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terça-feira, maio 28, 2024

A paz interrompida


Entrevista hoje concedida ao “Diário Insular”, de Angra do Heroísmo, cidade onde amanhã vou proferir uma conferência sobre “Portugal e a paz interrompida" .


O mundo parece desassossegado em níveis muito elevados. É o costume ou estaremos perante tempos particularmente perigosos? 

Não é o costume. No caso da invasão da Ucrânia, estamos perante uma rotura grave no sistema internacional. Um membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, órgão decisivo para a credibilidade de uma organização que se assume como a plataforma reguladora da paz internacional, abandonou o terreno do diálogo e optou pela guerra, afrontando o Direito Internacional. Não é a primeira vez que isso acontece – e nem sempre foi a Rússia a fazê-lo, relembro. Contudo, o modo muito particular como o desafio colocado por esta ação russa se projeta no equilíbrio estratégico global não tem comparação com qualquer caso anterior. Até por que, no momento atual, constatamos estar-se perante uma óbvia guerra de cariz expansionista. Basta ver o modo como a generalidade dos países europeus se sentiram face a esta ameaça para se constatar os riscos novos que esta crise trouxe ao mundo. Já o caso da Palestina é uma recorrência, embora com uma inédita brutalidade bilateral, num conflito que é tão antigo quanto antiga é a ausência de vontade política internacional para impor uma solução política sustentável na região.


A Rússia anda a invadir a Ucrânia há muitos anos, mas parece que o Ocidente só acordou em Fevereiro de 2022 e mesmo assim revelando alguma incapacidade - ou falta de vontade - para um apoio decisivo. Ainda será possível a Ucrânia acreditar no Ocidente em geral e em particular nos EUA e na NATO? 

O mundo ocidental, no termo da Guerra Fria, não terá percebido que a derrota da URSS nunca foi completamente digerida em Moscovo. A verdadeira Rússia não eram Gorbachev ou Ieltsin, a quem, do lado de cá, se achava alguma graça. Isso era assim porque essa era a Rússia que parecia estar a fazer “hara-kiri”, enterrando o passado comunista e mergulhando num liberalismo furioso, que encantou muita gente ocidental, que aliás disso bastante usufruiu. A Rússia que se propôs resgatar a humilhação sofrida depois da queda do muro de Berlim tinha outro nome: Putin. O crescente desequilíbrio da Ucrânia para o lado ocidental, com um deslizar para os braços da NATO, não era aceite por quem estava determinado em refazer, revendo-as por todos os meios possíveis, as novas fronteiras de segurança e de influência que a dura realidade dos factos, posterior à implosão da URSS, lhe havia imposto. Moscovo não quis aceitar uma regra: que perde uma guerra tem sofrer efeitos disso. E a URSS foi a grande derrotada da Guerra Fria. A Ucrânia acabou por ser a vítima colateral deste processo, porque o poder prevalecente em Kiev arriscou levar até ao fim o seu sonho de desafiar a geografia e contou que, deste lado, a iriam ajudá-la a isso. O mundo ocidental fez pouco? Fez aquilo que os seus progressivos consensos lhe permitiram fazer. É muito mais difícil reagir às coisas em democracia do que num estado autocrático, mobilizado pelo despeito e por um movimento, quase religioso, de regeneração nacional, como sucede na Rússia. No nosso mundo, a vontade política, com expressão na força que projeta, passa por um processo de convicção das opiniões públicas, que demora o seu tempo. Além do mais, temos de gerir a diversidade dos vários poderes e as suas diferenciadas sensibilidades geopolíticas. Basta olhar para o processo decisório na União Europeia para entender isto. Por isso, acho que não nos devemos auto-flagelar. 


"Espaço vital", uma designação de má memória, já foi utilizado para definir o que estará por detrás das movimentações russas. Há historiadores e analistas que já falam abertamente um clima pré-guerra generalizada, bebendo o exemplo do que se passou na Europa antes da II Guerra Mundial. Qual a sua visão? 

