quarta-feira, 23 de setembro de 2020

A voz da América


As arengas dos líderes nacionais, nas assembleias-gerais anuais das Nações Unidas, raramente despertam interesse. Salvo se oriundas de um "trouble-maker", costumam ser catálogos de platitudes. 

Um país "normal" diz ali o que tem de ser dito, porque se algumas coisas não forem ditas ou reafirmadas isso nota-se. Sei do que falo, porque ajudei a escrever algumas dessas intervenções.

Não é isso, contudo, que se passa com os discursos dos presidentes americanos. O que um líder dos EUA escolhe para dizer acaba por ter uma forte relevância.

A América é o grande poder "condicionador". Outros terão força regional ou setorial, mas os EUA detêm um poder único, à escala global. E isto não é uma opinião, é um facto.

Os discursos americanos começam por ter importância para a própria ONU. Engendrada pelos Estados Unidos, a organização depende da boa vontade americana para funcionar com eficácia, o mesmo é dizer que funciona mal ou paralisa quando os EUA dela se desligam ou a obstaculizam. As mensagens a este respeito são assim interessantes de seguir, embora Washington, não raramente, se sinta pouco presa à sua própria palavra, o que é típico de quem tem a força do seu lado.

Ao serem alinhadas as prioridades externas da América, o "resto do mundo" fica também a saber com o que pode contar. Amigos e adversários de Washington leem com atenção esse elenco geopolítico, sopesando as palavras e as regiões escolhidas. E notam o que não é dito, nem sequer mencionado ao de leve - como, no discurso de ontem, as palavras Europa ou Rússia. Ou África.

Num ano eleitoral como este, atente-se nas mensagens para consumo interno. Com naturalidade, no dia em que passa de 200 mil o número de americanos mortos pela pandemia, o seu presidente sublinha o "êxito" da estratégia nacional seguida.

Em contraponto, surgem notas positivas sobre o comportamento da economia. E também foi relevada a importância, inigualável, do poderio militar americano, numa espécie de nota pouco subliminar de que "não nos desafiem".

É que o desafio - da China, claro - perpassa todo o discurso, desde o "vírus chinês" às ameaças comerciais. Esse perigo esteve por toda a parte no discurso de Trump, porque este sabe que o eleitorado americano, republicano ou democrata, está adquirido para aceitar ser esse o novo desafio nacional.

Trump terminou com um "God bless the United Nations". De facto, se a sua reeleição se confirmar, o mundo multilateral ficará, definitivamente, nas eventuais mãos divinas. Só um milagre o salvará.

10 comentários:

Anónimo disse...

Não deixa de ser curioso que um planeta inteiro esteja numa organização que só funciona se um país quiser. Isso não é problema dos EUA mas sim dos outros países. Um pouco como a defesa da Europa - que é cagona para desfiles e projetos militares -, mas, depois, depende dos EUA.

Se os EUA lutam pelos seus interesses e se esses são contrários aos "nossos", é a "nós" que cabe lutar para que isso mude. E não deixa de ser irónico ver na ONU balões de ar (mais ou menos quente), que passam a vida puxar lustro aos galões de potência mas que, como se vê, só têm força para aplicar vetos quando se trata de criticar ditaduras.

Nem a UE se entende, quanto mais a ONU! Problema dos EUA? Se calhar, não.

Anónimo disse...

E se vencer naquele gigantesco país -provavelmente por intervenção divína- uma administração "Kamala / Biden"?. Surgirão as famosas primaveras planetárias...?.

Joaquim de Freitas disse...

« Trump terminou com um "God bless the United Nations".

Creio, Senhor Embaixador, que desta vez Trump devia ter pedido a bênção para os EUA, também, e talvez mais que para as Nações desunidas…

Estranho pais que condiciona a vida do Mundo, tem razão. E que engana o mundo inteiro quando se reclama da liberdade de expressão, materializada pelo voto, que é a sua mais simples e reconhecida bandeira.

