quarta-feira, 17 de julho de 2019

Benjamim Formigo


Abro o iPad e recebo, de chofre, a notícia: morreu o Benjamim Formigo! Não o pensava doente (afinal, estava e eu não sabia!). Há bem menos de um mês, passei perto da sua casa, na Igrejinha, ali ao lado de Évora, e pensei ir dar-lhe um abraço e um beijo à Alexandra. Mas, como o meu tempo era escasso - e lembrei-me do trabalho que sempre por ali dava apanhar os cães da quinta - decidi que ficaria para outra vez. Que já não haverá! Agora, estou furibundo comigo mesmo.

Há quanto tempo nos conhecíamos? Sei lá. Creio que foi o Zé Manel Costa Neves, o general do MFA com quem trabalhei nos idos de 1974/75, e de quem ele era grande amigo, quem nos apresentou, no palácio da Cova da Moura, nesses “anos da brasa”. Bem mais tarde, lembro-me de termos estado juntos a jantar na minha casa, em Luanda, e, no meu regresso a Portugal, já com ele a dirigir o “Internacional” do “Expresso”, o que fez por uma memorável década, muitas longas conversas tivemos. E tornámo-nos amigos. Recordo bem ter sido seu interlocutor “oficial” em momentos delicados, no final dos anos 80, quando a lógica secretista das Necessidades, que me cabia defender, se opunha à curiosidade do seu jornal sobre a nossa intervenção na crise interna angolana. Quase nos íamos zangando! 

Quando fui para Londres - agora já se pode dizer! - fui, a seu convite, o cronista “Mark Kraëlsky”, da “Universidade de Londres”, que às vezes escrevia no “Expresso” sobre temas internacionais. Foi um segredo bem guardado, tanto quanto o foi o do comentador de temas africanos, “João Urbano”. Não sei como é que o Benjamim explicava no seu jornal a identidade desses estranhos escribas...

O Benjamim Formigo tinha uma “costela” angolana muito forte, quase tão forte como a sua vocação militar, sobre temas da Força Aérea, onde me dava lições. Na minha casa do Campo Pequeno, ou na sua, primeiro em Linda-a-Velha, depois no seu “Vale de Lobos”, na Igrejinha, muitas horas tivemos de conversa, com amigos que se tornaram comuns, ele com a sua bigodeira forte com ar de oficial “das Índias” e um inseparável cachimbo, sempre com o sorriso e a voz cava da Alexandra por perto. 

Há pouco mais de um ano, ao comemorar uma data redonda da minha vida, a idade que ele agora tinha, obriguei a Alexandra e o Benjamim a virem a Lisboa para a festa, porque os queria ao meu lado a celebrá-la. Tal como eu tinha ido a outras festas na casa onde moravam e onde agora passa a morar a saudade do Benjamim.

Ontem, ao final da tarde, fui surpreendido com a notícia de que um outro querido amigo, que tive em casa a almoçar há poucos meses, está às portas da morte. Hoje, recebo esta bofetada que é a desaparição inesperada do meu velho Benjamim Formigo. A sorte é eu não ser religioso. É que, se o fosse, estaria agora a bradar aos céus.

Deixo um beijo à Alexandra e a expressão do nosso imenso pesar a toda a família.

5 comentários:

Anónimo disse...

Que notícia triste! Partilhei com o Benjamim Formigo excelentes momentos em Luanda, quando ali servi. Convivemos várias vezes, juntamente com o Gaspar da Silva (filho), naquela capital angolana onde ele, BJM, tanto gostava de estar. E falámos de muitas coisas. De cá e de lá. Um grande amigo que, agora venho a saber, acabámos de perder!
Fica a saudade de quem se sente a falta!
Meu caro Benjamim, só tenho pena de não ter estado mais vezes em contacto contigo!


Gil Milheiriço disse...

A quem conviveu com o Benjamim Formigo e esteve com ele em Angola, agradeço que me informe se ele não foi piloto de helicópteros na base de Luanda (BA9).
Obrigado

Gil Milheiriço disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anónimo disse...

Pois aquela casa do Benjamim Formigo na Igrejinha era, há meio milénio, do homem que naquela herdade fundou uma pequena igreja e para ela deixou essa herdade e outros bens para que lhe rezassem por alma. A povoação haveria de nascer, lentamente, em volta da igreja: é hoje e "Igrejinha", conhecida nos primeiros tempos como "igrejinha de Luís Mendes de Oliveira", pois era esse o nome do vereador da câmara de Évora que podemos considerar como o fundador da "Igrejinha".
O Benjamim Formigo ao recuperar a ruína em que aquele aglomerado de casas se tornara, percebeu que valia a pena preservar os vestígios mais antigos, gastando nisso muito dinheiro, como me confessou; mas salvou um "marco histórico".
MB

José António Quelhas Gaspar disse...

Estive com o Benjamim Formigo em Angola, ele da força aérea e eu do exército (RI20).Ambos viviamos junto à Mutamba, ali ao lado do Hotel Transmontano. Era um excelente companheiro, um construtor de sociabilidades. Fizemos muitas coisas juntos ( entre 1969-1971) entre as quais empurrar um polícia branco até à esquadra por estar a tratar desadequadamente um polícia negro. Alguém reconhece estas acções no Benjamim Formigo?
Lamentavelmente não voltámos a encontrar-nos.
Abraço para sempre velho amigo Benjamim.