Quase todas as madrugadas, pé-ante-pé, para não suscitar críticas caseiras, deslizo até à cozinha em busca de um sustento complementar, porque isto de se viver muito já dentro da noite tem, podem crer, bastante que se lhe diga. E as bolachas são a minha perdição. Descobri umas excelentes, no domingo, na mercearia do Miguel, ali em frente à embaixada de França. Há pouco mais de uma hora, encerrado o expediente familiar, fui discretamente à cozinha buscar meia dúzia dessas bolachas. Foram exatamente seis, lembro-me bem. Sentei-me no sofá a ler e a verdade é que, poucos minutos tinham passado e as seis bolachas já tinham desaparecido. Imaginei então o que teria ouvido se acaso tivesse sido apanhado, nessa pecaminosa deglutição doce, por quem me acompanha os dias, mas, às vezes, me perde por algum tempo na solidão silenciosa das noites domésticas: "Devias comer menos bolachas! Fazem-te mal". A palavra "menos", confesso, calou-me fundo. E tive um rebate de consciência. Era verdade! Estava a comer demasiadas bolachas. Seis! Era um exagero glutão. Não podia ser! De facto, tinha de começar a reduzir o número de bolachas. Levantei-me do sofá, fui de novo à cozinha e trouxe quatro bolachas. Começava bem: passava de seis a quatro bolachas. Estou aqui a escrever isto e as quatro bolachas, entretanto, também já marcharam e dou comigo a pensar: ainda volto à cozinha e trago só duas bolachas. É que assim passo a metade da última vez! Cada vez menos bolachas! Esse é o caminho! Good guy!
