segunda-feira, 10 de junho de 2019

O ar do tempo

Há um país que se sente mal neste país. Há um país que acha que o país o não segue ou, quando acaso episodicamente o faz, nunca consegue pôr o país a seu jeito. Há um país com uma infindável raiva, que acha que o país o não compreende, que vive num mal-estar endémico, em “blues” eternos. Há um país que acha que tem uma ideia salvífica para o país, a mezinha mágica para pôr isto direito, mas que o país, pateta, não consegue nunca entender. Há um país sobranceiro, arrogante, feito de gente que, afinal, apenas gostava que o país fosse aquilo que eles acham que o país devia ser. E que, talvez não por acaso, não é.

Esse país, que agora por aí anda com a bílis à solta, não gosta do país que tem, não gosta afinal do país que lhe deu a liberdade de não gostar do país. É o país tremendista do “nós” e do “eles”, em que estes últimos são o sujeito de todos os males, que só não são curados porque a “nós” não é dada a possibilidade de os corrigir. Esse país que agora anda muito vocal, mas que nunca fez nada pelo país, é filho incógnito daqueles a quem, em todas as épocas da nossa História, sempre desagradou o país que tinham. Para esses melancólicos iluminados pelas luzes da outra verdade, isto sempre foi uma “choldra”, uma “seca” feita país, a que urge abrir as portas e as janelas, deixando entrar o ar do tempo. O deles.

No passado, esse país indisposto com o país, era então o estrangeirado. Lá fora estavam todas as soluções, só era necessário importá-las para que a modernidade das ideias, afinal tão óbvia, pudesse aqui frutificar e dar-lhes, finalmente, a glória dos profetas. Com Abril, desembarcaram em Santa Apolónia, com livros e ambições de reconhecimento. O país, que tem da generosidade o sentido da medida, deu-lhes o que era devido. Não mais. 

Mas a semente, qual OGM, mudou de qualidade, transmutou-se. O país do despeito transitou entretanto de geração, ilustrou-se nas Américas, leu Popper e, enterrando o latino, anglo-saxonizou o seu projeto. Andou os últimos anos a fazer livrinhos, acolhido em universidades de receita segura, colunizando-se pelas plataformas da moda. Nos partidos, onde se muda a política com a legitimidade das vontades expressas, entram e saem, nervosos, à medida das ambições, falhos de votos e reconhecimento. Cavalgando as inseguranças de muitos, as dúvidas de uns tantos, os temores de alguns, ei-los agora a adubar de populismo os seus discursos, tentando que os dias do país se confundam com os da sua raça.

Quem os topava bem era o O’Neill, que os citava, definitivos e, no entanto, tão tristemente provisórios: “Não, não é para mim este país!”. E era também um poeta, imaginem!, de Portalegre, Régio de seu nome mas republicano de gema, quem lhes respondia, quem lhes responde, em nome do país: “Não vou por aí!”

17 comentários:

António disse...

Ouviu o discurso e não gostou.

Rita R. Carreira disse...

Realmente, tem muita razão. D. Afonso Henriques fez mal em fundar Portugal: não devia ter ido por aí. O status quo é sempre preferível.

Pedro Sousa Ribeiro disse...

José Régio ( José Maria dos Reis Pereira )não era de Portalegre mas sim natural de Vila do Conde. Residiu muitos anos em Portalegre onde foi professor do Liceu local.

Joaquim de Freitas disse...

Não há nada de mais normal quando se analisa uma sociedade, um pais, qualquer que ele seja, que de obter uma ideia que corresponde sempre ao que desejamos que ele seja. Mas podemos errar na medida em que muitos aspectos nos escapam na nossa análise, porque não vivemos com a mesma intensidade os verdadeiros problemas que afectam as pessoas.

Penso sempre naquele livro de Stefan Zweig, “Brasil, país do futuro” escrito ou acabado aquando duma viagem no pais, nos anos quarenta, após visitas de algumas cidades.

O livro teve sucesso mas a critica foi desfavorável, porque Zweig tinha esquecido que o Brasil vivia numa ditadura e a imprensa estava sob censura. Os intelectuais acharam que, se ele louvava o Brasil, estaria simultaneamente louvando o governo brasileiro.

Portugal não vive numa ditadura nem existe censura, mas depende tão massivamente das decisões de outros , uma espécie de ditadura, que não se pode afirmar que Portugal é um pais de futuro.

Creio que muitos estrangeiros que visitam Portugal não vêm nada dos problemas essenciais que afectam os Portugueses. Mas muitos Portugueses sentem na pele as dificuldades de todos os dias.

Mas é sobretudo quando olham para o horizonte que a apreensão pode ganha-los, porque se a Europa e o Mundo não vão bem, por muitas razoes , como pode Portugal não sentir essa pressão?

Não é porque há um surto turístico, facilmente explicável, que se pode respirar profundamente. O pior está para vir, quando as fraquezas congénitas da economia portuguesa abrirem rombos no equilíbrio precário da vida de todos os dias dos Portugueses.

O ar do tempo nao é nada saudàvel, Senhor Embaixador.

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Pedro Sousa Ribeiro: como imaginará, sei onde nasceu Régio. Mas, nem por isso, deixo de o considerar de Portalegre

NG disse...

Excelente texto! Bem melhor do que o do profissional da insinuação caluniosa em Portalegre.

