terça-feira, 8 de janeiro de 2019

As gravatas de Sobel


Ontem, num site americano, li que Clifford Sobel foi nomeado como consultor de Trump para a área dos serviços secretos. Pensei para mim: o nome “rings a bell”. Fui ver ao Google e lá estava: tinha sido antigo embaixador no Brasil.

Um dia de 2008, em Brasília, o novo embaixador americano, que acabara de chegar e eu ainda não conhecia, pediu para me ver. Chamava-se Clifford Sobel. Na prática diplomática, os embaixadores que arribam aos postos fazem uma visita de cortesia a alguns dos seus colegas. Não a todos, como é óbvio, mas àqueles que podem ter maior importância para o seu país ou para o país onde estão acreditados. Portugal, no Brasil, é um desses países.

Mandei dizer que, ao invés de uma reunião no escritório, tinha muito gosto em convidá-lo para almoçar. Na volta, mandou perguntar se podia trazer a mulher, ao que naturalmente anuí. Era um homem simpático, um “businessman” feito diplomata (já o tinha sido na Holanda), com um sentido de conversa muito prático. A senhora era também muito agradável, parecendo-me quase tão profissional como o marido. (Vim depois a apurar que ela fora uma importante “fundraiser” da campanha de George W. Bush). Para a mesa, para minha grande surpresa, o embaixador levou um caderno. Mas a surpresa ia ser ainda maior: a mulher levava outro caderno. O almoço teve alguma graça. Fui sujeito a uma bateria de perguntas, com base de notas que traziam, por parte de ambos os membros do casal, essencialmente sobre a vida política brasileira: se A era mais importante do que B, quem mandava aqui ou acolá, quem seria corrupto ou honesto, a orientação política de vários importantes jornalistas, etc. 

“Disseram-me que você sabe tudo sobre a vida política deste país”, justificou ele, elogioso. Lembro-me de lhe ter dito que, como todo o diplomata num posto no exterior, eu estava de facto a chegar ao ponto em que começava a achar que já sabia bastante da realidade local - momento perigoso que passava a recomendar a minha mudança de posto, porque, quando estamos convencidos de que sabemos quase tudo, deixamos de ver o que chega de “novo”. Não é por acaso que, em regra, todos os diplomatas mudam ao final de quatro ou cinco anos. Eu próprio iria sair meses depois.

Porque pensava que a conversa com o meu novo colega americano e a sua mulher ia ser social, tinha convidado para o almoço a jornalista Maria João Avillez, que estava de passagem por Brasília, e que me recordo ficou siderada pelo verdadeiro “exame” político a que fui sujeito.

A saída, preguei a Clifford Sobel um leve “susto”: perguntei-lhe se gostava de gravatas. Tendo ele dito que sim, que gostava muito, aconselhei-o a não dizer o seu nome se entrasse numa loja brasileira para comprar gravatas. Perplexo, perguntou-me porquê. Expliquei-lhe que o mais importante rabi brasileiro também se chamava Sobel e, cerca de um ano antes, fizera capa de todos os jornais brasileiros, com fotografia, por ter sido preso por roubar cinco gravatas na Louis Vuitton... precisamente nos Estados Unidos, tendo sido obrigado a demitir-se das suas funções religiosas. 

Os embaixadores americanos saíram de minha casa algo pensativos...

1 comentário:

Luís Lavoura disse...

Esse rabi Sobel de facto até nasceu em Portugal (provavelmente filho de judeus refugiados do Holocausto), portanto até poderia ser português (e seria benvindo se o quisesse ser). A sua história está contada em

https://en.wikipedia.org/wiki/Henry_Sobel