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sexta-feira, setembro 30, 2022

A igreja e os abusos

Há poucas semanas, numa entrevista a Maria João Avillez na CNN Portugal, o papa Francisco, sem enjeitar as responsabilidades da igreja perante as cada vez mais frequentes revelações sobre abusos sexuais no seio da instituição, lembrou, e bem, que a maior parte dos crimes desta natureza são praticados nas famílias.

As estatísticas dão razão ao papa, mas não podem absolver a igreja católica, por pequena que seja a sua quota de culpa. E é também por essa razão, somada às evidências que já não podem ser negadas, que a própria igreja tem vindo a autocriticar-se. E só lhe fica bem.

Há uns tempos, estive à conversa com um amigo que viveu uns anos num seminário. Veio à baila a questão dos abusos sexuais que por ali se praticavam. Esse amigo referiu-me que, nesses tempos, a fragilidade dos filhos de gente pobre, nomeadamente oriunda de zonas rurais, enviada para os seminários como único caminho para obter uma educação e a esperança de algum futuro, era por vezes explorada por religiosos abusadores. Esse era então um “segredo de Polichinelo”, numa época em que a força da autoridade, bem como a complacência da instituição, conduzia a um manto de silêncio sobre tais práticas.

Nos últimos dias, surgiram acusações contra o bispo timorense Ximenes Belo, dando conta de se tratar de histórias antigas, pelos vistos arquivadas na memória embaraçada da hierarquia religiosa.

Tive oportunidade de encontrar Ximenes Belo quando Timor-Leste precisou da sua coragem. Com ele e com Ramos Horta, partilhei uma jornada em Genebra, em setembro de 1999, durante a qual, no seio da então Comissão dos Direitos Humanos, foi possível isolar a Indonésia, no caminho para a libertação do território. Ambos viriam a representar a determinação dos timorenses, com a justa atribuição do Prémio Nobel da Paz, em 1996.

Há menos de três anos, cruzei Ximenes Belo numa pastelaria de Campo de Ourique. Conversámos uns minutos e recordámos esses tempos. Nunca mais o vi, desde então. A tragédia pessoal, pelos vistos, bate-lhe agora à porta. Terei imensa pena, se as graves acusações que sobre ele impendem forem verdadeiras. Mas uma coisa não apaga a outra: um eventual comportamento dessa natureza, a confirmar-se, deve ser  condenado e denunciado, mas não pode nunca anular a admiração que a sua luta por Timor-Leste concitou pelo mundo.

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