Nestes dias de debates sobre o Brexit, a Câmara dos Comuns britânica tem estado muito em evidência.
Do lado esquerdo de quem entra, fica o partido no poder e o seu governo, do lado direito sentam-se os deputados dos partidos a que a fórmula (ainda) em vigor chama "Her Majesty's Most Loyal Opposition". Mas não todos: a Câmara dos Comuns não tem lugares suficientes para acomodar os seus 650 membros, pelo que, nas sessões mais concorridas, alguns usam os degraus das escadas e uma multidão de outros tem de ficar de pé. Alguns, por tradição respeitada, têm o seu lugar assegurado, a maioria senta-se onde pode, sempre colocando-se do seu "lado".
Duas dicas para se entender melhor a complexa coreografia verbal da câmara: quando alguém se refere a um "honorable gentleman" (com exceção do “speaker”, o presidente, não se pode referir o nome das pessoas, mas pode usar-se o nome da "constituency" eleitoral que elas representam) quer significar um membro da bancada que se lhe opõe. Pelo contrário, se o orador falar em "honorable friend" está a indicar um membro da sua própria bancada. Se acaso se ouvir a palavra "right" (como em "right honorable friend/gentleman"), isso significa que se trata de alguém que faz parte do "Privy Council" da raínha, um orgão de aconselhamento em que ingressam, de forma vitalícia, por seleção, alguns membros do parlamento mais qualificados.
Churchill, quando primeiro-ministro, usava uma fórmula irónica para descrever a câmara: à sua frente sentavam-se os "adversários", atrás de si (na bancada do seu partido) estavam os "inimigos". Theresa May deve estar a sentir isso bem, por esses dias...
Deixo-os com uma história de que fui testemunha, passada nessa sala, junto ao "dispatch box", aquele centro de mesa com caixas de madeira e livros, de onde falam o governo e o "shadow cabinet” (o ”governo sombra”), que é o "frontbench" (banco da frente) da oposição - por contraste com o "backbench", constituído por todos os deputados, de ambas as alas, que se sentam nas filas traseiras.
Em 1993, durante a sua visita de Estado ao Reino Unido, o então presidente Mário Soares fez uma visita informal à Câmara dos Comuns, numa hora em que esta não estava em sessão, passeando-se com a comitiva por toda a sala.
A certo passo, notei que o acompanhante oficial que o Palácio de Buckingham tinha designado para estar com o presidente português ao longo de toda a visita, um aristrocrata, membro da Câmara dos Lordes, demonstrava um inusitado e quase turístico interesse pelos pormenores do mobiliário e pelo conjunto de símbolos que ocupam a mesa central, em frente aos quais governo e oposição se degladiam.
Talvez porque eu notasse visivelmente essa sua atitude, a certa altura, aproximou-se de mim e disse-me: "Sabe, sinto-me um pouco emocionado!". No instante, não percebi bem a razão dessa emoção. "É que, como membro da Câmara dos Lordes, estou formalmente impedido de visitar a Câmara dos Comuns e, em toda a minha vida, esta é a primeira vez que consigo entrar aqui."
Estas também são as peculiaridades do sistema político britânico.
