quarta-feira, 19 de junho de 2019

Está alguém a ouvir?


Se se olhar para as principais prioridades da política externa portuguesa, verificaremos que nelas há um único tema que transitou do tempo da ditadura para a democracia: o empenhamento nas relações transatlânticas, nomeadamente na aliança de defesa que tem os EUA e a NATO no seu centro. Isso revela bem a importância que os Estados Unidos assumem, desde há muito, no quadro da nossa diplomacia.

Portugal tinha sido cooptado pela Guerra Fria, em 1949, para ser parte do novo "mundo livre". Mas Salazar viria a encontrar, com o tema colonial, razões para não confiar nos Estados Unidos, tal como Marcelo Caetano iria perceber, durante a guerra do Yom Kippur, o preço de tentar contrariar Washington.

Com o 25 de abril, alguma tentação neutralista perpassou brevemente pelas Necessidades, mas o realismo cedo refez o seu caminho. Mesmo se a Europa tinha passado a ser, a partir de certa altura, o terreno onde prosperavam as afinidades eletivas do então "arco da governação", o vínculo transatlântico manteve-se sempre, até na atitude portuguesa no quadro continental integrado, como o "politicamente correto" de que nenhum governo ousou afastar-se, com o mutante fator Lajes sempre de permeio.

Em 2003, numa sujeição caricatural, Portugal "viu" mesmo as armas de destruição maciça que o Iraque afinal não tinha, com o primeiro-ministro de então a ter o desplante de afirmar que, entre os EUA e Saddam Hussein, não hesitava na escolha, escolhendo a mentira. Mais tarde, o governo de coligação com a troika deixar-se-ia pressionar por Washington, isolando-se na Europa, na questão da entrada da Palestina para a UNESCO, além de outros episódios pouco dignificantes.

A diplomacia portuguesa, por muito tempo, como que recriou, em sentido acrítico, o famoso motto sobre a General Motors, do secretário de Defesa Charles Wilson, aceitando que "o que é bom para os EUA é bom para Portugal". Muitas vezes, diga-se em abono da verdade, foi assim, mas, viciado nesse tropismo seguidista, Lisboa foi comodista na avaliação diacrónica dos impactes geopolíticos, parecendo não ter visto emergir evidências como o declínio inevitável de uma presença relevante nas Lajes ou a crescente preferência da NATO pela Espanha.

E agora? Perante a expressão arrogante do interesse nacional americano sobre todos os outros, mesmo o dos seus fiéis aliados europeus, onde ficamos? Continuamos a proclamar, claro, o nosso interesse na vertente transatlântica. Mas será que, do lado de lá, está alguém a ouvir?

(Artigo hoje publicado no “Jornal de Notícias”)

5 comentários:

Joaquim de Freitas disse...

Excelente questão, Senhor Embaixador ! A interferência da CIA numa nação estrangeira funciona como "uma grande maquinaria diplomática, económica e propaganda" No momento oportuno, em caso de necessidade, a diplomacia portuguesa alinhar-se-à como de costume.

Vous vous souvenez certamente que no final da década de 1960, foi relatado que os Estados Unidos haviam organizado uma grande rede global de espionagem chamada "Echelon" para interceptar e analisar as comunicações electrónicas. Grã-Bretanha, Austrália, Canadá e Nova Zelândia também participam do Echelon, embora seja os Estados Unidos que decide o que compartilha com seus parceiros. É uma rede de espionagem super sofisticada. Embora a União Europeia tenha investigado e protestado, nada foi feito a este respeito. Muito pelo contrário.

Com as revelações de Snowden, talvez a coisa mais perturbadora sobre as nações aliadas a Washington, especialmente os europeus, é perceber que esta espionagem era ilimitada. E essa espionagem económica foi uma das prioridades.

A CIA e as outras 15 agências de segurança dos EUA não são apenas uma ameaça à soberania de outras nações, mas também são um perigo para a paz mundial e para o futuro do planeta. São porque são no interesse de um império que pretenda apreender todos os recursos estratégicos do mundo. Eles fazem parte de um exército conquistador que chantageia, escraviza, mata e aterroriza.

Todos os presidentes desta nação desde Eisenhower foram verdadeiros criminosos e terroristas, que têm a peculiaridade de ir à missa antes de ordenar às tropas para assassinar e saquear povos inocentes. Sob o pretexto de salvar a democracia, a sociedade ocidental e o cristianismo.

É por isso que, para mim, a espionagem e as acções militares não são os resultados mais espectaculares da CIA e outras agências secretas de repressão: é antes a sua capacidade de manipular a realidade. Para nos manipular, e nos fazer crer que somos nós que estamos errados e quem são os maus.

Alors, a diplomacia portuguesa, neste contexto, não pesa grande coisa…

Anónimo disse...

Trump não se pode eternizar no cargo. O mais diplomático será ir esperando. Até que passe.

Anónimo disse...

Que raio de "tropismo" é esse, senhor embaixador: onde o senhor escreve "interesse nacional americano" não DEVERIA escrever "interesse dos Estados Unidos" ? Quer tomar a parte pelo todo ?

Anónimo disse...


Estimado embaixador, seria possível explicar : "como Marcelo Caetano iria perceber, durante a guerra do Yom Kippur, o preço de tentar contrariar Washington". Muito grato

dor em baixa disse...

O regime de Salazar integrou a constituição do novo mundo livre - muito bom.
Além dos casos da entrada da Palestina para a UNESCO e do apoio ativo à invasão e destruição do Iraque, não me parece despiciendo o facto de Portugal ter declarado que não ia apoiar o reconhecimento da independência do Kosovo e depois ser forçado a fazê-lo.