sexta-feira, janeiro 11, 2019

A bola de papel


Ontem, esteve “na moda”, nas redes sociais, ironizar sobre a ideia anunciada pelo município lisboeta de passar a punir, com multas, quem deitar periscas de tabaco ou pastilhas elásticas para o chão. Foi o bom e o bonito! Logo surgiram fotografias de sacos de lixo e carros em segunda fila, numa forma de “whataboutism” que, lá no fundo, quer dizer: “enquanto houver um carro mal estacionado, o município não tem legitimidade de nos chatear com essas regras de civilidade”, considerando-as talvez uma bizarria, como se houvesse uma qualquer prioridade temporal na observância das normas de educação e respeito social.

Lembrei-me então de algo que um dia se passou comigo na Noruega, quando para lá fui viver, em 1979. Eram as primeiras semanas da minha vida no estrangeiro e essa é talvez a razão por que fixei bem o incidente.

Eu tinha ido a uma estação de correios em Bogstadvein, perto da embaixada, levantar uma carta registada. À saída, abri ansiosamente o envelope, que logo amachuquei numa bola, ao mesmo tempo que caminhava pelo passeio. Com a atenção concentrada na leitura da carta, tenho quase a certeza de que foi deliberadamente que deitei ao chão, numa esquina, a pequena bola de papel. Continuei a andar. Uns segundos depois, ouvi a voz de uma mulher dizer algo alto, em norueguês. Era para mim. Tratava-se de uma senhora bastante idosa, a quem devo ter retorquido com uma interjeição qualquer em inglês, talvez “what?”. E foi também em inglês que ela me respondeu, entregando-me a bola de papel, como se de algo valioso se tratasse: “Deixou cair isto. É seu”. Fiquei “passado”! 

Aprendi a lição. E tenho absoluta certeza de que, nestes quase 40 anos que passaram desde esse dia, nunca mais deitei um papel ao chão numa rua.

Como se diz "medo" em português?

Fico com a sensação de que há Estados membros da União Europeia que sinalizaram a sua disponibilidade de se juntarem à proposta espanhola de...