sábado, 15 de junho de 2019

O Arnaldinho


Tínhamos convidado aquele jovem casal brasileiro para jantar, em nossa casa, em Oslo, nesse início dos anos 80. Ele era um diplomata que, numa situação transitória, viera fazer uma "encarregatura de negócios" - isto é, substituir o embaixador do Brasil - à Noruega, por alguns meses. A mulher e filho haviam-se-lhe juntado, por algumas semanas. Perguntaram se podiam trazer a criança, porque não tinham com quem a deixar. Dissémos que sim, naturalmente.

Eram pessoas muito simpáticas mas, desde o primeiro segundo, percebeu-se que a criança, o Arnaldinho, aí com uns três anos, era uma figura incontrolada na família. Logo após a chegada, desapareceu sozinho pela casa, sob o olhar benevolente dos pais, entrando e saindo, numa infernal correria, de todas as dependências. 

Na sala, preocupado com os efeitos dessa peregrinação turbulenta por um apartamento não preparado para agitação infantil, ousei perguntar se não seria melhor mantermos o Arnaldinho por ali. Temi - e, mais tarde vim a verificar, com razão - por um puzzle de milhares de peças com que entretinha parte das longas noites nórdicas, no meu escritório. A custo, percebendo a minha preocupação, o pai lá se decidiu a ir procurar o Arnaldinho. Que chegou, puxado pelo braço, para se sentar junto de nós.

Alguns bibelots que estavam sobre a mesa da sala concitaram, segundos depois, a atenção do Arnaldinho, que se pôs a brincar com umas delicadas peças de cristal. Os pais, esses, sorridentes, mantinham uma serenidade total. A certa altura, não me contive:

- Arnaldinho, não mexa nessas peças, por favor.

A mãe do Arnaldinho lançou-me um olhar onde se lia alguma leve reprovação pelo meu comentário repressivo, aparentemente por estar a limitar a liberdade da criança, que, por acaso, nada tinha partido. Ainda. O pai foi um pouco mais sensível e repercutiu, docemente, o meu alerta:

- Você não toca nessas coisas, querido.

Encolhido num canto do sofá, os olhos do Arnaldinho estudavam opções ofensivas. E logo brilharam ao ver uma taça com cerca de uma dúzia de ovos pintados à mão, uma compra feita, meses antes, em Praga. Eu, nervoso e distraído da conversa, seguia o Arnaldinho pelo canto do olho. Vi-o descer lentamente do sofá e acercar-se a mesa. A sua mão sapuda avançou então, rápida, para um desses ovos, agarrou-o, olhou-o por um instante e esmagou-o sobre o tampo da mesa, espalhando a casca pintada.

Fiquei furibundo por dentro. Não eram peças muito valiosas, mas eram objetos de artesanato que, meses antes, havíamos trazido bem acondicionados, de carro, durante milhares de quilómetros. Vê-las desaparecer por uma destruição gratuita excedia a minha paciência. Mas contive-me, na esperança de uma atitude por parte dos progenitores do pequeno vândalo.

O pai do Arnaldinho teve então a reação máxima que, aparentemente, o estatuto da sua autoridade sobre a criança permitia:

- Arnaldinho, não faz isso! Então partiu o ovo!? Não vai partir outro, não?

O Arnaldinho tomou o remoque como um incentivo e a pergunta como um desafio. E, claro, avançou para outro ovo, que logo teve idêntico destino.

A mãe, "cool", sorriu. O pai "reagiu":

- Arnaldinho! Arnaldinho! Não parte mais nenhum ovo, está bem? Senão papai zanga-se!

“Papai” não ia ter ocasião de zangar-se. Porque, se ia partir, não partiu. Voei para o Arnaldinho, icei-o pelos braços e arquivei-o no canto oposto do sofá. Surpreendido pelo gesto, não tugiu nem mugiu. No silêncio pesado que, por segundos, se fez na sala, coloquei a taça de ovos e, um a um, todos os bibelots que pressenti pudessem ser alvo da sua ação destruidora na prateleira mais alta de um móvel que estava em frente. As mesas ficaram tristemente desertas de decoração. 

O Arnaldinho ficou especado, sem "targets". E os nossos convidados, surpreendidos pelo meu afirmativo "preemptive strike", ficaram, em absoluto, sem graça.

- Então?! E o que bebem?, perguntei, aliviado, mas já com pena dos copos. 

E, já nem sei como, lá se passou mais um jantar... diplomático. Por onde andará o Arnaldinho, nos seus quarenta e tal anos de hoje?

9 comentários:

Dalma disse...

O Sr. Embaixador reagiu como um diplomata, eu que fui professora seria muito mais veemente logo ao primeiro indício!
(Uma vez um dos meus filhos em pré-adolescência disse-me: “é uma horrível ter uma mãe professora”!)

António disse...

Há dias encontrei alguém dentro desse espectro de idade, no meio da via, nas calmas, telemóvel colado à orelha, completamente impermeável ao som da pequena fila de carros que já levava atrás - ou já agora, aos amplos passeios, para peões mais picuinhas, que ladeavam a rua. Calhou-me a mim buzinar e propor-lhe que se deslocasse para um dos citados passeios. Ficou ofendida, a criatura. Seria o Arnaldinho?

Augie Cardoso, Plymouth, Conn. disse...

O Arlaldinho esta na cadeia ou no cemiterio ha muinto tempo.

AV disse...

O Arnaldinho é gestor numa agência de rating. Tem problemas em controlar o humor e ingere substâncias várias para contrabalançar. O Arnaldinho sente-se bem sucedido e isso fá-lo feliz.

Anónimo disse...

Mas se Arnaldinho tivesse um desses irritantes telemóveis , que à época felizmente não existiam , não se teria precipitado para os ovos e partido , estaria semi anestesiado , como hoje estão todas as crianças , mas o bom da história é que os ovos ainda existiam ... Ai Arnaldlnho , você tem filhos ? Meta-lhes um telemóvel na mão e nem olhe para ele ...

Anónimo disse...

O mais provável e ser administrador de qualquer coisa...

Anónimo disse...

Também não é preciso matar o Arnaldinho nem mandá-lo para a prisão por ter partido uns ovos ...
Quem sabe agora , na casa dos 40 , não será um ilustre diplomata/Balsonáro ? Na volta ainda é colocado em Portugal e aí é que a porca vai torcer o rabo ...

Anónimo disse...


Pode dizer-se que a tal criancinha era levada da breca (lol), mas sem culpa. Culpa, essa sim, dos pais que não queriam (ou não sabiam) ensinar-lhe regras da boa educação e fazê-lo compreender que há limites .... bem, se ele assim cresceu e se não aprendeu por conta própria a ser diferente do que era, deve ser um sujeito insuportável no trato, daqueles que dizem, "olhe lá, sabe com quem está a falar?" Em suma, um infeliz, com milhões de reis na barriga, o nariz empinado e a arrogância estampada na cara ...

Que pais esses!!! Teriam tido mais filhos?? Provavelmente com mentes mais ocas do que os lindos ovos de Praga ...

Patrick disse...

O Arnaldinho está poro aí, vestido com a camisa amarela da CBF, defendendo Bolsonaro e a Lava-Jato. Seu comportamento e o de seus pais é o típico da elite brasileira, descrito pelo sociólogo Jessé Souza em sua produção recente.