domingo, 27 de janeiro de 2019

Assim, não vale!


Quando eu era pequeno, em jogos com amigos, a regra era termos “armas iguais”, nenhum de nós dispor de algo que desequilibrasse o jogo, que tornasse a competição “unfair”. Podia ser uma raquete melhor, umas chuteiras ou umas sapatilhas (agora diz-se uns ténis) “à maneira”. Ninguém podia ter uma qualquer vantagem comparativa. Se acaso isso acontecia, para justificarmos a nossa inferioridade, clamávamos: “assim, não vale!”

Há pouco, ao ler este texto do meu amigo José Ferreira Fernandes, lembrei-me da expressão. Anda um cristão a desenhunhar-se para escrevinhar uns textos jeitosos e, numa noite, abre a net e leva na cara com um coisa destas. Dá vontade de “recolher” a tecla, “desafiar” o lápis e passar a dedicarmo-nos à columbofilia ou a ver crescer a relva. Assim, não vale! 

Se eu fosse capaz de escrever um texto assim...

12 comentários:

Joaquim de Freitas disse...

Pois é, também poderia ter começado a história assim :

No dia 6 de Dezembro de 1998, há 20 anos, Hugo Rafael Chávez Frías ganhava as eleições presidenciais na Venezuela pela primeira vez e inaugurava uma nova página na história do país.

À época, a Venezuela era castigada por corrupção, pobreza e desigualdade.

O sistema de Ponto Fixo, que acabou com a ditadura de Marcos Pérez Jiménez em 1958, era baseado em dois partidos, Acção Democrática (AD) e o Comité de Organização Política Eleitoral Independente (Copei), que se alternavam no poder sem conseguir resolver os problemas. Cada presidente que tomava posse culpava o anterior pela herança".

Então, os venezuelanos decidiram confiar em Chávez, um jovem militar que havia ficado famoso como líder de uma tentativa de golpe de Estado em 1992, contra Carlos Andrés Pérez.

A sua mensagem televisiva ao país pouco depois do fracasso da rebelião, quando anunciou que seu movimento bolivariano não tinha alcançado seus objectivos "por ora", foi, na verdade, como escreveu na época Gabriel García Márquez, "o início de sua campanha eleitoral".

Depois de ser perdoado em 1994 pelo presidente Rafael Caldera, Chávez, de gravata e já sem uniforme militar, competiu nas urnas seis anos depois e venceu de lavada.

A situação em 1998 era de verdadeiro desastre e ele conseguiu se apresentar como um salvador em meio a esse desastre, porque os venezuelanos já não acreditavam nos partidos políticos tradicionais".

Apesar de ter feitos declarações contrárias ao Fundo Monetário Internacional (FMI) em seu mandato anterior (1974-79) e na campanha presidencial de 1989, o presidente Carlos Andrés Pérez fez ajustes acordados com o órgão em troca de crédito para que a Venezuela pudesse enfrentar sua enorme dívida externa e melhorar sua economia, afectada pela queda dos preços de petróleo nos mercados internacionais.

Na época, tal como hoje, a Venezuela dependia de suas exportações de petróleo bruto, sem refino (portanto, sem valor agregado)

Na década de 1970, principalmente no primeiro governo de Pérez, a Venezuela havia beneficiado de um boom de petróleo que permitiu um volumoso gasto social. Foram os anos conhecidos como "Venezuela saudita", caracterizados pelo investimento público e pela criação de infraestruturas no país. Foi mais ou menos nessa época que também andei por là. E fiz bons negocios!

Mas na década de 1980 aquela bonança terminou. Os preços, o desemprego e a dívida pública cresceram.

Até que, em 1989, logo depois de ser eleito pela segunda vez, Pérez implementou o programa económico conhecido popularmente como "pacotão", que incluiu cortes em serviços sociais, aumento de impostos e privatização de empresas estatais.

A Venezuela de 1998 ainda vivia sob o trauma do episódio conhecido como "Caracaço". Pouco depois de Pérez iniciar as reformas, uma revolta popular com protestos e saques estourou em Caracas.

