Quando miúdo, lembro-me de o meu pai se irritar quando, no início dos oficiosos noticiários da Emissora Nacional, surgia a "Nota do Dia". "Lá vem o recado do Botas! O que é que ele quer hoje?", exclamava, referindo-se a Salazar.
A Nota era como que um editorial, creio que com pouco mais de um minuto, escrito por um plumitivo qualificado, lido com a voz solene e grave adequada à emissora do regime. Eram textos num português gongórico, laudatórios para o poder e implacáveis na denúncia dos inimigos da "situação" - como então se designava o ambiente político que tutelava o país. Recordo-me, em especial, das virulentas diatribes contra os "terroristas" que então ameaçavam "as nossas possessões ultramarinas".
Homem que sempre senti do "reviralho", saudável vício de toda a minha família oriunda de Viana do Castelo, o que me influenciou para a vida, as manifestações de desagrado político por parte do meu pai, funcionário público sem outros meios de fortuna para sustentar a família, ficavam-se, naturalmente, pelo ambiente doméstico e por conversas tidas num grupo de amigos mais próximos, com o qual, ao final da tarde, quando o tempo de Vila Real ajudava, dava umas voltas à Avenida Carvalho Araújo.
Era assim o país que então "vivia habitualmente", como Salazar dizia que o país gostava de viver, até ao 25 de Abril, uma das datas de maior felicidade na vida do meu pai.
Por que diabo me terei lembrado agora das "Notas do Dia" da Emissora Nacional?
(Em tempo: Já foi azar! A escrever isto, perdi o meteorito de Castro Daire!)
