sexta-feira, janeiro 04, 2019

Vai dormir bem, Joana Marques Vidal?


Há mais de três anos, publiquei aqui um post onde, a certo passo, dizia isto:

Ontem, porém, abriu-se um capítulo novo e a coscuvilhice sobre processos envolvendo figuras mais ou menos famosas foi bastante mais longe, ao termos assistido às incríveis imagens televisivas de Miguel Macedo e Manuel Palos a serem interrogados por uma procuradora. Por mim, ao ver aquilo, senti-me enojado e triste, com um sentimento de vergonha pela justiça do meu país - e não é por acaso que hoje não uso maiúscula para a qualificar. Não conheço nem nunca falei com Miguel Macedo, figura política que, tanto quanto sei, não suscitará uma polarização pública de simpatia/antipatia como é o caso de José Sócrates. Quero com isto dizer que, salvo a menina do CMTV que logo cuidou de avisar que se tratava de imagens "de interesse público", o país não vai acordar amanhã com grupos de cidadãos a defender os autores destes novos "leaks", talvez apenas alguns "jornalistas" amigalhaços, à espera de também serem usufrutuários futuros destes comportamentos miseráveis. Por isso me pergunto se isto ficará "assim", uma vez mais.”

A pergunta que coloquei teve uma resposta: que se saiba, ninguém da Procuradoria-Geral da República, onde o processo estava em segredo de justiça, foi punido por aquela quebra do mesmo. Como é costume.

Miguel Macedo e Manuel Palos, tal como outros, foram hoje considerados inocentes dos crimes que lhes eram imputados. Passaram, entretanto, eles e as suas famílias, quatro anos de humilhações públicas, com o primeiro a ser politicamente afetado de forma quase irreversível e o segundo, uma pessoa que conheci na minha vida oficial e que sempre tive na melhor conta, a ter de atravessar uma situação profissional terrível, depois de ser afastado de um cargo público importante a que tinha ascendido por mérito próprio. A vida de ambos mudou para sempre, nestes quatro anos, e não para melhor.

A pergunta que agora faço também tem a ver com responsabilização: ninguém paga pelo que fizeram a estes dois cidadãos? Quem os acusou, pelos vistos sem o menor fundamento, quem pôs o seu nome (e a sua cara, em fotografias e dias inteiros de imagens televisivas) na lama, sai disto sem ter de responder perante ninguém? Será por este tipo de coisas que o Ministério Público quer ter uma maioria de pessoas da corporação no seu Conselho Superior? Joana Marques Vidal vai dormir bem esta noite?

14 comentários:

  1. Será que o MP tem uma verba no seu orçamento para indemnizar os cidadaos indevidamente acusados?

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  2. Anónimo11:01

    Dra. Joana Marques Vidal foi uma excelente Procuradora que muitos lamentam tenha sido afastada . E, já agora , que culpa teve a Senhora que as televisões transmitissem o julgamento ? Era à porta fechada ? Se calhar devia ter sido . A televisão , incluindo a RTP , o que quer é audiência , e , quanto maior fôr o escândalo , melhor cumprem o seu objectivo .
    Agora diga-me , Sr. Embaixador , porque razão Joana Marques Vidal não iria dormir descansada ? Foi ela que chamou as televisões ?...
    Dito isto , fico contente que os 2 senhores tenham provado a sua inocência , sempre são menos 2 corruptos neste país cheio de gente dessa . Ah , e lamento os 4 anos terríveis cujas famílias e eles próprios tiveram de passar . Mas fez-se justiça . Ponto .

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  3. Victor Morais12:15

    Exactamente caro embaixador Seixas da Costa! Será certamente mais uma achega para a enorme vergonha que é a nossa justiça, se, após esta vergonha, não houver consequências para quem a promoveu e para quem deixou que ela prosperasse livremente.
    Mas duvido muito que algo venha a acontecer e a dra. Joana Marques Vidal continuará
    certamente a dormir muito descansada e, eventualmente virá ainda a ser recompensada com mais
    alguma comenda.
    Apesar disso, subscrevo integralmente aquilo que aqui defende e tem a coragem de escrever publicamente, e felicito-o por ter essa coragem.

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  4. O Anónimo das 11:01 está mal informado. Não foi o julgamento que foi transmitido, foi o interrogatório durante a detenção, sob responsabilidade do MP, dirigido por JMV

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  5. Anónimo13:32

    Parabéns Sr. embaixador pelo seu comentário sobre a justiça portuguesa. A partir do momento em que a corporação, que não responde perante ninguém, começou a ser rotulada de "Justiceira Implacável", ninguém mais a segura. E isto vai acabar mal.

