segunda-feira, 10 de junho de 2019

O fado colonial



Anos 80, Luanda. António Pinto da França, o magnífico embaixador de Portugal em Angola com quem eu trabalhava, nesse tempo muito difícil das relações entre os dois países, procurou usar a comemoração do Dia de Portugal para acentuar uma forte nota portuguesa na capital angolana. Pelo que decidiu fazer uma receção que tinha o fado no seu centro.

Na embaixada, o assunto foi discutido, com alguns de nós a achar que a Angola oficial podia ver a iniciativa como saudosista e passadista, como um sublinhar de um Portugal de outros tempos, que por ali então se condenava, nos ataques quase diários na imprensa de que éramos objeto. 

António Pinto da França via, em geral, as coisas com muito mais presciência que nós e, diga-se desde já, a receção acabou, contra as nossas reticências, por ser um grande sucesso. 

Nas vésperas, contudo, havia ainda algum nervosismo sobre a eficácia do gesto. E eu, divertido, contribuí para aumentar a confusão. 

A fadista vinda de Lisboa, convidada pela embaixada, chamava-se Luz Sá da Bandeira. E para o que me deu então? Em conversas à margem de um jantar oferecido à artista, na véspera do 10 de junho, deixei discretamente “cair” junto de algumas pessoas que a embaixada soubera que, às autoridades angolanas, estava a causar alguns engulhos o facto do nome da fadista ser, precisamente, o de uma das principais cidades do país, cujo nome tinha sido mudado pela independência.

Para varrer a memória colonial, Angola tinha procedido a uma forte alteração toponímica, que afetara as ruas de Luanda (as quais, à época, se assemelhavam ao glossário de uma História do Movimento Operário...) e da grande maioria das cidades: Nova Lisboa passara a Huambo, Carmona a Uíge, Serpa Pinto a Menongue, Henrique de Carvalho a Saurimo, etc... E a cidade de Sá da Bandeira chamava-se agora Lubango. 

Nas conversas, perguntei a algumas pessoas, como quem não quer a coisa, se tinham ouvido alguma reação ao assunto, por parte de alguém. Ninguém tinha ouvido nada, mas, naquele microcosmos que era o Portugal expatriado que vivia à volta da embaixada, a minha referência colocou logo o assunto a correr.

A certo momento, António Pinto da França aproximou-se de mim e perguntou: “Ouviu alguma coisa sobre uma reação dos angolanos, por causa do nome da fadista? É que correm por aí uns zunzuns”. Fiz uma cara séria e disse: “Sabe, eu não lhe quis dizer nada, mas também já me chegou isso. Mas acho que havia uma solução fácil”. O embaixador olhou para mim com ar perplexo e expectante. “A melhor maneira de dar a volta ao problema era, amanhã, na festa, ao apresentar a senhora, começar por dizer “Temos aqui connosco hoje Luz Sá da Bandeira ou, se quiserem, Luz Lubango...””

António Pinto da França olhou para mim como se eu tivesse ensandecido. Começou a reação com um “Ó Francisco, você não pode estar a falar a sério...” E foi o meu sorriso, subitamente aberto numa gargalhada, que, num segundo, o convenceu que estava perante uma patranha inventada pelo seu jovem colega. Caramba! Ele que era um mestre em “partidas”, em invenção de cenas falsas em que alguns de nós frequentemente “caíamos”, recebia finalmente uma de volta...


Neste 10 de junho, sinto muitas saudades do meu amigo António Pinto da França.

2 comentários:

Joaquim de Freitas disse...

As mais notáveis e corajosas alterações toponímicas que sempre admirei foi quando os Russos “apagaram” Leninegrado e Estalinegrado para São Petersburgo e Volgograd

Anónimo disse...

O António era um Senhor com S grande, caro Francisco. Trabalhei para ele se Paris a Borubudur.

Um abraço

JPGarcia