Está hoje um calor de arrasar, aqui por Bruxelas. À chegada ao hotel, comentei isso com o rececionista, alentejano de Serpa, mas, curiosamente, sem o menor sotaque. Brinquei, dizendo que, nem na Amareleja devia estar hoje um calor como este...
Lembrei-me então de uma história que ouvi, por aqui, um dia, a alguém que trabalhava nas instituições da União Europeia.
Essa pessoa tinha chegado a um determinado endereço em Bruxelas, mas estava a ter dificuldade em descobrir, nas campaínhas, o andar em que ficava a casa a que ia jantar.
Na indecisão, ligou para a porteira. Esta acabou por assomar à porta. Era uma mulher nova que, rapidamente, ele percebeu ser portuguesa. O sotaque da senhora era, iniludivelmente, alentejano. Por curiosidade, o meu amigo perguntou:
- De onde é que é, no Alentejo?
- Eu não sou do Alentejo.
Um pouco surpreendido, ele voltou à carga:
- Não é do Alentejo? Então onde é que nasceu?
- Eu nasci aqui, em Bruxelas. Nunca vivi no Alentejo, mas já lá fui de férias, algumas vezes. É uma terra muito bonita. É a terra dos meus pais, que trabalham aqui na Bélgica, há mais de 30 anos.
E disse tudo aquilo com um forte e belo sotaque alentejano.
São estas as malhas que a nossa diáspora tece e que um dia “alentejano“ em Bruxelas me fez agora recordar.
