domingo, 2 de junho de 2019

Desvios no património cultural


Em julho de 2017, o então ministro Luís Castro Mendes, mandou fazer uma inventariação das obras de arte que pertencem ao espólio da Cultura, uma coleção que havia sido iniciada, em 1976, por decisão do secretário de Estado David Mourão Ferreira.

Ontem, foi revelado, na comunicação social, que, como resultado dessa inventariação, se constatou que mais de centena e meia dessas obras terão desaparecido, nesse período de cerca de 40 anos.

Faz-me alguma raiva pensar que algumas pessoas, tidas como merecedoras de confiança, a quem foram entregues obras pertencentes ao Estado, destinadas a serem exibidas em lugares sob a sua responsabilidade, por incúria ou por dolo, contribuíram para que esse património tivesse um descaminho.

Algumas dessas pessoas foram negligentes, outros ter-se-ão, muito simplesmente, “abarbatado” com essas obras de arte. Embora saibamos que, para muita dessa gente, a vergonha não será um sentimento muito relevante, acho que mereciam, como “recompensa”, que o seu nome entrasse para um “quadro de desonra” pública, para além da justiça os responsabilizar pela canalhice de que foram responsáveis.

Em 2005, quando cheguei a Brasília, para chefiar a embaixada de Portugal, dei-me conta da existência, nas paredes da residência e da chancelaria, de dezenas de obras de arte de autores portugueses, algumas delas magníficas. Sem o menor encargo para o Estado - repito, sem se ter gastado um tostão, com tudo pago por mecenato - decidi reunir todas essas obras, juntando-as com outras oriundas de coleções particulares em Brasília, e organizámos uma exposição da arte portuguesa existente em Brasília, que foi inaugurada no dia 10 de junho desse ano. A comunidade portuguesa em Brasília pôde então usufruir dessa exposição, sob a curadoria de Karla Osório e a responsabilidade organizativa do então conselheiro cultural e diretor do Instituto Camões na nossa embaixada, Adriano Jordão.

Deixo aqui a imagem do catálogo dessa exposição de 2005, que, em Brasília, funciona, ainda hoje, como uma espécie de inventário das obras que ali são propriedade do Estado português.

5 comentários:

Rui C.Marques disse...

Tenho o privilégio de possuir o livro dessa exposição ( no interior um cartão : " Melhores votos de Natal e um Feliz Ano Novo e um forte abraço do Francisco " ).

Obrigado,Francisco, com um também forte abraço.

António disse...

Não sei como se perde uma obra de arte por negligência. Para mim, será tudo roubo. Se as obras foram adquiridas pelo estado foi roubo de bens públicos. E se há um inventário sabe-se, pelo menos, quais são. Um quadro não tem o conveniente anonimato duma mala de dinheiro.

Luís Lavoura disse...

que o seu nome entrasse para um “quadro de desonra” pública, para além da justiça os responsabilizar pela canalhice de que foram responsáveis

Mas: sabe-se quem foram as pessoas responsáveis pelos desaparecimentos?

Se se sabe quem foram essas pessoas, porque não são acusadas de roubo (ou de seja o que fôr) pelo Ministério Público?

Anónimo disse...

Alguém já foi ver à Chamusca?

Desapareceram 170 obras da colecção de arte do Estado.

Anónimo disse...

muito mau, muito desagradável e injusto que não cuidem do património de todos !
mas segundo se houve dizer, roubam-se santos nas igrejas, cruzes de pedra nos cruzeiros, lençois nos hospitais, dinheiro nos bancos: quero acreditar que é mentira ou que estão perdidos temporariamente e tudo se vai recuperar !