Não creio que a Rússia esteja interessada numa guerra global. E, do lado de cá, acho que os Estados Unidos também não desejam isso. Até porque, goste-se ou não, esta não é uma guerra vital para Washington, a menos que nesse sentido vital se incorpore o orgulho que ficaria ferido por um recuo na Ucrânia. Mas a América já passou por muitas humilhações e nem por isso deixou de aprender e ir em frente: o Vietnam, o Iraque, o Afeganistão foram guerras que correram muito mal aos EUA. E o mundo não deixou de observar isso. Para os EUA, o verdadeiro desafio – estratégico, em todos os sentidos – chama-se China. A agressividade de Putin na Ucrânia, não terá sido de todo inesperada, atendendo ao que já se tinha passado na Geórgia e no posterior “meter ao bolso” da Crimeia. Contudo, imagino que o desafio terá sido maior do que Washington esperava. E julgo que a ideia americana é a de que esta é, no fundo, uma guerra que a Europa deveria conseguir tratar. Mas reconheço que falar de “ideia americana” é um conceito um pouco vago, é esquecer que, no dia 5 de novembro, podemos ter outra América, um filme de terror de que já vimos o “trailer”.


Estarão criadas as condições para um conflito que oponha democracias a regimes totalitários, tendo como pano de fundo, por exemplo, uma disputa pela alteração e pela liderança da ordem mundial ainda vigente? 

Julgo que ninguém cairá na asneira de arriscar um conflito nuclear para tentar impor a democracia no mundo. Até porque, no Direito Internacional – e isto é uma realidade, mesmo que desagradável de ouvir - as democracias não têm um estatuto e uma dignidade institucional superior às autocracias. Basta olhar para a composição da ONU. Dividir o mundo entre “bons” e “maus” deu-nos décadas de Guerra Fria. E, no fim, isso não resultou num “mundo de bons”. E convém lembrar que, nesse tempo, os “bons” acomodaram muitas vezes o seu interesse em cumplicidade com sinistras ditaduras, com “maus” que davam jeito. O mundo ideal, com todos em paz, liberdade e pombas brancas a voarem, não existe nem existirá. A solução para uma paz possível é sempre alargar e conseguir a convivência entre regimes de sinal diferente. As Nações Unidas eram isso mesmo. O ótimo é sempre inimigo do bom. 


O conflito na Terra Santa parece eterno e reacende-se sempre com grande crueldade. O conflito em curso será "mais um" ou, pelo contrário, poderá ser enquadrado num movimento mais vasto que envolva uma disputa estratégica por parte de grandes potências globais, com apetência para tal ou meramente regionais? 

Não parece haver sinais de que estejamos perante um conflito com um forte potencial de alastramento. O mundo, aliás, parece viver confortável com o papel relevante que os EUA ali desempenham, o que muito limita esse risco. Para a América, para além de ser uma questão de política interna, Israel é um “asset” geopolítico. Trata-se de uma espécie de “enclave” ocidental que, no fim do dia, Washington utilizou, mais ou menos discretamente, para intervir, sem demasiadas “boots on the ground”, numa região que é vital, quer para a América quer para o mundo ocidental, a vários títulos - do campo energético ao logístico, passando pelo controlo do terrorismo islamista. O que se passou nos últimos meses, contudo, acarretou efeitos no relacionamento israelo-americano que pode vir a alterar alguns dos pressupostos tradicionais que ali vigoravam. 


Parece que a paz entre os homens não é possível... Podemos arrolar conflitos desde os caçadores-recolectores até ao dia de hoje. Como vê um diplomata um mundo (um ser humano...) tão violente e em permanência? 

Um diplomata é sempre um “possibilista”, isto é, é alguém que olha a realidade internacional sob uma perspetiva um tanto fatalista, tentando descortinar o que, no fim de contas, é possível fazer para tornar as coisas melhores. Os conflitos, ao que a experiência nos ensina, fazem parte eterna da vida dos homens e dos Estados, dado que os interesses raramente se acomodam em definitivo. Assim, para a minha profissão, fazer “pontes”, sugerir compromissos e tentar a todo o custo evitar ou suspender conflitos, ou mantê-los com baixa intensidade, é a regra eterna do nosso jogo. Muitas vezes somos mal compreendidos, acham-nos demasiado propensos a posições realistas. Ora nós não fomos votados por ninguém, não temos legitimidade democrática direta. Somos simplesmente uma profissão que ajuda quem tem a legitimidade que lhe foi dada pelo sufrágio a encontrar soluções para que todos possamos sobreviver, na paz que for viável.

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