sexta-feira, 19 de julho de 2019

Necessidades


O termo da legislatura convoca, com naturalidade, a tentação de avaliar as tendências mais marcantes da política externa seguida pelo Governo do Partido Socialista, ao longo destes quatro tão atípicos anos na vida portuguesa.

Aquando da formação do Governo, o anterior Presidente da República colocou um conjunto de "condições", em termos de compromissos externos, para aceitar empossá-lo. Nelas se incluíam, sem surpresa, as relações com a Europa, a ligação à NATO e ao mundo lusófono, com a diáspora associada. A presença do PCP e do BE na maioria parlamentar para viabilizar o novo executivo ter-lhe-á criado o temor de que daí pudesse resultar alguma deriva nociva à postura internacional do país. Mas não só a ele.

À época, o embaixador americano em Lisboa, Robert Shearman, na forma com que alguns diplomatas de Washington se permitem comentar a vida política dos países que os acolhem, deixou também alertas sobre as preocupações dos EUA na mudança do curso governativo em Portugal. Posso imaginar o que teria sucedido se, um ano depois, o nosso embaixador em Washington tivesse manifestado publicamente a inquietação portuguesa sobre os riscos para o mundo da eleição de Trump...

Respondi-lhe num artigo que publiquei no Diário de Notícias intitulado "Durma bem, Bob!", embora confessasse não ser, à época, "um entusiasta desta possível solução governativa", deixei claro que não alimentava "a mais leve dúvida de que, aconteça o que acontecer, um eventual governo socialista se manterá fiel a todo os compromissos internacionais de Portugal, da NATO à UE [...]. O PS tem um historial de responsabilidade no quadro internacional que não aceita lições de ninguém, de dentro ou de fora". Eu estava certo, o diplomata americano estava, como se viu, bem errado.

Augusto Santos Silva não era uma escolha óbvia para as Necessidades. Embora com uma prestação anterior positiva num ministério de soberania como é o da Defesa Nacional, somada a larga experiência noutras pastas, carregava consigo a imagem de um tempo mediático tenso, em que funcionou como firme contraponto oposicionista ao radicalismo da governação conservadora. Muitos sobrolhos se carregaram ao verem surgir o seu nome na chefia da diplomacia portuguesa. Mas foi sol de pouca dura. Santos Silva, um político de imensa qualidade intelectual e com elevado sentido de Estado, rapidamente se adaptou à nova função, transmitindo uma forte dose de confiança a uma casa que tem uma grande sensibilidade, não apenas para perceber quem a respeita, mas igualmente quem defende o património de interesse nacional que constitui a razão da sua existência. Santos Silva consagrou-se como um excelente ministro dos Negócios Estrangeiros e, no executivo, foi uma frente segura que muito facilitou o trabalho internacional de António Costa.

Aprendi que não há boa política externa sem uma boa política interna. Não é possível sustentar, lá fora, uma voz com uma mínima audição sem que tenhamos a "casa arrumada". Foi a evolução favorável das nossas contas, pela gestão de Mário Centeno, que deu espaço para António Costa se afirmar no plano europeu, muito para além da família socialista. Santos Silva cumulou isso com uma gestão muito rigorosa dos restantes dossiês externos - e é também justo creditar aqui a forte ajuda que Marcelo Rebelo de Sousa deu a toda esta operação de conjunto, em favor dos interesses portugueses.

Num mundo em rara turbulência, Portugal esteve muito bem, nesta legislatura, na ordem europeia e internacional. Relembro, a título de breves, e longe de exaustivos, exemplos, a essencial ajuda dada à eleição de António Guterres para secretário-geral da ONU e de António Vitorino para diretor-geral da OIM, o perfil europeu elevado demonstrado, a gestão da delicada questão venezuelana, a atenção nos passos bilaterais com Angola, China ou Índia, a vitalidade imprimida na área das Comunidades Portuguesas, a atenção às parcerias internacionais na cooperação para o desenvolvimento, a ação na política da língua, os esforços continuados e bem-sucedidos na internacionalização da nossa economia. A diplomacia portuguesa está sólida e coerente, o que revela que é muito bem orientada.

14 comentários:

Anónimo disse...

Quais foram os benefícios para Portugal da eleição de Guterres? A língua portuguesa já é idioma oficial da ONU? Não! Está alguma coisa a ser feita quanto a isso? Não sabemos... (muito provavelmente, nada). E, para que esta personagem fosse para secretário geral, lá tivemos que ficar a dever favores aos espanhóis que andaram a fazer campanha na América dita "latina".

Quanto à política da língua, quais foram os resultados? O AO continua a não vingar em vários países africanos. Cabo Verde segue o seu rumo para a oficialização do crioulo (com grande alegria por cá), e, depois, é dizer "adeus" ao português. Em Timor... o idioma continua a ser aquilo que sempre foi: um exotismo. No estrangeiro, escolas de português ou presença da língua... é o tanas! Até temos um primeiro-ministro que não perde uma oportunidade para "hablar" em atos públicos.

No caso de Vitorino, mais uma vez... quais as vantagens?

Seixas da Costa é tributário daquela mentalidade muito portuguesa de que o que interessa é o "prestígio". É prestigiante ter portugueses em certos cargos. A consequência disto para o país é nula. Para os próprios é ótima, já se vê. As vantagens práticas de nada interessam. "Jobs for the boys"? Oh pá, a diplomacia faz um belo trabalho.

Anónimo disse...

E.... foi o seu estado da Nação no MNE.

