quarta-feira, julho 31, 2019

Ainda a ética política


O Estado tem de ser sério, se quer ser levado a sério. Não é admissível, num tempo de forte escrutínio sobre a gestão dos bens públicos, em que se pede aos cidadãos um esforço fiscal tremendo, assistir a dispêndios cuja afetação possa suscitar fundadas dúvidas, em termos de transparência ou de rigor nos gastos. Quem não perceber que o mundo mudou muito, neste domínio, terá um destino político breve ou muito conturbado.

Todos sabemos que metade do ruído mediático que qualquer incidente nos gastos do Estado suscita é fruto da chicana política – da política politiqueira – e da consabida apetência para explorar as dificuldades do exercício do poder. Meia mentira e meia verdade fazem um título ou um “soundbite”. Também isso, habituem-se!, é parte da democracia contemporânea. 

Mas falta ainda a outra metade. E essa, para além dos muitos casos em que há um objetivo dolo nas ações praticadas, é feita de facilitismo, de leviandade, diria mesmo, de amoralidade cívica.

Servir o Estado tem regras, obedece a princípios que decorrem, não apenas da lei, mas da ética comportamental exigível a quem cuida da coisa pública. É algo que só se aprende com o tempo, muito embora os tempos que se vivem, em que a diabolização do Estado está na boca de alguns a quem o cabe dirigir, não ajude muito a essa pedagogia cívica. 

Ser eleito ou nomeado para um cargo público não confere a ninguém, necessariamente, um “template” de servidor do Estado. Sair de uma “jota” e entrar num gabinete governamental não dá a ninguém um diploma de competência para gerir a coisa pública. 

Concedo que o “amiguismo” político, essa imensa escola de recrutamento que quatro décadas de “bloco central” inocularam na nossa máquina pública, é talvez um efeito colateral inevitável do nosso modelo político, que tem os partidos no seu centro de gravidade institucional. Mas é imperativo democrático conseguir moderá-lo. E isso passa pelo sancionamento imediato de um qualquer comportamento que afete o bom nome do Estado. 

Em política, por muito que isso custe a muitos, só raramente se aplica o princípio básico da justiça comum: “in dubio pro reo” (na dúvida, dá-se o benefício da dúvida ao réu).

6 comentários:

  1. Senhor Embaixador,
    É muito generalista na crítica, mas concordo inteiramente, salvo, talvez, na atribuição de culpas aos partidos em abstrato, que, como sabemos são o suporte da Democracia. Mas é bem possível a culpa lhes possa ser atribuída em concreto, por há décadas prometerem a reforma da lei eleitoral. Quando cada deputado tiver de responder por si mesmo e não sob o manto protector da sigla partidária, talvez passem a ser melhor escolhidos. Desse modo não bastará ser filho do PCM ou de qualquer notável ou ter feito a carreirinha numa jota. Nessa situação o partido, qualquer um, ponderará quem vai escolher para defender as suas cores.
    José Figueiredo
    Braga

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  2. Anónimo12:03

    Procurar essa ética numa qual alínea de um diploma legal cheio de proibições absurdas, num parecer jurídico de uma qualquer entidade, ou numa decisão de um tribunal, não é o caminho, é tempo perdido.
    A ética não se decreta.
    A menos que se tenha, em definitivo, perdido a noção do que é ser servidor público.
    Ou pior, que existam políticos que se entendam tão, tão iluminados, ungidos e predestinados para dirigir os caminhos da nação que se dispensem de respeitar essa ética (numa espécie de autobeatificação).

    David Caldeira

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  3. Anónimo16:40

    Concorda com o comentário de José Figueiredo, de Braga.

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  4. António21:48

    Em política, por muito que isso custe a muitos, só raramente se aplica o princípio básico da justiça comum: “in dubio pro reo” (na dúvida, dá-se o benefício da dúvida ao réu).

    A AT também não é muito amiga dessa máxima. Se a AT representasse a Justiça, primeiro que tudo cumpria-se a pena, e depois fazia-se então o julgamento. A Justiça, caro embaixador, falta em todo o lado.

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  5. Concordo totalmente com o comentário de Jose Figueiredo.
    E temo que o ultimo parágrafo de David Caldeira seja, cada vez mais, uma triste realidade...

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  6. Anónimo12:38

    O “amiguismo” político” não é um fenómeno original das últimas décadas em Portugal. É uma constante da natureza humana. O que é particular em Portugal e a ideia peregrina de que os governos não devem nomear “boys” da sua cor, quando nas democracias mais antigas o que surpreenderia era que nomeassem doutra cor. Em certos casos é obrigatório serem da “cor”, como em muitos países onde só os deputados obviamente da maioria, podem ser membros do governo. Em Portugal vai-se a ver e depois de muita critics, é de longe o país com maior número de independentes no governo. Esta mania nacional é um resquício salazarento que espelha um complexo anti-paridos.
    E porém no maravilhoso reino do monge da Sta. Comba Dão só os boys podiam ter qualquer cargo público pois todos tinham que jurar lealdade ao regime.
    Fernando Neves

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