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  6. Anónimo15:05

    Anónimo das 11.01,
    JMV foi uma PÉSSIMA PGR, ao contrário do que disse.
    Arquivou o caso Tecnoforma do Passos, não deu andamento ao processo do submarinos do Portas, limpou o caso do BPN, permitiu as fugas de informação, permitiu o circo em redor de J.Sócrates, fechou os olhos à fuga de informação da Justiça, etc. E não é verdade que muitos lamentem a sua não recondução. Só o PSD/CDS, que estão em minoria. Nem o PR lhe permitiu continuar. JMV será a candidata da extrema direita neo liberal - PSD/CDS. E perderá.
    A Justiça sem JMV está melhor entregue. Antes, com ela, fazia fretes ao PSD/CDS, agoar não.
    Boa tarde!

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  7. O Sr Anónimo, das duas uma; ou não leu o texto, ou não o soube interpretar, ou tem as ideias completamente baralhadas!... Se acha que, sim senhor, a senhora procuradora não tem motivos para não dormir bem, mas, por outro lado, condena os quatro anos terríveis passados, pelos visados, algo vai mal naquela cabeça!...

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  8. Anónimo17:41

    Mas há jornalistas que continuam a escrever que Marques Vidal foi a figura do ano...
    E o recurso do Ministério Público depois da absolvição mostra também a sua pouca qualidade e pouca vigilância das liberdades públicas, dos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos. Fascismo nunca mais!

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  9. Anónimo21:19

    Segundo julgo saber, tratava-se de um interrogatório judicial, dirigido por um juiz de instrução, e não pelo MP. Acresce que a gestão do sistema informático que procede às gravações é da responsabilidade do IGFEJ, tutelado pelo Ministério da Justiça. Os magistrados judiciais são independentes e os do MP autônomos, não tendo a Joana Marques Vidal, ou qualquer outro PGR, o poder de interferir com as decisões processuais que os procuradores tomam. Se estes cometem erros grosseiros, existe uma lei que permite a sua responsabilização civil, para além da disciplinar ou, no caso de haver dolo, eventualmente penal. Quando, como parece ocorrer aqui, apesar de toda a histeria envolvida, não é o caso, é apenas a justiça a funcionar. Os custos políticos extravasam o seu âmbito. Aliás, o próprio tribunal que absolveu considerou a conduta de Miguel Macedo reprovável... desconheço os autos, não sei se o tribunal fez, ou não, a mais correcta avaliação da prova. Os recursos são um instrumento para o aperfeiçoamento das decisões jurídicas. Veremos.
    Quanto ao CSMP e à sua composição, não é para isto que se pretende uma maioria de magistrados. O CSMP não tem qualquer poder de iniciativa ou intervenção processual. Limita-se a gerir a carreira e a disciplina dos magistrados do MP. Parece-me, Senhor Embaixador, que a JMV pode dormir descansada. E que um pouco de estudo não lhe faria mal. E talvez o ajudasse também a adormecer.

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  10. Anónimo00:05

    Anónimo das 16,24
    As minhas ideias não estão baralhadas e percebi muito bem o que li . Muito bem a intervenção vergonhosa da televisão foi durante a detenção , coisa lamentável , mas que as televisões adoram , qual abutres a mostrarem as desgraças dos outros . Às vezes até começam antes da hora ... Mas voltando a JMV deveria ela ter mandado dar umas bengaladas aos jornalistas ? Mandá-los prender ? Deixem a Senhora em paz . Por outro lado nada me impede de lamentar e condenar uma injustiça . São atitudes incompativeis ? Lamento não destilar ódio ...

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  11. A inação patenteada pelo Ministério Publico e pela PGR em relação a violação de segredo de justiça, que é no ordenamento juridico portugues é um crime, constitui uma falha grave e uma denegação de justiça.
    Tal como o Embaixador Seixas da Costa pergunto-me como justifica a Sra JMV a sua passividade perante os crimes que foram cometidos contra pessoas inocentes por inepcia do Ministerio Publico.
    CO

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  12. Absolvição não é sinónima de inocência em relação aos crimes de que se pode ser acusado.
    Neste, como em qualquer outro caso.

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  13. Ao comentador dutilleul - "Absolvição não é sinónima de inocência" - pode explicar melhor?

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  14. Anónimo09:29

    Sr. Embaixador
    Os media nunca serão solução alguma neste enquadramento. Os objectivos por que se pautam conflituam com o "recato" e privacidade, sempre frágil, em que estes assuntos deveriam ser tratados.
    Nem mesmo o segredo de justiça é o principal problema.
    A verdadeira questão é saber que justiça se obtém com processos longos, lentos e sem definições de regras claras.
    Neste e noutros processos, que findam anos após o seu início, que garantias tem a sociedade do conceito de "fazer justiça". Que garantias dá ao cidadão um sistema destes.
    Sem reformas de facto, neste e noutros sectores do Estado, continuaremos na mesma, e o futuro dos Direitos e garantias da Democracia, tudo não passará de fumaça.
    Um abraço

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