sexta-feira, junho 14, 2019

O teste do algodão


Estão decorridos menos de seis meses desde a entrada em funções de Jair Bolsonaro como presidente do Brasil. Salvo para os turiferários de serviço, para quem a realidade é um detalhe que a fé manda ignorar, está hoje bastante generalizado o sentimento, mesmo em alguns setores que votaram no atual presidente, de que o saldo da nova governação fica muito aquém do aceitável. O presidente, muitos agora o reconhecem, é “despreparado”, como se diz no Brasil, cometeu erros crassos na formação do governo, vive rodeado por uma corte incendiária de filhos e por militares que tentam controlar o seu tropismo para a asneira. Porque não tem um partido sólido no qual se possa apoiar, não conseguiu ainda estabilizar uma relação operativa com o Congresso, o que faz com que todas as iniciativas legislativas sejam marcadas por um casuísmo que fragiliza a sua liderança. Os sinais económicos, que alguns pensavam poderem seguir num sentido otimista, são dececionantes, com os últimos dados do Banco Central a apontarem para uma expetativa de crescimento que não excede 1%.

Bolsonaro é um presidente conjuntural. Recebeu o voto útil de quantos, no essencial, queriam, a todo o curso, barrar o caminho ao PT. Colado à imagem da corrupção, o partido que Lula havia levado à conquista política do Brasil isolou-se fortemente de muitos setores da sociedade, radicalizou o seu discurso e foi estigmatizado pela generalidade dos seus opositores, permanecendo hoje num gueto político. Pelo caminho, ficaram Dilma Rousseff, vítima de si própria e do facto de ter sido “criada” por Lula, e o seu infiel vice-presidente, Michel Temer, afinal mais um peão no xadrez das acusações de improbidade que marcam a imagem de grande parte da classe política tradicional.

Para que a “despetização” do Brasil tivesse sucesso, era necessário afastar Lula da cena política. É que a hipótese dele poder ser eleito nas últimas eleições presidenciais chegou a ser muito elevada. Acusado de alguns crimes, o antigo presidente viu o calendário desses processos ser acelerado de uma forma que só por ingenuidade ou má-fé se pode considerar ter sido natural. Independentemente da sua possível culpabilidade, ficou bem patente que houve lugar a uma aliança objetiva entre os setores políticos que desejavam o seu afastamento e a máquina judicial que o acusou e rapidamente o condenou. Nesta última, surge o nome do juiz Sérgio Moro, ainda um herói para uma maioria dos brasileiros, que Bolsonaro foi buscar para seu ministro da Justiça.

Veio agora a saber-se que, na preparação do processo, o juiz que acabaria por condenar Lula havia mantido uma cumplicidade operativa com a acusação pública, o que a lei expressamente proíbe. Algum escândalo está instalado, sendo contudo óbvio que tal technicality não impressionará minimamente Bolsonaro. Por isso, o grande teste, o “teste do algodão” para se perceber se o Brasil passou já a fronteira da preservação das regras básicas do Estado de direito, será a atitude dos órgãos de Justiça que saem da alçada do ministro face a este caso.

(Publicado hoje no semanário “Jornal Económico”)

Dislate

Eu sei que, nos fins de semana, as redações têm mais estagiários. Mas devia haver um "adulto na sala" que impedisse este tipo de d...