quarta-feira, 12 de junho de 2019

Os marchistas


É noite de marchas de Santo António. Recebi um simpático convite para estar nas bancadas da Avenida da Liberdade, para ver os bairros desfilar. Mas não vou. Desde que regressei de vez a Portugal, a véspera do dia de Santo António tem, para mim, uma receita ritual: sardinhas e sangria, noitada pelas ruas, às vezes pelo Castelo e Alfama, outras pela Bica. Hoje, será na Madragoa, perto de casa, com passeio pelas Madres e pela Esperança, seguramente com uma saltada para um último copo ali em Santos.

No tempo da “outra senhora”, a rivalidade entre os bairros e as suas marchas foi sempre muito forte. A mobilização era bastante mais popular e genuína, não havendo dinheiro para a riqueza dos trajes e para as coreografias de hoje. Não raramente, os conflitos surgiam. por invejas e provocações, com pancada à mistura.

Nos anos 70, as marchas populares chegaram a estar proibidas, por algum tempo. Recordo-me bem de um comunicado da Câmara de Lisboa em que, cripticamente, se falava de “infiltrações políticas”, que estariam a potenciar os dissídios. Nunca vi isto devidamente esclarecido, mas fixei, nessa altura, o modo subtil como o “Diário de Lisboa” tratou o assunto, falando dos “conflitos no seio dos marchistas”, num artigo delicioso, com alusões em que, se substituíssemos “marchistas” por “marxistas”, resultava, para iniciados, um texto que aludia às polémicas da extrema-esquerda da época. “Vantagens” da ditadura...

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