quarta-feira, 26 de junho de 2019

A mais velha aliança


Há muitos anos, num debate sobre a Europa organizado em Serralves, recordo-me de ter tido uma troca de argumentos com Tristan Garel-Jones, um político britânico que havia desempenhado, no respetivo governo, o cargo de responsável pelos Assuntos Europeus, que eu então ocupava por cá. Garel-Jones era um conservador europeísta, que eu tinha conhecido razoavelmente bem em Londres, e que por lá ficou famoso por ter sido em sua casa que se realizou a primeira reunião da conspiração que acabaria por derrubar Margareth Thatcher.

Nesse painel, moderado por João Carlos Espada, eu ousara dizer, perante uma gesticulante indignação de Garel-Jones, que o bom funcionamento do eixo franco-alemão era uma condição "sine qua non" para se produzirem avanços significativos nas políticas europeias. Os factos davam-me razão, pelo que o que talvez desagradasse a Garel-Jones fosse, simultaneamente, a hipótese de o aprofundamento vir a continuar a processar-se dessa forma, contra a vontade britânica, e a circunstância de eu parecer pouco incomodado com isso.

Para quem não saiba - e isso pode ser interessante no contexto pós-Brexit -, muita da tradicional proximidade entre Lisboa e Londres esbateu-se fortemente após a nossa entrada nas então chamadas Comunidades Europeias, em 1986. Enquanto o Reino Unido continuava a ser um parceiro relutante do processo europeu, Portugal tentava dar um salto "centrípeto", colocando-se no eixo da União, com a deliberada intenção de evitar cair num novo ciclo de perifericidade na sua história contemporânea. Salvo o interesse em manter viva na Europa a relação transatlântica (o que, à época, partilhávamos com os Países Baixos), quase tudo nos começava a afastar dos britânicos. Ler isto pode não ser confortável para algumas pessoas, mas a verdade nem sempre nos pode agradar.

Mas será que a "mais velha aliança", no contexto da futura singularidade britânica perante a Europa dos 27, não tem condições para poder ter um novo fôlego? Não quero desiludir ninguém, mas direi que, naquilo que verdadeiramente nos importa no quadro externo, estamos estritamente ligados ao quadro europeu, que tanto nos condiciona como nos protege e amplifica a nossa capacidade de defesa de interesses. E que tudo o resto, podendo ser interessante de explorar no terreno bilateral, acabará por ter uma dimensão menor e residual. A menos que a União Europeia desapareça, bem entendido. Perguntam-me se ainda acredito na "mais velha aliança"? Acredito, tanto como os ingleses...

(Artigo hoje publicado no "Jornal de Notícias")

10 comentários:

NS disse...

Dir-se-ia que, apropriadamente, "there is more here than what meets the eye"....

dor em baixa disse...

Entraram relutantemente na Europa e estão a demorar imenso tempo a sair, o que é uma pena.
Portugal era uma peça que a Inglaterra utilizava para se imiscuir na Europa e a "Velha Aliança" um instrumento para tal. Com a integração europeia perdeu valorelat, sem ela ganhará algum.

António disse...

Esperemos que os britânicos consigam arrumar a casa. Não recordo tamanha confusão numa das democracias modernas mais sólidas e até exemplares. Três anos depois do referendo ainda não sabem, aparentemente, o que querem - ou sou que ainda não percebi.

Portugalredecouvertes disse...

Acho que os nossos amigos ingleses poderão continuar a velha aliança connosco,
é de borla, não têm nada a pagar
(pelo menos que eu saiba!) eh eh eh

Joaquim de Freitas disse...

Os ingleses nunca foram « fair » nos negócios com os portugueses. Quem tinha visto e sentido bem a exploração inglesa da fraqueza portuguesa, foi o Marquês de Pombal, Enviado Extraordinário de Portugal e do Rei D. João V à Corte de Jorge II.

Particularmente depois da criação da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, que os ingleses combateram. Claro, eles que controlavam tudo, a produção, e a comercialização e mesmo o transporte só em barcos ingleses, não gostaram da mudança !

Sempre oportunos, sabendo que Portugal após a recuperação da independência em 1640 necessitava em absoluto de apoios externos, para que o Duque de Bragança fosse reconhecido como Rei de Portugal, obtiveram bons benefícios…em troca do apoio!

Amplas liberdades comerciais e religiosas obtidas em 1642 para os mercadores ingleses e a abertura dos portos portugueses da Europa, da África e da Ásia à marinha mercante britânica.

Ainda bem que Portugal conservou o monopólio da exportação para o Brasil de algumas mercadorias, vinho, farinhas, azeite e bacalhau e a importação de pau-brasil. Medida contra a qual ainda protestaram , como se fosse tudo deles.