Bush Júnior foi eleito pela Corte Suprema, com menos votos que Al Gore, e Trump, ao contrário de Obama, assumiu o cargo com o apoio de uma minoria de americanos, pois que obteve quase três milhões de votos a menos do que Hillary Clinton.

Joe Biden pode ter que ganhar o voto popular por mais de cinco milhões de votos para esperar uma vitória do Colégio Eleitoral. Isso é perverso.

Gosto muito de ler as diatribes dos reaccionários da direita quando falam da “longevidade” dos dirigentes russo e chinês…

Mas que esquecem que o Senado americano é controlado desde 2014 por republicanos que, cumulativamente, representam menos da metade do país - o período mais longo em um século”. E isto porque os estados menos populosos têm a mesma opinião e influência que os muito mais populosos – o que favorece os republicanos.

E os membros da Corte Suprema são eleitos para a vida.

Quase imediatamente após a notícia da morte de Ruth Bader Ginsburg, juíza democrata da Corte Suprema, e antes mesmo que o seu corpo arrefeça na tomba, Mitch McConnell prometeu uma votação rápida no Senado sobre a substituição de Ruth Bader Ginsburg indicada por Trump, menos de duas horas após a notícia de sua morte.
E aqui estão os americanos, à beira de um tribunal que não representará o que a maioria dos americanos acredita.
Imaginemos que Trump ganha e que esta Corte Suprema, recebe mais um juiz conservador, republicano, talvez mesmo uma mulher…. Pois que todos os seus membros são eleitos para a vida inteira, os EUA teriam uma Corte Suprema, o órgão jurídico mais poderoso, nas mãos de conservadores para pelo menos quarenta ou cinquenta anos…
A única maneira de perdermos esta eleição é se a eleição for fraudada”, disse Trump a partidários num comício em Wisconsin no mês passado, exortando os norte-carolinenses a controlar (armados ?)as secções eleitorais e "assistir a todos os roubos " pelos democratas, que trabalharão para levar Biden à vitória "fazendo coisas muito ruins".
Os democratas, “estes ruins”, socialistas, comunistas, anarquistas, antifascistas, etc…segundo o discurso de Trump…
TRUMP disse: O CAOS OU EU…. Os Americanos, no 4 de Novembro, podem muito bem ter os dois…

God Save América ….

Anónimo disse...

Com a eleição do trump diziam que vinha ai a terceira guerra mundial? Já começou? Se calhar já, pelo menos nos EUA com as milícias dos BLM e outros grupos financiados pelos milionários democratas a espalharam o terror e anarquia.

Joaquim de Freitas disse...

Anonimo de 2020 -14:27


O movimento de milícias é um movimento político estadunidense de extrema-direita organizado em grupos paramilitares que reivindicam legitimidade sob a "Cláusula das Milícias", a Segunda Emenda da Constituição dos Estados Unidos e outras disposições similares nas constituições dos diferentes estados do país. O historiador Mark Pitcavage assim descreve o movimento de milícias na década de 1990. Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Novos dados mostram que milícias de extrema direita, muitas vezes com apoio da polícia, ameaçaram manifestantes cerca de 500 vezes desde que George Floyd foi assassinado por policiais.

Corsil Mayombe disse...

Ao anónimo,às 14:27

Sim,a terceira Guerra Mundial já começou,camuflada e travestida... (covid-19)!!!!!!!

Anónimo disse...

Isto agora anda um fartote para o estalinista.

Anónimo disse...

Por vezes, lamentavelmente, constato o excesso de “lugares comuns” sem significado, que os líderes dos diversos países debitam na casa de uma organização como esta. Não seria de exigir muito mais...?

Anónimo disse...

Educador das 15:14. "ameaçaram manifestantes", Mais correctamente seria: " ameaçaram pacíficos manifestantes".

Joaquim de Freitas disse...

Anonimo de 24 de Setembro de 2020 às 18:10 : Creio que tem razao: as manifestações foram pacíficas, assim como 93% das demonstrações ligadas ao grupo antirracista, segundo um estudo publicado na última quinta-feira pela ONG Armed Conflict Location & Event Data Project (ACLED).

O "Educador" agradece o rectificativo...