Vi, há minutos, o discurso da rainha Isabel II ao país. Estava lá o essencial. Quem escreveu o texto fê-lo com uma grande atenção aos pormenores, sem gongorismos e numa linguagem escorreita e muito adequada. A mensagem tinha um tom muito profissional, bem à altura da grande profissional da representação simbólica do poder que aquela senhora é. Pela primeira vez num seu discurso real - e lembro-me de todos os anteriores, desde aquele que ela mencionou, nos anos 40 - houve um “editing” de imagem, intercalando neste caso cenas do combate ao vírus. O Reino (“so far”) Unido do futuro deve ter gostado: modernidade qb e tradição com conta peso e medida. Como gostou, com certeza, daquela imensa serenidade, a roçar, como sempre, uma aparente frieza - menos “blood, sweat and tears” e mais “we shall overcome”. Até nisso, o discurso foi britânico. Enfim, foi uma boa peça, de alguém que falou com a autoridade da muita História que já passou por ela, onde não faltou a inevitável referência à Commonwealth, embora, neste caso, a diversidade da dita impeça qualquer juízo valorativo de eficácia sobre o modo como aí terá sido sentida a mensagem. Há ainda algo que me marcou: a pompa com que todas as televisões marcaram a entrada em cena da soberana. Persiste por ali um respeito, que faz parte da coreografia que sustenta a monarquia, e que uma vez mais ficou bem visível. Mas quando esta senhora morrer, e ela “já não vai para nova”, ou há uma imensa inteligência e bom senso da parte de quem lhe suceder, ou esta “magia” dificilmente sobreviverá por muito tempo.

Uma Monarquia, bem establecida, por vezes tem algumas claras vantagens.
ResponderEliminarExiste alguém que politicamente pode falar, calma e soberanamente, em tom apartidário.
Enfim, alguém que pode falar a todo o seu Reino, com autenticidade, sem estar a namorar apoios partidários para o próximo acto eleitoral.
Exelente exemplo, este.
Senhor Embaixador, a dita "magia" é atualmente, como dizem os ingleses wishfull thinking. O Reino Unido não é atualmente, nem cultural nem demograficamente, o mesmo país do tempo em que o Rei Jorge VI, pai da atual, fazia discursos na BBC rádio, ouvidos quase religiosamente. O protocolo vai-se mantendo simplesmente por inércia, para delight dos saudosistas. Vamos colocar as coisas em perspectiva.
ResponderEliminarFoi um discurso bem medido. Não teve nada a mais nem a menos. Proferido de forma firme, com um toque de ‘stiff upper lip’, mas também humano. Aos 94 anos continua um exemplo de representação da instituição que encarna.
ResponderEliminarO impacto real das palavras da Rainha mede-se pelo facto de enquanto ela apelava para os ingleses ficaram em casa, os mesmos invadirem alegremente os parques e jardins de Londres. ;)
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