portugal como uma sociedade com racismo institucionalizado.

Joaquim de Freitas disse...

Estes indivíduos: roubaram-me muito demais no meu passado, para lhes conceder mais tempo hoje.

Mas resta que é preciso identificar esta gente e, por outro lado, a democracia deve ter presente no espirio que a boa maneira de os combater é "melhorar" a sociedade desenvolvendo a educaçao das massas e trazer justiça social a todos os desamparados da sociedade injusta que é a nossa, e que sao as presas dos demagogos .

O problema hoje não é o retorno do fascismo, mas quais são os perigos que a democracia pode gerar por si só, quando a maioria da população - ao menos, a maioria dos que votam - elege democraticamente líderes nacionalistas, racistas ou antissemitas.

Anónimo disse...

@ Sr Freitas.

"....a democracia deve ter presente no espirio que a boa maneira de os combater é "melhorar" a sociedade desenvolvendo a educaçao das massas e trazer justiça social a todos os desamparados da sociedade injusta que é a nossa, e que sao as presas dos demagogos....".

Educação das massas e trazer justiça social....WOW sr Freitas.
"Let's go back to the future".
No entanto não sei se as massas aguentam tanta doutrina sem mortes em revoluções violentas como desde há 100 anos. O tempo não volta para trás sem mais nem menos e sem encargos elevados.

josé ricardo disse...

O texto de Fátima Bonifácio dispara em várias direções e, por isso, não sai de ideias generalistas. Não posso, obviamente, concordar com algumas asserções de raça evocadas por Bonifácio. No entanto, estou em crer que devemos ser também cautelosos com a "outra parte" da história, precisamente aquela que é visado pela historiadora. Diz esta respeito, se bem a entendo, a uma tendência (que existe na nossa sociedade, e que vai desde os bicharocos às mulheres, passando pelas minorias) de igualitarização nas oportunidades por decreto (os direitos, excluindo os bicharocos, estão, naturalmente, fora desta equação, pois fazem parte do nosso património republicano e democrático e que se inserem na linha esboçada pela Declaração Universal dos Direitos do Homem, em 1948). Nesse ponto, já desconfio muito destes arautos. O problema é bem mais complexo do que se julga. Tudo se facilitaria se, em primeiro lugar, o enfoque se centrasse na luta contra a pobreza, que é o primeiro passo, como sabemos, da exclusão social, onde muitas destas pessoas se encontram.

Anónimo disse...

@ José Ricardo 12:47

"O problema é bem mais complexo do que se julga."

Pois disse o Sr. e muito bem.
Por isso tem de se ter a coragem para se.....inovar. Repensar tudo sem olharmos para trás porque já nada é igual ao que era. É necessário o chamado corte epistemológico.

Joaquim de Freitas disse...

Anónimo de 8 de Julho 12:24:



Não se trata de voltar para trás mas de corrigir o movimento da sociedade de massa que constitui a nova ordem social, que se caracteriza pela convivência de grandes grupos num mesmo contexto social.

Uma sociedade em que a grande maioria da população está envolvida na produção, na distribuição e no consumo de bens e serviços, além de seguirem um modelo de comportamento generalizado, participando do meio político e da vida cultural por meio do uso dos meios de comunicação de massa.

A progressiva urbanização da vida social humana e o consequente alargamento dos centros urbanos também são característicos das sociedades de massa. Além disso, a burocratização e a racionalização das instituições estatais enfraqueceram as formas de acção individual, já que o corpo do Estado é o que possui força legítima de manutenção e determinação das normas formais do mundo colectivo.

É nesse sentido que escrevi sobre a necessidade da educação da massa social que se torna cada vez mais necessária, para ter força de neutralização dos conflitos inerentes ao convívio entre diferenças.

E, como escreve o comentarista José Ricardo mais acima, às 12:47, “Tudo se facilitaria se, em primeiro lugar, o enfoque se centrasse na luta contra a pobreza, que é o primeiro passo, como sabemos, da exclusão social, onde muitas destas pessoas se encontram.” Com o qual estou de acordo, e que escrevi doutra maneira no meu próprio comentário:” trazer justiça social a todos os desamparados da sociedade injusta que é a nossa”.

Se nada se fizer neste sentido, o conflito será inevitável entre as diferenças.

Anónimo disse...

