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segunda-feira, dezembro 26, 2022

António Mega Ferreira


Há semanas, acabei de ler um largo calhamaço, escrito por alguém que, num “name dropping” obsessivo, parece ter o mundo cultural português como o seu alvo crítico de estimação. A principal “bête noire” do prolífico escriba é António Mega Ferreira. Dei comigo a pensar que só o facto de alguém conseguir convocar tanta acrimónia acaba por revelar a sua real relevância e a enorme dor-de-cotovelo que a sua figura suscita. Mega Ferreira morreu hoje.

António Mega Ferreira foi uma das nossas figuras intelectuais mais brilhantes, nas últimas décadas. Com uma escrita magnífica e uma capacidade de ação notável, fez incursões por diversas áreas da cultura, sempre com extremo mérito, às vezes roçando mesmo a genialidade. As próximas horas trarão obituários e testemunhos completos sobre ele, que se esperam justos. 

Em tempos da Expo98, a administração do evento destava um dos seus membros para intervir num almoço, no dia de cada país no certame, quase sempre com a presença de um governante desse mesmo país. Fiz quase uma dúzia desses exercícios, representando o executivo de António Guterres. No dia do Chile, o administrador designado pela Expo foi António Mega Ferreira. Aquilo que era, em regra, um ritual chato e repetitivo tornou-se, pelo ocasional discurso do António, num momento brilhante. As evocações culturais que fez deram ao almoço um caráter diferente. Anos mais tarde, no Chile, José Miguel Insulza, o ministro que representava o país na cerimónia, ao receber-me em La Moneda, perguntou-me o nome desse "intelectual que me comoveu".

Um dia, Paula Moura Pinheiro juntou-nos a ambos num programa televisivo, para falar de alguns prazeres sensuais. Foi uma hora divertidíssima, que anda pela RTP Play, em que falámos da mesa e de outras coisas, do mundo do gosto que ela nos proporciona.

Um dia, Paula Moura Pinheiro juntou-nos a ambos num programa televisivo, para falar de alguns prazeres sensuais. Foi uma hora divertidíssima, que anda pela RTP Play, em que falámos da mesa e de outras coisas, do mundo do gosto que ela nos proporciona.

Uns bons anos antes, em casa do meu amigo Fernando Neves, eu tinha revelado que acabara de ler um livro de um autor menor português, uma figura justamente depreciada pela sua mediocridade, cujo nome nem interessa lembrar. Já nem sei a razão, ou a curiosidade, pela qual eu tinha decidido essa inusitada incursão de leitura. O António Mega Ferreira, escandalizado, mostrou a sua incredulidade: “Ó Francisco! Só o simples esforço de estender o braço para a estante, para pegar num qualquer livro dessa figura, já de si é um excesso. Que diabo de autores com que você ainda perde tempo, quando há tão bela escrita que nem toda uma longa vida nos permitirá ler!”.

O António Mega Ferreira tinha toda a razão. Como homenagem, na tarde deste “boxing day”, vou reler o seu magnífico “O Heliventilador de Resende”, que acabo de descortinar numa estante aqui ao lado.

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