Quando vimos como Teresa May negociou lamentavelmente o Brexit com a EU, digo que os ingleses perderam as qualidades diplomáticas que demonstraram, quando arrancaram ao rei de Portugal, Bombaim e Tanger, em 1661, além de muitas coroas portuguesas para casar Catarina de Bragança com Carlos II Stuart .

Claro que como republicano, sempre detestei a ligeireza do rei de Portugal quando fez um “cadeau” real ao dar Bombaim e Tanger, a um estrangeiro, sem pedir a autorização dos Portugueses que tinham morrido para os conquistar.

Como não perdoei o “Mapa Cor de Rosa” e a capitulação ao ultimato que levou o trabalho de Serpa Pinto.

Como não perdoei o enforcamento no Forte de São Julião da Barra, do General Gomes Freire de Andrade, um Herói Português, pelo General Beresford.

Ah por isso mesmo sempre admirei o Marquês de Pombal. Que os conhecia bem. Porque Sebastião José, ainda ministro de D. João V na Corte de Inglaterra escreveu textos fortes em que denunciava a cobiça da nação inglesa e a desigualdade flagrante e ofensiva com que o comércio e vassalos portugueses eram tratados na Inglaterra chegando a equipará-los a vampiros na medida em que sugavam o sangue de Portugal, significado na riqueza comercial do Reino e do Brasil.

“Alors” os ingleses fora da EU? Costuma dizer-se em Portugal que de Espanha não vem bom tempo nem bom casamento. Eu acho que é antes do RU….

Anónimo disse...

Este Sr. DE Freitas é interessante na sua sabedoria mas...

A importância do casamento de Carlos II com Catarina de Bragança deu a Portugal a possibilidade de ter o apoio diplomático dos Enviados ingleses da época aos diplomatas portugueses, nos países da Europa que não tinham reconhecido o Duque de Bragança como rei de Portugal. Esse apoio era dado até no aspecto de segurança física do enviado diplomático, dizendo que o Duque de Bragança podia não ser rei mas era cunhado de Carlos II. Os tempos para os diplomatas não eram excluídos de tentativa de os matarem.
Quanto ao preço que pagámos com esse casamento no que respeita a Bombaim e Tânger tem de se ter em conta que as despesas com essas duas praças eram enormes para a época e não davam qualquer retorno. De tal forma que os ingleses não conseguiram manter Tânger muito tempo. Com Bombaim foi diferente pois até a entrega, de facto, foi feita muito mais tarde, pois as autoridades portuguesas locais recusaram-se de inicio a fazê-lo.
Enfim como se diz ainda: Foram-se alguns anéis mas mantiveram-se os dedos.

Mas é preciso ter sempre em conta que a grande ajuda à independência de Portugal foi dada por França para abrir uma terceira frente de guerra, com os Espanhóis, na Guerra dos Trinta Anos.

E... sobre o Marquês de Pombal.....sabemos bem o gosto dos republicanos puros e duros por essa figura até pela estátua que lhe construíram em Lisboa. Mas muito do que falam dele são mitos. Enfim.... propaganda.....

Joaquim de Freitas disse...

Anónimo de 27 de Junho de 2019 às 15:14:


Aparentemente, o Sr. Anónimo tem uma sabedoria que ultrapassa a minha! O que é fàcil...

Até talvez o S.r possa ter razão ! Também não escrevi o contrário: “Sempre oportunos, sabendo que Portugal após a recuperação da independência em 1640 necessitava em absoluto de apoios externos, para que o Duque de Bragança fosse reconhecido como Rei de Portugal, obtiveram bons benefícios…em troca do apoio “

Quanto ao Marquês, a Igreja e os Monárquicos nunca o apreciaram ao seu justo valor. Estas duas instituições, detestavam a radicalidade, excepto quando se tratava de impor uma religião, através da Inquisição, e do conservadorismo que “fabricava” bons sujeitos mas apagados cidadãos.

Anónimo disse...

Ao Sr. Freitas.

Pois os republicanos livre pensadores portugueses sempre se valeram da ideia que o Marquês tinha aderido às Lojas.
As lojas não eram naquele tempo aquilo que são hoje.
O Marquês não se sabe bem se foi iniciado, mas se o foi pode ter sido em Inglaterra ou em Viena. O anticlericalismo do mesmo Marquês foi só e apenas uma necessidade politica para se livrar dos Jesuítas que de facto ensinavam matérias pouco interessantes para a época.
E.... morreu como um verdadeiro Católico Apostólico e Romano como consta da carta para os seus familiares aquando da sua morte.

Anónimo disse...

Sr. Freitas recomendo-lhe a leitura deste artigo:
https://www.agoravox.fr/tribune-libre/article/la-fin-de-la-fin-de-l-histoire-216221

Anónimo disse...

aquela frase assassina no fim...