O historiador Blanco Muñoz diz que o presidente suspendeu várias garantias constitucionais e, "para salvar a si mesmo e ao seu governo, botou o Exército na rua com ordem de matar". Ele chama esse momento de "massacre da Venezuela".
"Ainda estamos contando os mortos", lamenta em conversa com a BBC Mundo Juan Barreto, que acompanhou a candidatura de Chávez desde seus primeiros passos e foi responsável pela comunicação no seu governo.
A onda de violência e a repressão à época deixaram centenas de mortos, mas o número exacto ainda é motivo de debate no país. Fala-se de 3 000 mortos. Os soldados de Perez, tinham atirado à metralhadora sobre o povo! Imagine-se fosse Chavez ou Maduro!

A indignação contra a resposta do governo aos protestos fortaleceu o apoio a Chávez mais tarde.
Esse contexto político e económico do final da década de 1990 facilitou a ascensão de Chávez, um militar que propôs romper com a política tradicional.

Anónimo disse...

Os textos do José Ferreira Fernandes são sempre fantásticos .
Quanto à palavra ( horrivel ) sapatilhas é usada há pouco tempo . Na minha infância e adolescência , há várias décadas , costumavamos dizer ténis , pois era para isso ( e só ) que serviam : para irmos jogar ténis . També se fazia ginástica com esses ténis .

Joaquim de Freitas disse...

SUITE


Mas, a situação de hoje tem alguns paralelos com aquele momento.
Em 2014 e 2017, ocorreram diversas ondas de protesto contra o governo de Nicolás Maduro, sucessor de Chávez, que morreu em 2013. Os afrontamentos entre forças de segurança e manifestantes também deixaram dezenas de mortos - não há consenso sobre o número exacto.
Barreto diz que ultimamente "o governo Maduro vem cerceando liberdades, mas não se pode dizer que seja igual ao que se viu no Caracaço", quando, segundo ele, "obrigaram jovens a atirar contra a população".

A economia da Venezuela começou a sofrer uma forte deterioração em 2013, ano em que morreu Chávez.
Segundo estimativa do FMI, o país terá vivido em 2018 seu terceiro ano consecutivo com uma queda superior a 10% do PIB, uma redução dramática de sua riqueza nacional. Entre 2013 e 2017, o PIB venezuelano teve uma queda de 37%. O FMI prevê que, neste ano, caía mais 15%; e descreve a situação como "uma das piores crises económicas da história".
A isso se soma a hiperinflação, um aumento constante e acelerado dos preços, que o FMI estima totalizar 1.000.000% até o fim deste ano.

Ainda que em 1998 a inflação já fosse um problema, a actual supera todos os precedentes na Venezuela e quase todos no mundo.

A crise actual também teve como causa a queda do preço do petróleo. Mas Chávez não conseguiu romper com o modelo rentista petroleiro. E os embargos e sanções dos EUA e da EU vieram ajudar…

Todos os analistas concordam que a farra dase autoridades venezuelanas com esquemas de corrupção foi outro motivo importante que deu a Chávez sucesso nas urnas.

Já na década de 1970, proliferavam escândalos que vinculavam Carlos Andrés Pérez e figuras de seu entorno a suposto uso indevido de recursos públicos.
Depois do "Caracaço" e de duas tentativas golpistas de Chávez, Pérez foi formalmente acusado de gastar indevidamente milhões de bolívares de um fundo secreto presidencial e destiná-los ao envio de uma missão policial à Nicarágua.

O processo acabou com sua destituição como presidente pelo Congresso e a Suprema Corte o condenou a dois anos e quatro meses de prisão domiciliar.

Em 1998, Pérez foi acusado de novo pelo uso indevido de recursos públicos, que teria ocultado em contas de bancos americanos. Pérez deixou a Venezuela e acabou se instalando em Miami, onde morreu sem ter atendido aos requerimentos dos tribunais venezuelanos.
Mas o chavismo tampouco se livrou da mancha de corrupção.

Mas com o novo presidente auto proclamado Juan Guaido, e com o apoio dos EUA da UE e de Bolsonaro, a corrupção vai desaparecer e a fartura vai enfim chegar às prateleiras dos Supermercados de Caracas.