Anónimo disse...


o país não sei, mas também sabemos que podemos fazer alguma coisa no nosso canto,
e que as boas vontades juntas chegam a algum lado !

deixo aqui esta noticia, que é desumana e "tragédia animal" !
https://www.facebook.com/diariodoalentejo/posts/2016927211732748/

https://www.oliveoiltimes.com/pt/olive-oil-basics/millions-of-birds-killed-by-nighttime-harvesting-in-mediterranean/68111
https://www.oliveoiltimes.com/fr/olive-oil-basics/millions-of-birds-killed-by-nighttime-harvesting-in-mediterranean/68111

obrigado Sr. Embaixador

Anónimo disse...

O sr. embaixador não consegue fazer comentários imparciais "a quente". Não foi muito feliz no episódio do Sérgio Conceição e agora com o discurso do 10 de junho nitidamente exagera.Quem acha que o país está bem, é porque não vive nele, tem a visão de quem circula na bolha da "corte lisboeta". Experimente viver um mês com o salário mínimo, e depois conversamos.

Anónimo disse...

O pessoal de esquerda, na sua auto avaliada sabedoria, não suporta que um tipo qualquer da direita diga uma série de coisas que os atinge em cheio, ou não suporta mesmo que tenha direito a abrir a boca!
João Vieira

Anónimo disse...

É muito triste quando as pessoas não são capazes de se pôr no lugar das outras, o que parece ser o seu caso.
O discurso do João Miguel Tavares foi realista e é difícil não rever os problemas do País nas suas palavras.
Parabéns ao Presidente da República pela escolha que fez. Pela primeira vez ouvi um discurso completamente apartidário e sem os chavões políticos habituais que só funcionam em círculo fechado dirigidos a este ou aquele a quem se quer agradar.

António disse...

Talvez o caro embaixador já não seja “um de nós”.

Anónimo disse...

Senhor Embaixador, acha mesmo que há oportunidades iguais para todos neste País?

Joaquim de Freitas disse...

Sei que o Senhor Embaixador não aprecia que os seus leitores tragam para este excelente blogue, textos de algures.

Se puder aceitar, por uma vez, que o faça, para a boa causa, permita que transcreva as palavras do meu presidente da Republica, Emmanuel Macron, hoje em Genebra, na OIT, que o Senhor certamente conhece A Organização Internacional do Trabalho:

«La conscience a su se réveiller quand le chaos était là», a noté Emmanuel Macron, annonçant ensuite qu’à nouveau, le «chaos est là» aujourd’hui, avec «une crise profonde, économique, sociale, environnementale, politique et donc civilisationnelle» pour l’ensemble des démocraties et des pays d’économie sociale de marché. En cause? Le «dumping» sous toutes ses formes, et le «travestissement de notre économie mondiale» avec l’apparition de rentes illégitimes. «Quelque chose ne fonctionne plus dans l’organisation de ce capitalisme», a insisté le président, voyant dans les déséquilibres nouveaux le terreau des extrêmes et de la démagogie. Un constat plutôt commun, que venait toutefois assombrir les mots puissants de l’orateur, qui a indiqué que le monde actuel est «à l’orée d’un temps de guerre», et se disait «persuadé de la possibilité de l’effondrement des démocraties».

O ar do tempo é realmente pouco saudável, como escrevi antes. Muito obrigado.

Frederico Fonseca Santos disse...

É evidente que não vivemos num país perfeito, vivemos num país que tem muitos problemas para resolver - sempre teve - e por isso é fácil lamuriá-los.
Sugiro que ponham em prática a frase de J.F. Kennedy : Em vez de pensarem no que a América pode fazer por vocês, pensem no que podem fazer pela América ! Mudando América por Portugal, claro
F. Fonseca Santos

F. Fonseca Santos disse...

É fácil encontrar circunstâncias, instituições , etc. que não estão bem no nosso país. O que acontece com os cidadãos doutro país em relação ao seu. A perfeição não está ao alcance do Homem, mas a melhoria constante está. Aos que passam a vida com lamúrias, lembro as palavras de J. F. Kennedy : em vez de pensarem no que a América pode fazer por vocês, pensem no poderão fazer pela América.
Mudando América para Portugal, claro

Joaquim de Freitas disse...

Senhor F.Fonseca Santos : Não sei o que aqueles que vivem no grupo dos 23,3% indicados abaixo, isto é um quarto dos Portugueses, podem fazer por Portugal, e fazer o que Kennedy pediu aos seus americanos.
Estou mesmo convencido que não são os que se lamentam mais…

Que aqueles, já, que podem e devem fazer mais o façam, ou pelo menos que não roubem o Estado, e a situação estaria talvez diferente.

“Na hora de comparar os países em matéria de pobreza e exclusão social, Portugal surge em 11.º lugar numa lista de 26 Estados para os quais estão disponíveis dados relativos a 2017. Ou seja, cerca de um quarto da população portuguesa (23,3%) está “em risco de pobreza ou exclusão”. Na União Europeia (UE) a percentagem média de pessoas nessa situação é de 22,5%. Bulgária, Grécia e Roménia têm taxas superiores a 34%. São dados do Eurostat, o serviço de estatística da UE, que, nesta terça-feira, véspera do Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, divulgou os números-chave sobre o tema.

aamgvieira disse...

O modelo económico e social neo-feudal do Avental francês (Estado, Estado, Estado) deu agora as mãos ao seguidismo costista madurista.... Metam-no mais 4 anos no poder, metam..