Começo por fazer uma nota prévia: concordo com o que o autor deste Blogue escreveu neste Post.
Dito isto, permitia-me contar um pequeno episódio radiofónico:
Aqui há uma semana a esta parte, se a memória não me falha, num daqueles programas da Antena 1, com o (excelente) jornalista António Jorge, relativo à violência sobre as mulheres, um dos ouvintes foi precisamente um indivíduo que se identificou como de raça cigana. O que ele referiu sobre os “direitos” da mulher cigana, ou seja, a ausência de direitos, se compararmos com o que estipula quer a nossa (e dele) Constituição da República, a par de outras observações (como a virgindade da noiva, a obediência dela ao marido, ou melhor, submissão, etc) em que deixou claro como aquela Comunidade (ou pelo menos uma boa parte dela, mais tradicional) pensa sobre a mulher e a diminuiu – e disse tudo aquilo com toda a convicção -, chocou o jornalista e os ouvintes. Aquilo que ali foi dito, com toda a naturalidade (!), não difere muito do homem machista que Aquilo Ribeiro referiu nos seus livros, quando abordou os homens do campo, ou da aldeia (Aquilo descreveu com toda a crueza a barbárie machista do “bom e puro” homem da província).
Resumindo, um tipo ouve o que eu ouvi, da boca do tal cigano, e pasma-se! Como é possível neste Portugal de 2019?
P.

Anónimo disse...

@ sr. Freitas.

Há muito tempo não lia tanta teoria marxista-leninista num texto como no seu das 15.40.

1º Parece ser um texto escrito durante o último PREC.

2º Não sei se a sua educação de massas não se equivale ao que aconteceu na China durante a revolução chinesa.

3º Será que o sr. quer ainda criar o "homem novo" de 1918, cem anos depois? note que as burguesias ( classes médias ) não querem perder o que conquistaram durante este tempo e não estamos na enorme desorientação do post-1ªGuerra Mundial.
4º A sua educação de massas parece-se muito com o que se passou em Portugal depois da queda da 1ª Rpublica. Cuidado!!!

Anónimo disse...

@ Sr. Freitas

Esqueci-me de também dizer-lhe:

Na História da humanidade, para quem a sabe, sem politizar, mas para conhecer a evolução do ser humano reconhece que toda a actividade do mesmo reflecte uma grande preocupação para a diferença entre pobres e ricos.
As causas das guerras entre povos foi sempre por isto.
Não me diga que hoje podemos fazer isso com a "educação de massas".

Anónimo disse...

@ Anónimo das 17.04

Bom relato do que se ouve seja na rua seja na comunicação social.
Numa verdadeira democracia pode-se ouvir todas as opiniões das populações.
O que não podemos é permitir que uma pequena minoria possa ter voz grossa e impor as suas ideias específicas ou estilos de vida a quem não as queira seguir.
Os costumes de cada um devem ser mantidos e nunca impostos. Que uns vivam assim não é importante. Agora se quiserem impor aos outros esse estilo de vida já me incomoda. Tem de ser cada um no seu galho.










Anónimo disse...

Ser racista é uma opção que a Democracia nos permite. Por muito que nos custe aceitar. Não sou, mas tenho amigos que o são e até familiares e não é por isso que vou deixar de me dar com eles. Há outras conversas para além do racismo. E depois, por vezes há razões que levam certas pessoas a ser racistas. Um indivíduo que conheço, numa aldeia onde vou regularmente e onde tenho casa, não suporta ciganos e já quase ia dando cabo de um. Porquê? Porque lhe assaltaram a propriedade por três vezes para lhe roubarem material e equipamento que lá tinha. Se calhar, nunca tendo tal sucedido, o homem nem se importaria com eles. Mas, aquela comunidade cigana que ali vive perto, infelizmente, só arranja inimigos, pelos assaltos que vem praticando. E a GNR já perdeu a paciência com eles. Como se não bastasse, não têm nenhumas preocupações de carácter ambiental. Ora, coisas destas, acabam por levar ao racismo.
Solução: em vez de se palrar muito, sobretudo à Esquerda, impõe-se um plano ao nível governamental, ou de outro tipo, com vista à sua integração social, um plano bem gizado, onde uma política de habitação, educação, de emprego, etc fizesse parte. Independentemente de se manter as suas, deles, tradições. E, claro, essa integração deveria fazê-los compreender e aceitar os valores democráticos e constitucionais do nosso país, a que pertencem.
Acho porém que o racismo por cá não fica atrás da segregação social, pelo menos em certos meios da nossa sociedade.
Ora tenham uma boa tarde!