O Tio Sam espera com impaciência que a sigla PDVSA, a empresa de petróleo estatal venezuelana, se transforme por encanto em Exxon Mobil USA ,Royal Dutch Shell ,Chevron USA ,Petrobras Brésil ,Ecopetrol Colombie , BP Royaume-Uni Total France etc.
E tudo entrará na ordem. Como no Iraque e na Líbia, depois do banho de democracia do Ocidente.

Francisco de Sousa Rodrigues disse...

Muitos Parabéns, Sr. Embaixador!

Realmente, grande FF, mas o Sr. Embaixador não lhe fica atrás, porque tudo o que um homem com H escreva, será sempre boa escrita.

Um grande abraço.

Cardeal disse...

Ferreira Fernandes e assim,neste e noutros artigos. E há quem diga que já não há jornalistas. Já são é poucos. O seu poste sobre o Bairro da Jamaica também é bem interessante.
Há homens e mulheres que não deveriam ter fim se não houvesse alguém que continuasse o seu saber. Lembro-me, ainda que a despropósito, do dono de um restaurante que conheci em Portimão. Era um homem que mal sabia ler, mas conhecia o peixe como ninguém e se o sabia cozinhar! O restaurante era uma tasca, mas era frequentada por algumas elites da época. O sr Goncalo faleceu e o restaurante, com a qualidade que tinha, acabou.

Anónimo disse...

Interessante texto.
E já que se fala de artigos escritos por jornalistas, li hoje um de Luís Rosa, no Observador, sobre "João Miguel Tavares e os Snobs do 10 de Junho", artigo no qual o tal Luís Rosa lhe dá uma "bicada", muito zangado por Seixas da Costa, tal como R.Vieira Nery e G.Canavilhas (cito) não apreciarem a escolha de Marcelo para organizar essas Comemorações do 10 de Junho.
Enfim, diatribes da Direita Radical.

Joaquim de Freitas disse...

Se se sentassem todos à volta de uma mesa seria como um monumental “Dîner de Cons” , (como traduzir?) porque é óbvio que não têm politicamente luz em todos os andares!

O Presidente francês, Emmanuel Macron, ordenou a Nicolas Maduro de não reprimir a oposição, mas ele esqueceu a prisão de 3.300 franceses e os 2000 feridos relacionados com a repressão do movimento dos Coletes Amarelos.

O Presidente do governo espanhol, Pedro Sanchez, dá a Nicolas Maduro oito dias para organizar as eleições, mas ele esquece que ele está no seu poleiro, graças a uma moção de censura, não por eleições livres.

O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, acusa Nicolas Maduro de não ser legítimo porque o presidente venezuelano foi eleito apenas com 30,45% dos registados, mas ele esquece que apenas 27,20% dos eleitores norte-americanos o escolheram.

O presidente colombiano Ivan Duque grita contra a narco ditadura venezuelana, mas esquece que 65% da cocaína no mundo é feita na Colômbia, sob o olhar complacente das autoridades do país.

O presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, está preocupado com os direitos humanos na Venezuela, mas esquece que disse que os movimentos sociais que se opõem a sua política seriam considerados organizações terroristas.

O presidente argentino, Mauricio Macri, acusa Nicolas Maduro de ser um corrupto, mas ele esquece que só o seu nome aparece nos “ Panamá Papers” não o do presidente venezuelano.

Portugal lamenta a crise venezuelana que, segundo as Nações Unidas, empurrou 7,2% dos venezuelanos para as estradas da emigração, mas esquece que 21% dos portugueses foram obrigados a deixar o seu país e vivem no estrangeiro, segundo as mesmas fontes.
(Eu incluído e toda a minha família, por causa do fascismo).

O Presidente peruano, Martin Vizcarra, grita para a ditadura na Venezuela, mas esquece que ele foi nomeado chefe de seu país sem qualquer voto popular, apenas para substituir o presidente anterior, deposto por corrupção.

No Reino Unido, os líderes denunciam os ataques à liberdade de expressão na Venezuela, mas esquecem que mantêm, sem qualquer razão, o jornalista Julian Assange em isolamento.

A Bélgica está alarmada com a situação da economia venezuelana, mas esquece que, em Bruxelas, a empresa Euroclear detém 1.250.000.000 do Estado Venezuelano, que tem necessidade de importar medicamentos e alimentos para o seu povo.

