A história da imprensa de um pais ajuda muito a percebê-lo. Os jornais, com a sua ocasional ou prolongada popularidade, acabam por ser o reflexo do modo como foi possível encontrar fórmulas para responder mediaticamente às ondas, episódicas ou sustentáveis, de interesse por parte do público, neste caso leitor.
É na novidade, pelo rompimento com o que até então existia, que reside sempre o êxito das novas propostas. Foi assim com o “Expresso”, repetiu-se com o “Independente”, iria ser o caso do “Público”. Mais recentemente, o “Observador”, na era digital, surgiu um pouco nessa linha de rutura. Nuns casos, a neutralidade política é tentada, noutros impera aquilo que já vi qualificado como “jornalismo de seita”.
Se bem que não catalogável no mesmo clube de jornais, o “Tal & Qual” representou também, na sua época, uma forte novidade, em termos de modelo. Assumiu, em regra, uma assinalável independência no sempre rentável terreno “anti-establishment”, o que, com o peso de alguns nomes que surgiam a fabricar o produto, lhe garantiu, logo no lançamento, uma certa credibilidade.
Com um preço apelativo, o jornal era, esteticamente, um produto algo artesanal, tendo como trunfo o chocante das capas e algumas boas e inventivas “caixas”, num jornalismo que então esgravatava nichos nunca antes navegados, pelo menos daquela forma, servido por reconhecidos profissionais e jovens e talentosos jornalistas, à cata de uma oportunidades de realce, nem que fosse pelo chocante das propostas. Sempre me pareceu haver por ali muito do “tabloidismo” britânico, somado à herança implícita da ousadia do “Reporter X”, de muitas décadas anteriores.
Claro que o “Tal & Qual”, até pela própria natureza do jornalismo que fazia, não resistiu a prestar-se, algumas vezes, a ser instrumento de algumas “vendettas” (mas muito, muito longe desse “benchmark” do género que foi “O Independente”) quase sempre enroupadas por algum humor e ironia (sei do que falo, por experiência própria, por mais de uma vez). Mas não hesito em reconhecer que a sua iconoclastia representou, claramente, um tempo marcante no jornalismo português. Valeu muito a pena ter existido o “Tal & Qual”.
Gonçalo Pereira Rosa - cujo nome, neste caso equivocamente, traz memórias da família que foi dona de “O Século” - e José-Paulo Fafe lançaram-se agora à tarefa de recordar a aventura que foi o “Tal & Qual”. Para tal, convocaram memórias de muitos que estiveram ligados ao processo de criação e feitura do jornal.
Pereira Rosa tem-se revelado um prolífico e notável inventariador das memórias do jornalismo português, José-Paulo Fafe é um “vieux routier” da profissão, nela assumindo, como imagem de marca, um temível estilo acerado de escrita. Começou no “Tal & Qual”, daí encetando um percurso por vária imprensa e artes correlativas.
Com apoio das imagens de algumas primeiras-páginas marcantes da história do jornal, o livro - e aqui regresso ao que disse a abrir este texto - ajuda-nos bastante a perceber (ou a recordar) o Portugal desse tempo, da “jovem democracia portuguesa” (para utilizar uma expressão comum no Dr. Cunhal).
Por aquelas páginas, fotografias e textos, andam Soares, Cavaco e os respetivos séquitos e sucessores, os tempos do deslumbre com os dinheiros europeus e as negociatas anexas, os “cromos” da época, os escândalos e alguma coscuvilhice, inócua ou não.
Na minha opinião, sobrevivem hoje, no “Correio da Manhã”, reflexos de alguma herança jornalística do “Tal & Qual”, servida talvez por uma leitura diferente dessa coisa, às vezes despicienda, que é a verdade dos factos. Sei que a frase que acabo de escrever está longe de ser consensual, pelo que fica já aqui um pedido preventivo de desculpas às duas publicações, em especial à “falecida”.
Ao tempo do “Tal & Qual” vivia-se apenas um esboço tímido do ataque aos “famosos” e aos “poderosos” do mundo económico, atitude mediática que agora se banalizou, porque então tudo era feito com muito “respeitinho” por quem tinha “o bago”, termo que João da Ega dizia a Palma Cavalão, diretor de “A Corneta da Diabo”, jornal que, nem pelo facto de não ter existido, não deixou de ser um inspirador do “Tal & Qual”, particularmente em algumas fases deste - e mais não digo!
(O Zé Paulo Fafe não deve ter gostado mesmo nada, em especial, dos dois últimos parágrafos, mas discutiremos isso numa não-tertúlia que consta que por aí anda).
Este livro, que li de um fôlego, é um interessante testemunho daquilo que foi um fresco jornalístico de um país e de um regime que então andava à procura de um registo para, em paz e democracia, poder “viver habitualmente” (para citar o Dr. Salazar), o que, feliz ou infelizmente, não está na nossa matriz de “um povo que não se governa nem se deixa governar”, como escreveu um general romano que, já desde os tempos da Ibéria, nos topava à légua.