Joaquim de Freitas disse...

Anónimo das 17 :04 : Ao escrever : » Na História da humanidade, para quem a sabe, sem politizar", creio que disse tudo. Perdemos o nosso tempo. E vou-lhe dizer porquê, e depois creio que podemos dar por concluído o nosso debate.

Primeiro porque não frequentamos a mesma escola, aparentemente. O Sr. nunca ouviu a frase: “o homem é um animal político”? Pois bem, quando Aristóteles declamou essa frase, ele quis dizer que todo homem precisa um do outro, que é da natureza humana viver em sociedade e que através da busca pelo bem comum é que se tem a constituição da polís, ou seja, a cidade, o lugar onde é compartilhada a vida pública. Mas creio que a palavra “comum” já o afecta…

O Sr. não gosta da palavra “politica”! Mas sabe que o facto de não gostar já é um acto político? Quando você decide não participar da política, também está agindo politicamente, pois está deixando que as coisas permaneçam como elas estão e não vê necessidade de mudança.

Não sei o que foi o PREC. Deixei Portugal há meio século. Vou-lhe dizer: mesmo se existe corrupção e tantas acções politicas que se podem detestar, esse quadro negativo só poderá mudar através da própria política. Isso porque a política é o instrumento de acção de transformação da sociedade.

Quando vai comprar o seu pão, o seu jornal, o ticket de metro ou de autocarro, o seu carburante, pagar a sua renda de casa, os seus impostos, a portagem, a água tudo isso são actos políticos…

O que distingue o ser humano das outras espécies é a sua capacidade de raciocinar. E foi por meio desta habilidade que ele compreendeu a importância da vida comunitária e de conviver nesse meio em harmonia. E foi para isso que a Política foi criada: para regular os conflitos.

Considero que há muita gente que não sabe raciocinar. Seja porque não foram à escola, ou foram mas não compreenderam nada, a sociedade deve ajuda-los a compreender o que são os deveres e os direitos de cada um.

Uma “massa” de população (eu sei a palavra “massa” inquieta-o!) bem instruída na sociedade torna esta mais justa e mais fácil a dirigir. Mas quando digo massa penso do cimo à base da sociedade. Porque os ricos não são forçosamente conscientes da necessária “justiça social”.

A natureza, a essência e o funcionamento da política têm que ser voltadas para a busca do interesse e bem comum. Comum não significa sempre “comunista”, Sr. Anónimo…E cabe a nós participar desse processo, para contribuir e construir uma política mais desejável, afinal, no sentindo mais amplo da palavra, somos todos políticos.

Sabe, estava na China, para o meu trabalho, durante a Revolução Cultural, e em seguida na Grande Exposição Industrial Francesa de Pequim, após reconhecimento por De Gaulle do governo comunista de Mao.

E voltei lá muitas vezes depois. Assisti à evolução. Nesses tempos compravam-nos produtos. Hoje a minha firma fabrica là mais de 50%dos seus produtos. Posso garantir-lhe que a China não seria respeitada por ninguém hoje, se a “massa” miserável não tivesse sido educada e instruída, ao ponto de impor hoje o respeito às maiores potências do planeta.

Enfim, se a preocupação do aumento das desigualdades no mundo, e da miséria generalizada, pela perda dos valores essenciais da humanidade, faz parte da teoria marxista leninista, então o presidente da República Francesa, Emmanuel Macron é um arauto do marxismo-leninismo, quando há dias, no seu discurso do centenário da criação da Organização Internacional do Trabalho, atacou as derivas dum « capitalismo louco » no seio de organizações como o FMI ou a OMC que « privilegiam os ajustamentos económicos aos direitos sociais ».

Se eu não soubesse que Macron é um demagogo diria que estou em boa companhia. Mas o diagnóstico é bom…

Anónimo disse...

@ Sr. Freitas


"Mas creio que a palavra “comum” já o afecta…"
O que me afecta e muito é a exagerada politização da sociedade portuguesa. Há mais vida para além da política e então a de sofá ou de "brasserie" com ostras a acompanhar o vinho "pétillant naturel"......

"O Sr. nunca ouviu a frase: “o homem é um animal político”?
Isto nem Aristóteles como fonte o safou. É que aqui não falamos de animais políticos mas sim de seres politizados "à outrance". A obedecerem cegamente aos partidos a quem juraram fidelidade quais carbonários de 1908.

