terça-feira, 9 de julho de 2019

Neste blogue, faz hoje 10 anos

”A história foi-me contada ontem em Paris, no intervalo de uma função oficial.

Estava-se nos anos 60 ou 70. Três "terroristas" tinham sido presos, no Norte de Angola, e mantinham-se alinhados, na parada de uma unidade militar portuguesa. Eram homens que combatiam pela independência da sua terra, contra o "nosso ultramar". O exército tinha-os neutralizado e aguardavam transporte para Luanda.

Num determinado instante, um dos "turras" (era assim que os "terroristas" independentistas eram chamados nesses tempos) deu um salto em frente e voou para apanhar um papel que o vento havia feito deslocar na parada do quartel. A rapidez do seu movimento corporal apanhou de surpresa os militares à guarda de quem estavam, que puxaram logo de arma, numa reacção que, por pouco, não foi violenta. Mas o "turra" rapidamente regressou à formação alinhada com os seus camaradas, recolhendo logo o papel no bolso.

Os militares portugueses não "brincavam em serviço" e, de imediato, exigiram a entrega do papel. Quem sabe, podia tratar-se de um documento estratégico, a revelação de planos militares. Se o "turra" tinha corrido o risco de avançar para agarrar o papel, numa ousadia que podia ter-lhe custado a vida, alguma valia ele teria. O detido ainda hesitou mas, face ao óbvio imperativo, acabou por entregar o papel.

O resultado foi mais simples do que se esperava: tratava-se de uma página do jornal "A Bola", esse federador "avant la lettre" do grande e imparável mundo que é a lusofonia desportiva.”

3 comentários:

Anónimo disse...

Como o mundo muda ou - melhor -, como as pessoas se adaptam a interesses diversos: os terroristas de então (agora até levando aspas), são os sócios de hoje. Depois de pegarem em armas contra Portugal, são recebidos com honras.

Noutro país, os políticos que pacificamente lutam pela independência da sua pátria, sem violência nem derramamento de sangue, são presos, apelidados de rebeldes e Portugal aplaude.

Curioso, não é?

alvaro silva disse...

Sr. Embaixador Emérito!
Difícil de acreditar nessa "galga" que lhe contaram. Qualquer pessoa desse tempo sabia que a "bola" era o maior , o mais lido veículo da cultura portuguesa. pelo que até pela cor ninguém se deixava enganar. Só se os supostos tropas portugueses fossem cidadãos da URSS e não se esqueça que já andava por Moscovo o José Augusto Ramos (de Afife) que de lá escrevia para a "BOLA".
Não é de crer tal estória, só quem não atravessou esse tempo acredita

Anónimo disse...

contou lhe o turra imagino
que com um bocado de sorte ainda será algum alto funcionário angolano dos dias de hoje...