quarta-feira, 26 de junho de 2019

O calor do sotaque


Está hoje um calor de arrasar, aqui por Bruxelas. À chegada ao hotel, comentei isso com o rececionista, alentejano de Serpa, mas, curiosamente, sem o menor sotaque. Brinquei, dizendo que, nem na Amareleja devia estar hoje um calor como este...

Lembrei-me então de uma história que ouvi, por aqui, um dia, a alguém que trabalhava nas instituições da União Europeia.

Essa pessoa tinha chegado a um determinado endereço em Bruxelas, mas estava a ter dificuldade em descobrir, nas campaínhas, o andar em que ficava a casa a que ia jantar.

Na indecisão, ligou para a porteira. Esta acabou por assomar à porta. Era uma mulher nova que, rapidamente, ele percebeu ser portuguesa. O sotaque da senhora era, iniludivelmente, alentejano. Por curiosidade, o meu amigo perguntou:

- De onde é que é, no Alentejo?

- Eu não sou do Alentejo.

Um pouco surpreendido, ele voltou à carga:

- Não é do Alentejo? Então onde é que nasceu?

- Eu nasci aqui, em Bruxelas. Nunca vivi no Alentejo, mas já lá fui de férias, algumas vezes. É uma terra muito bonita. É a terra dos meus pais, que trabalham aqui na Bélgica, há mais de 30 anos.

E disse tudo aquilo com um forte e belo sotaque alentejano.

São estas as malhas que a nossa diáspora tece e que um dia “alentejano“ em Bruxelas me fez agora recordar.

9 comentários:

Luís Lavoura disse...

(1) As minhas primas suíças também têm um forte sotaque nortenho. Nasceram e viveram sempre na Suíça, mas tomaram o sotaque da avó quando estavam com ela nas férias.

(2) O tempo na Europa central está quase sempre em contraciclo com o tempo em Portugal. Geralmente, quando faz sol e calor em Portugal, faz chuva e frio na Bélgica e na Áustria, e vice-versa. É normal que, estando muito calor em Bruxelas, esteja fresco em Lisboa; e vice-versa.

Luís Lavoura disse...

Aliás, eu até diria que, provavelmente, hoje em dia os mais puros sotaques portugueses se ouvem entre os emigrantes (e, seobretudo, os seus descendentes) que não põem os pés em Portugal, pois somente eles estão imunes à influência homogeneizadora dos telejornais.

Anónimo disse...

Em Bruxelas, meados dos anos 70, seria Julho ou Agosto, a canicula era tal que os pardais procurando pequenas fontes para tomar banho, caiam "como tordos" no narmore ressequido. Em desesespero sugeri uma matine com 1 gelado. Nao me recordo que filme queria ver mas em cartaz vi as "Mil e 1 noites" de Pazolini. Ja ia pagar quando me lembrei da pergunta essencial "Ar condicionado?". "So com legendas". Feliz da vida sentei-me, o gelado ja la ia e surpresa…
As legendas eram duplas em Frances e Flamengo... Recordo que a bela atriz Ines Pellegrini, de origem eritreia, aparecia mergulhada em duplas legendas ate a cintura, com os seios a emergir de legendas em flamengo que nao consegui, nem quiz ler… Anos mais tarde num ciclo Pazolini no British Film Institute vi o filme em boas condicoes, legendado em ingles. Alguem se lembra hoje da linda Pellegrini?

Aqui o calor ainda e suportavel mas esta abafado... ameaca trovoada.

Saudades de Londres
F. Crabtree

Anónimo disse...

Caro Francisco

Aqui em Bruxelas até me parece estar um tempo muito agradável, ao contrário de Paris...

Um abraço

JPGarcia

Anónimo disse...

Quanto á influência homogeneizadora dos telejornais de que acima se fala, não é só um problema de sotaque, é asneira mesmo.Acho que os senhores jornalistas (???) deveriam ter vergonha. À Shô Dona Fátima da RTP 3 já a apanhei a dizer "castêlo",e no telejornal da SIC disseram "inquérito parlamentar "â" Caixa Geral de Depósitos"
E não é que os políticos vão pelo mesmo caminho? A ministra da justiça, a propósito da greve dos funcionários judiciais, disse alto e bom som qualquer coisa como "contrariamente "aquilo" que se pensa a justiça tem melhorado." Ora, Shô Tôra ( para não falar que melhoria , na justiça, não é só ter menos pendências) "aquilo" é um prenome demonstrativo, e "àquilo" é a contracção da preposição "a" com o prenome demonstrativo "aquilo". E não são palavras homónimas, nem homófonas, nem homógrafas - pelo menos até ao desacordo ortográfico.

Francisco Seixas da Costa disse...

Ao Anónimo das 23:52: espero que saiba que há uma localidade que se chama Castêlo da Maia...

aamgvieira disse...

A La Palissada ou lavourada, é o forte do Sr.Lavoura!

António disse...

Ao anónimo das 23:52: lembrar que a senhora ministra da justiça nasceu em Angola onde viveu ainda bons anos da fase inicial da sua vida e que, se bem reparar, por lá se pronuncia o "a" (que está contraído em àquilo" que cá se diz "à".
O que de algum modo só vem corroborar o que em comentários anteriores se disse sobre o peso que no "sotaque" têm as influências do meio ambiente em que se viveram os primeiros anos.

alvaro silva disse...

Ainda melhor são os treuze da Última Ceia! Duma locutora de televisão