quinta-feira, 11 de julho de 2019

A liberdade de um embaixador


Num relatório interno para o seu governo, o embaixador britânico em Washington escreveu alguns comentários pouco abonatórios sobre Trump e a sua administração. 

A um embaixador é pedido que dê a sua franca opinião, qualquer que ela seja, sobre a realidade do país em que está acreditado. É pago precisamente para isso. A sua visão, fruto da experiência e abalizada pelos contactos que tem, destina-se a influenciar a atitude do seu governo perante o do país que o acolhe. Pode ter razão ou pode estar errado, mas isso é uma questão apenas entre ele e o seu governo. Acresce que, no caso britânico, o cargo de embaixador em Washington é um dos mais elevados da respetiva carreira diplomática, pelo que o diplomata que ocupa o posto é sempre um profissional de “primeiríssima água”.

A liberdade de opinião de um embaixador é, em princípio, garantida pela estrita confidencialidade daquilo que reporta. É a segurança de que o que escreve é lido apenas por quem “need to know” (como se diz na “intelligence”) que lhe confere a liberdade necessária para se exprimir.

Porém, o tal relatório do embaixador britânico veio a público, numa daquelas canalhices de quebra de confidencialidade que mostra o estado em que anda o “civil service” do país de sua majestade. Trump, como é óbvio, não gostou do retrato que o embaixador fez de si e dos seus e afirmou, publicamente, que o diplomata deixaria de ter o acesso facilitado junto da sua administração, embora não tivesse ido ao ponto de o considerar “persona non grata”. Os britânicos, no caos funcional em que vive a sua administração, e muito cobardemente, não cuidaram em fazer o que seria decente: proteger o seu homem em Washington. O qual, “sozinho no meio da praça”, se viu obrigado a demitir-se.

Imagino que o futuro embaixador britânico nos Estados Unidos venha agora a ser tentado (e forçado) a entrar em Washington com “pezinhos de lã”, para que lhe não lhe venha a acontecer algo similiar ao seu antecessor . 

Ser obrigado a fazer auto-censura sobre o que reporta às suas autoridades é o pior que pode acontecer a um embaixador. A menos que seja corajoso e, no fim dos seus textos, cuide em inserir o “motto” (em francês, claro!) do escudo britânico: “honi soit qui mal y pense” (que se envergonhe quem pensar mal disto).

7 comentários:

Anónimo disse...

Pois.
Mesmo há muitos anos para documentos classificados arranjou-se aquilo a que se chamava o correio diplomático.
Antes disso podia o chefe da missão pedir a um respeitável comandante de um barco português que fosse pessoalmente entregar ao MNE depois de chegar de volta a Lisboa. Havia como é óbvio também a cifra que podia servir para os ofícios e depois para os telegramas.
Por isto durante muitos anos os correios eram tutelados pelo MNE.
Quando do Tratado de Viena no fim das guerras napoleónicas o problema da comunicação entre os enviados diplomáticos a Viena para negociarem a paz e D. João VI tinha de fazer o caminho entre Viena e Rio de Janeiro e volta. De inicio havia um barco português em La Rochelle que fazia o trajecto até ao Rio de Janeiro. Como de costume em Portugal as coisas complicaram-se e passou a ser a marinha inglesa que assegurava o transporte das missivas "back and forth."
Muita coisa os britânicos devem de ter lido mas.....naquele tempo os funcionários sejam os civis ou militares nunca por nunca poderiam admitir ter violado a correspondência.
Hoje se violarem e venderem o seu conteúdo é uma sorte grande para quem o faz.

Augie Cardoso, Plymouth, Conn. disse...

Estranha fuga de informacao.
Deve ser politiquices dos candidctos a primeiro ministro . Quanto ao Trump, muintos dos proprios ex secretarios o consideram " inept" and needed of congratulation". Nao vai affectation em nada as relacoes. Desde que nao arruinem "the good Friday agreement" . OS Irish de Connecticut e MASSACHUSSETS nao ficariam contentes e dai a casa branca.

Anónimo disse...

"...Kim Darroch é uma pessoa rude e agressiva, que não é nada agradável aos seus subordinados. Ele alcançou proeminência dentro do FCO sob o New Labour, numa época em que visões de direita e de política externa pró-Israel e apoio à Guerra do Iraque eram activos importantes para o progresso da carreira, assim como a adopção de uma estranha cultura "ladista" 10 por Alastair Campbell, envolvendo palavrões, camisas de futebol e fingindo ser classe trabalhadora. Numa época em que a gestão de notícias era a principal e a fim de tudo para o governo de Blair, Darroch estava encarregado do Departamento de Media do FCO. Lembro-me de estar surpresa quando, ao telefone, ele me chamou de "idiota" por discordar dele num assunto de política menor. Nunca encontrei esse tipo de agressão no FCO antes. As pessoas que trabalhavam directamente para ele tinham que suportar esse tipo de coisa o tempo todo." No "Bubbles".

A apreciação sobre o PR Trump, telegrafada pelo embaixador, distorcida ou não, exacta ou não, é apenas obra de autor. S. da C. assinaria semelhante texto sobre Trump ?.

Luís Lavoura disse...

A um embaixador é pedido que dê a sua franca opinião sobre a realidade do país em que está acreditado. É pago precisamente para isso.

Eu julgava que a função principal de um embaixador fosse a de representar um país junto do outro. Não propriamente formar e transmitir francas opiniões (embora naturalmente também deva fazer isso).

É que, opiniões há muitas. Um embaixador terá uma opinião, outro terá outra, e em princípio nenhuma delas é melhor que a outra. Agora, a representação de um país junto do outro, essa só cabe a uma pessoa.

Luís Lavoura disse...

o relatório do embaixador britânico veio a público, numa daquelas canalhices de quebra de confidencialidade que mostra o estado em que anda o “civil service” do país de sua majestade

Segundo ouvi dizer, não se sabe exatamente como é que o relatório veio a público, nem de quem é a culpa de ter vindo. Não terá sido necessariamente culpa do "civil service". Pode ter sido uma obra de espionagem estrangeira.

Luís Lavoura disse...

Os britânicos, muito cobardemente, não cuidaram em fazer o que seria decente: proteger o seu homem em Washington.

Não valia a pena protegê-lo: uma vez que as suas relações com a administração dos EUA ficariam cortadas, ele não poderia efetuar o seu trabalho.

De que vale um embaixador com quem as autoridades do país recetor se recusam a falar?

Não se tratou portanto de cobardia da parte dos britânicos, mas sim de realismo. Ou ele se demitia, ou era demitido.

Anónimo disse...

Obviamente que o Reino Unido se portou de forma incorrecta com a situação do embaixador em Washington, primeiro na fuga de informação, que claramente foi feita internamente no sentido de minar um dos candidatos a líder do Partido Conservador, e seguidamente ao não defender adequadamente o seu embaixador.

Uma das missões principais de qualquer embaixador ou diplomata é reportar o que se passa no país onde está colocado, o que deve ser sempre feito com objectividade e creio que a maioria assim faz. Esses relatórios, telegramas ou e-mails são sempre enviados de forma reservada, para uma lista de destinatários limitada e por isso são elaborados com confiança, contendo por vezes, informações sensíveis.
Se há fugas de informação isso vai limitar fortemente a capacidade de fornecer informação e isso será prejudicial para o Governo que envie o diplomata.