Até ao século XIX O nome do MNE actual era Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra, por alguma razão. Por isso quem veio da Defesa já conhecia alguma coisa. No entanto veremos daqui a uns anos os seus resultados. Em diplomacia os efeitos de uma acção de Estado geralmente não tem resultados imediatos senão aquando de uma declaração de guerra. E mesmo isso até ao primeiro recontro guerreiro........

Parece-me ser este post de hoje uma forma de propaganda no sentido em que se demonstra que este país é sereno e responsável por feitio e não por defeito.

Como diz o outro: Muito pouco deferido.

Francisco Seixas da Costa disse...

Fica-se a saber, pelos comentários, que a eleição de AG e de AV foi feita com vista a eles poderem utilizar os cargos para fazerem fretes a uma agenda portuguesa de interesses. Grande novidade!

Luís Lavoura disse...

Portugal às vezes faz-me lembrar a vila alentejana de Serpa, da qual se diz "Serpa serpente, má terra, boa gente". É que Serpa é uma vila pobre, mas afamada por ter sido a terra natal de homens de grande qualidade e que fizeram grande carreira a nível nacional e até internacional. Portugal é a mesma coisa - um país de apagada e vil tristeza, mas terra natal de homens que são muito conceituados no estrangeiro.

José Martins disse...

Apelidei o MNE Santos Silva: "falinhas de sabonete perfumado"

Saudações de Bangkok

Anónimo disse...

Esqueci-me de outro assunto que também anda pela ONU: a questão das Selvagens. Está a caminho de ser resolvida a nosso favor?

Anónimo disse...

Um dos piores Ministros que alguma vez tivemos, no MNE.

Luís Lavoura disse...

Anónimo:

Se Portugal se empenha na eleição de dois boys socialistas, então, é para que Portugal obtenha vantagens. Essa é a perspetiva patriótica.

Não. Em todas as terras, em todas as vilas e aldeias, é normal e corrente que as pessoas apoiem "os da casa", mesmo sem esperarem que isso traga vantagem imediata e palpável à terra. As pessoas apoiam uma pessoa da sua terra pelo orgulho que lhes dá o saberem que um seu conterrâneo voa mais alto.

Coisas misteriosas da espécie humana... Nem só de interesses vive o Homem.

Joaquim de Freitas disse...

Desculpe Senhor Embaixador ; mas teria preferido que o governo Português tivesse evitado aquela acção vergonhosa e estúpida que consistiu a enviar oito agentes do Grupo de Operações Especiais (GOE) da PSP a Caracas. E na mesma veia, o reconhecimento do fantoche Guaido como presidente auto proclamado da Venezuela.

Um seguidismo que a eleição de AG para o Secretariado talvez impusesse, mas que não dignificou Portugal, nem teve em conta os interesses dos emigrantes portugueses que um dia vão talvez pagar o erro diplomático.

Anónimo disse...

Há realmente muitos “coitados” neste mundo como parte dos valorosos anónimos de hoje
Fernando Neves

Anónimo disse...

Curioso assistir às declarações de Augusto Santos Silva relativamente à suspensão dos Vistos para o Irão, precisamente numa altura em que se fala da vinda de Donald Trump a Portugal (a convite de Marcelo). As explicações para tal decisão teriam, ao que parece, a ver com uma agressão de que foi vítima um funcionário da nossa Embaixada em Teerão, de nacionalidade iraniana, acontecimento que sucedeu em…Março último! Naturalmente, ASS invocou razões de segurança, ao que transpareceu, a fim de justificar tal atitude (suspender a concessão de Vistos a cidadãos do Irão a Portugal – até parece que o Irão nos inunda de turistas, ou mesmo de homens de negócios!).
Registe-se também a postura arrogante de Augusto Santos Silva quando, no ano passado, comentou de forma desdenhosa, a tentativa que uns tantos Deputados, de vários Grupos Parlamentares, de querem estudar a possibilidade de revisão do Acordo Ortográfico (o que ao que parece deverá ser, finalmente, objecto de atenção de uma Comissão Parlamentar para o efeito).
E se recuarmos uns anos, ao tempo de José Sócrates, então PM, Augusto Santos Silva defendia que era preciso “malhar na Oposição”, o que diz bem da “qualidade” desta figura governamental que António Costa foi buscar para tutelar o MNE.
Todavia, não me admiraria que ASS viesse a ser o personagem a indicar pelo actual PM para Comissário, substituindo Carlos Moedas.

Paulo Guerra disse...

Já é a segunda vez hoje que lei alguém a querer cobrar não sei o quê para Portugal das eleições de Guterres e Vitorino. Só podem ser grandes lutadores contra a corrupção. Mas esta gente não se enxerga? Ainda fazem lembrar o cenário macroeconómico do Rio. Tudo e o seu contrário.

Paulo Guerra disse...

Já não concordo nada com o sucesso da gestão da crise na Venezuela. Sobretudo com tantos portugueses na Venezuela. Se a ideia era subscrever a totalidade da posição da UE, porquê frisar o que tinha sido dito? Para vermos não sei quantos polícias "sequestrados" no aeroporto de Caracas? É a isto que se chama uma vitória do MNE?

Paulo Guerra disse...

Voltando ainda às várias eleições de ilustres portugueses no mundo. Da mesma forma que a economia é sobretudo confiança, como a retoma na actual legislatura tão bem provou. Se preciso ainda fosse. A Diplomacia é sobretudo prestígio. Que como é óbvio não tem que ser imediatamente mensurável no curto prazo. Ou alguém acha que Centeno algum dia tinha chegado à liderança do Eurogrupo sem o sucesso das finanças públicas portuguesas? Credibilidade que se reflecte todos os dias nos juros da dívida. Para quem só busca recompensas imediatas.