Estas inversões acusadoras, específicas desta "escola mundial de cabeça para baixo", descrita por Eduardo Galeano, fazem parte do modus operandi da propaganda contra a Venezuela.

Eles visam preparar a opinião pública internacional para a legitimidade da acção violenta contra o povo venezuelano.

As bombas mediáticas já estão a chover.

Anónimo disse...

Queria deixar aqui uma palavra de grande apreço por aquilo que o Leitor Joaquim de Freitas escreveu e esclareceu. Excelente. Já agora, acrescentaria que a Política Externa da União Europeia é lamentavelmente inconsequente, basta ver como reagiu (reagiu?) ao caso miserável do assassínio por esquartejamento do jornalista saudita, da sua atitude perante o genocídio no Yemen (provocado por instigação saudita e cujas vítimas são-no com armas provenientes dos EUA, ALE, FRA, etc), da sua atitude perante as violações constantes e desrespeito das Decisões das N.U por parte de Israel, etc. Por fim, fica a pergunta: onde está a coragem dos EUA e da União Europeia para, por exemplo, darem um ultimato a Riad, Pequim e à Coreia do Norte para que no mesmo prazo de 8 dias convocarem eleições livres e democráticas? Raia e os norte-coreanos possuem regimes tenebrosos, mas, sobretudo o primeiro (Riad), não parece preocupar quer a U.E, quer os EUA. Quanto à China, convido à leitura de um artigo no Público de hoje, sobre as constantes violações de direitos e direitos humanos, perseguições, prisões, etc, que acontecem na China, ao mesmo tempo da situação que se vive na Venezuela e que "entristece e preocupa tanto os EUA e esta nossa inconsequente União Europeia.
Uma vergonha de procedimentos! A que Portugal se alia.
Jorge Albuquerque

Lúcio Ferro disse...

Portanto,
Estamos a caminho de uma ópera bufa. Onde a diplomacia europeia falhou redondamente, vendendo falácias aos respetivos eleitorados e tocando a rebate atrás de Trump. Mas, não há nada de novo nesta opereta, fora o descaramento com que a vendem alguns líderes pouco educados. O único problema é que é a presente abordagem pode conduzir a sangue, rios; naturalmente que, enquanto isso, os diplomatas de carreira assobiam para o lado de que sopra o vento, os profissionais esperam para ver e os mais mais sagazes observam socorrendo-se de uma sempre salutar prudência, en soit dizent.
Boa noite senhor embaixador.

Anónimo disse...

o das 28 de janeiro de 2019 às 09:20 devia saber que a sapatilha que acha horrível é o termo em português de lei, lídimo e vernáculo para aquele tipo de calçado.

Ténis é um regionalismo importado e ainda por cima possidónio - aqueles que o usam gostam muito de rir de quem usa o nacional sapatilhas chamam-lhes parolos. Além de presunçosos são incultos e têm mau ouvido.

Anónimo disse...

O texto do Ferreira Fernandes é muito bom (leio sempre os textos dele), mas o do Joaquim de Freitas também deve ser lido!

vitor disse...

E ainda falta falar sobre as eleições na Venezuela que muita gente quer ver repetidas. E através de alguém insuspeito:

https://operamundi.uol.com.br/noticia/24425/processo-eleitoral-na-venezuela-e-o-melhor-do-mundo-diz-jimmy-carter

Não estou com isto a negar a situação actual da Venezuela. Mas nenhum país resistia ao embargo que pende sobre a Venezuela. Em causa estão unicamente as maiores reservas de petróleo do Mundo. Senão também tinham que falar da miséria, por exemplo, nas Honduras. Lideradas por um fantoche como Guaido e que força todos os dias milhares de hondurenhos a deixar a sua terra. Nenhum estado, per si, tem o direito de atentar contra a soberania da Venezuela. A ONU foi constituída para resolver situações como as que se vivem hoje na América do Sul. Com o colonialismo de volta. Com novas fórmulas mas sempre com o mesmo cheiro. Quanto à posição portuguesa é a posição da UE. Que nem os povos europeus trata todos por igual.