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sexta-feira, julho 12, 2019

Memória do “Estadão”


Faz hoje 46 anos. O jornal “Estado de S. Paulo”, reagindo à censura da ditadura militar, então no “auge” por virtude do sinistro Ato Institucional nº 5, que havia eliminado várias notícias das suas páginas, inundou o jornal de estrofes de “Os Lusíadas”. Foi um exemplar momento na história da luta pela liberdade de imprensa no Brasil, que é muitas vezes citado.

O “Estadão”, como o jornal é popularmente conhecido, teve também uma grande importância para os oposicionistas portugueses que tinham fugido do regime ditatorial e se haviam refugiado no Brasil. 

Em 2008, num artigo que, como embaixador de Portugal, publiquei no jornal, reagindo (com forte ironia) contra um ridículo ataque feito na véspera a Pêro Vaz de Caminha, lembrei esse facto. E escrevi, a certo passo:

Nos longos anos em que, em Portugal, a liberdade não passava de uma miragem que se mantinha no horizonte longínquo, o Brasil acolheu, com imensa generosidade, muitas figuras que a ditadura salazarista alienava da vida cívica portuguesa. Nesse tempo, o "Estado de S. Paulo" destacou-se como porto de abrigo para algumas dessas personalidades, as quais, frequentemente, eram menos bem acolhidas por alguns compatriotas, aqui residentes, que não partilhavam ou rejeitavam mesmo o progressismo das suas ideias, porque haviam optado por se manterem próximos do regime que vigorava em Portugal.

Foi o "Estado de S. Paulo", foi a figura honrada de Júlio de Mesquita Filho quem deu então uma mão solidária a vários profissionais exilados da imprensa portuguesa, bem como a outras figuras da Oposição ao salazarismo, oferecendo-lhes emprego, ajudando-os a reconstituir a sua vida e a sustentar o seu quotidiano. Nada disso era feito por adesão ideológica ou doutrinária, por qualquer interesse ou favoritismo, mas simplesmente por um sentimento de simpatia e pela partilha de uma magnífica e rara ética de solidariedade. Nomes como Vítor Cunha Rego, Miguel Urbano Rodrigues, João Alves das Neves, Carlos Maria de Araújo, João Santana Mota ou mesmo Henrique Galvão, puderam encontrar no "Estadão" um apoio essencial, nesse tempo de turbulência de suas vidas.”

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