"O Sr. não gosta da palavra “politica”! Mas sabe que o facto de não gostar já é um acto político? Quando você decide não participar da política, também está agindo politicamente, pois está deixando que as coisas permaneçam como elas estão e não vê necessidade de mudança."
O que eu não gosto mesmo são dos métodos violentos revolucionários para a mudança, operados por algumas ideias de formar novamente o "homem novo" com métodos que nos fizeram chegar a este impasse de fim de História.

"Não sei o que foi o PREC."
Ao não saber o que foi o PREC ou o processo revolucionário em curso, depois de 1975 de facto vou encerrar este debate com o sr pois não está ao corrente do efeito que esse tempo teve na população portuguesa.
Informe-se como foi e depois conversamos.
Diga-me quando estiver sabedor para reatarmos este tão interessante debate.
Se puder recolha elementos através dos retornados de África e as condições em que chegaram. Alguns apenas com a roupa do corpo, anos depois de andarem a explorar os povos africanos.

Anónimo disse...

SR. Freitas

Ía-me esquecendo de comentar esta sua frase:

"Posso garantir-lhe que a China não seria respeitada por ninguém hoje, se a “massa” miserável não tivesse sido educada e instruída, ao ponto de impor hoje o respeito às maiores potências do planeta".

Pois pois o que sabemos é o que se vê nas grandes cidades costeiras da China. No " fin fond" daquele imenso território não se sabe como vivem. Se ainda na idade da pedra ou....

Anónimo disse...

Sr. Freitas
Não resisto em comentar esta sua frase lapidar.
"E foi para isso que a Política foi criada: para regular os conflitos."

A política ou a diplomacia?
Isto num blog de um diplomata é obra.
A diplomacia tem de ser exercida apenas de forma extra política e sim em função das instruções do governo central, a quem o diplomata está obrigado.

Este último comentário demonstra bem as nossas diferentes bases escolares.

Joaquim de Freitas disse...

Os cidadãos de Atenas reuniam-se periodicamente na praça pública, denominada Ágora, para expor e debater as suas ideias. Faziam politica.

Ampliando então o conceito de política, podemos dizer que ela é a gestão de conflitos entre seres que têm desejos distintos, num contexto essencialmente limitado, visando a convivência harmoniosa entre eles. Mais nada.

Eu fiz politica durante muitos anos, quando reunia os sindicatos da firma, mensalmente, como o impõe a Constituição. E não eram os conflitos que faltavam. Entre eles, haviam os marxistas-leninistas, e os outros. Eram todos eleitos democraticamente. Mas sei que havia quem preferisse que eles , os marxistas, nao existissem...Era uma conception particular da democratura !

Esta foi a minha melhor “escola”, Caro anónimo.

Quanto à acção diplomática é o modo privilegiado de execução da política externa.

PS) Vou estudar o PREC ... Entretanto va à China para saber exactamente, sem preconceitos, o que é a China de hoje

Anónimo disse...

Mas os cidadãos de Atenas eram apenas uma minoria da população local.
Havia uma percentagem muito grande daqueles considerados não cidadãos: escravos e estrangeiros que apenas trabalhavam sem decidirem nada.
Isso em democracia hoje ainda não tem comparação possível.
Não sei se poderei ir à China ver aquilo: Não sei se deixam circular pelo país à solta ou poderá só fazer-se em carneirada organizada. Vamos ver.
Boas informações sobre o PREC.

Pedro de Souza disse...

Demoro sempre a reagir, ou antes estou ocupado a pensar em outras coisas, quando a Sra Dra me passa uma rasteira dessas. Para mim esse é um assunto requentado, já ouvi essa discussão em várias latitudes, nem sempre com consequências positivias. Eu e Portugal sempre atrasaditos. Mas o que mais me espanta neste caso são as reações de apoio à historiadora. "Não venham cá esses pretos e ciganos estragar isto". Porque acho que é uma simples questão de bom senso. Se não abrirmos as cotas, esses estudantes vão para outros países, perdemos essa clientela. Ora já nem os refugiados, nem obviamente os portugueses formados querem ficar aqui, porque os nossos salários são os mais baixos da União Europeia. TODOS os países da UE passaram na nossa frente, até a Roménia. Felizmente ainda existe a Albânia para acharmos atrasada. Temos de dar incentivos para que esses estudantes aqui fiquem, pelo menos até ser ultrapassados pelos países africanos. Pedro de Souza