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terça-feira, abril 21, 2020

Brasília e as duas igrejas


Faz hoje precisamente 60 anos que foi inaugurada a cidade de Brasília, a nova capital do Brasil.

Por lá, imagino que os tempos não vão para grandes comemorações, mas, não obstante, quero deixar aqui um abraço aos muitos amigos que ali deixei, com alguns dos quais mantenho um contacto regular.

Nesse abril de 1960, Portugal foi convidado a estar presente, ao nível religioso mais elevado, nas cerimónias: o cardeal Gonçalves Cerejeira celebrou a missa inaugural da nova capital. Diz-se que a homilia do prelado luso foi de muito difícil compreensão por parte do auditório, o que ocorre muitas vezes quando o português de Portugal é falado de uma forma muito cerrada. Acresce que o “ch” beirão do amigo de Salazar deve ter agravado ainda mais essa dificuldade.

Ao seu lado na celebração, Cerejeira tinha um arcebispo brasileiro. Era um nome, à época, ainda pouco conhecido. Mas, curiosamente, era um homem que iria ficar na História do Brasil, por, anos mais tarde, ter tomado posições de grande coragem, ao lado dos pobres e dos perseguidos pelo sinistro regime militar que, quatro anos depois, iria tomar conta, por quase duas sangrentas décadas, do quotidiano sócio-político do país.

A missa inaugural de Brasília seria assim celebrada pelo prelado que abençoou a ditadura portuguesa, Gonçalves Cerejeira - pessoa que não levantou um dedo face às perseguições de que foi alvo o padre Abel Varzim ou António Ferreira Gomes, bispo do Porto - e por Hélder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife, que seria a face da dignidade da igreja brasileira face ao arbítrio da ditadura brasileira.

Uma imensa ironia, nesse dia 21 de abril de 1960. Faz hoje 60 anos.

(Há trze anos, a convite da TAP, publiquei na sua revista de bordo uma espécie de homenagem à cidade. Tirando referências de conjuntura, o texto permanece válido, para quem tiver interesse em lê-lo aqui.

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